Indec�ncia de Fl�vio Bolsonaro n�o � simples jogo de cena

Indec�ncia de Fl�vio Bolsonaro n�o � simples jogo de cena

Flávio Bolsonaro é indigno até da derrota. Não é por acaso que não a aceita. Está no pedigree. Para o primeiro debate com Lula, na Band, entre uma mentira e outra, e antes de lhe corrigirem o rumo, o primogênito de Jair quis incorporar o padre Kelmon. Encarnou o agente do caos, a irresponsabilidade do malandro contra a maturidade do homem de Estado. Foi uma vergonha, mas, mesmo se nunca mais tiver outra oportunidade de nos exibir a indecência de sua figura, seria ingenuidade pensar, como quis acreditar parte da elite financeira que o apoiou, que a ameaça dessa impostura fosse estratégia pontual, simples jogo de cena. O francês Pascal Quignard, autor de "Complementos à Teoria Sexual e sobre o Amor" (Ercolano), tem uma visão peculiar e libertária sobre o caos: o caos é o oposto da regra. É o que vem antes da domesticação do humano e do domínio da linguagem. É onde está o fundo e a verdade do ser. Caos é, de fato, o primeiro dos deuses gregos, a origem, a pulsão que não conhece o tempo, traduzida no mito moderno do Big Bang. Não é desse caos que estamos falando quando falamos do bolsonarismo. É o inverso, a reação e o medo: o caos como condição da tirania. No capítulo sobre Étienne de La Boétie (1530-1563) e seu "Discurso sobre a Servidão Voluntária" (também chamado "Contra um"), Quignard se pergunta: "Por que a tirania confere um sentimento de proteção àquele que se submete?". E passa a discorrer sobre o desamparo, "a ausência total de auxílio ou de socorro", que nos aflige à beira do abismo onde nascemos. O projeto da tirania é semear o caos, a sombra da origem e da morte, para então oferecer o ombro e exigir fidelidade e sujeição. O agente do caos precisa que você se submeta ao seu poder, por medo do desamparo que ele próprio promove ao rir da morte, ignorar a ciência e a razão, eliminar os direitos e se aproveitar das falhas das redes de proteção e apoio, para em seguida destruí-las e se instalar entre os escombros. O projeto da tirania é substituir uma ordem por outra, impor sua lei contra o direito, tomar o lugar das instituições, vampirizá-las. É a lógica e a tática da milícia quando diz que veio combater o crime. Era o projeto de Bolsonaro para o Brasil. O caos para Quignard é o oposto da tirania que o usa como ameaça, porque ele também é o avesso da uniformização e da universalização de que ela precisa para se impor. Essa visão por assim dizer literária, artística, reconhece o caos na diferença que resiste em algum canto do rebanho, na parte selvagem do sonho, vestígio do estado anterior à uniformização da linguagem. Daí o "Contra um" alternativo no título do "Discurso" de La Boétie: não o coletivo ou o uno, que, no final das contas, dão no mesmo (reproduzem o mesmo poder), mas o plural, ou antes, o singular, na solidão e no desamparo da liberdade. "A elevação do tirano e o efeito de multidão que o eleva constituem as duas faces da moeda da autodomesticação tão espantosa da nossa espécie quando da irrupção da linguagem e de sua universalização...", escreve Quignard, antes de concluir que "solidão e arte caminham juntas". É diante do desamparo da liberdade que o homem escolhe a religião em vez da arte. É aí também que a tirania torna-se crença. É por isso que, contra a tirania, La Boétie diz que basta não acreditar. Entretanto, ameaçado pela sombra do caos, o homem a abraça, opta pela impostura da proteção de quem o sujeita, engana, explora e rouba. É o paradoxo do bolsonarismo. O nacionalismo e o racismo das extremas direitas dos países ricos tendem a associar a ameaça do caos ao outro, ao "selvagem", aos imigrantes e refugiados do chamado "Sul Global". O estrangeiro é o bode expiatório de Donald Trump e de Marine Le Pen, o demônio a ser expelido ou mantido fora das fronteiras. À extrema direita brasileira, descaradamente vendida e entreguista, só resta associar o demônio aos próprios brasileiros. É a tragédia suicida de uma crença escatológica votada a encenar o inferno dentro do próprio país. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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