O aumento das incertezas sobre a trajetória das contas públicas brasileiras e sobre o cenário internacional levou o Tesouro Nacional a ampliar a fatia de títulos da dívida federal atrelados à taxa Selic durante o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No início deste ano, a proporção desses papéis na dívida pública federal alcançou o maior patamar desde outubro de 2005. Em junho, eles respondiam por 49,32% do total, percentual ainda muito próximo do pico de janeiro de 2026 (49,42%) e 11 pontos percentuais acima do observado em dezembro de 2022 (38,25%). As LFTs (Letras Financeiras do Tesouro), títulos públicos atrelados à Selic, são consideradas o porto seguro da dívida brasileira sob a ótica dos investidores. Elas oferecem menos risco do que os prefixados (cuja remuneração é conhecida no momento da compra) ou os vinculados à inflação (que também têm uma taxa fixa, mas são corrigidos conforme o IPCA), que podem sofrer perdas quando a taxa de juros da economia sobe. Para o Tesouro, as LFTs são um instrumento importante para garantir o financiamento do país em momentos de turbulência nos mercados, quando o apetite pelos demais títulos costuma ser menor e a emissão fica mais cara. No entanto, a maior exposição à Selic aumenta o risco para a dívida pública, pois o custo de financiamento do governo fica sujeito às oscilações dos juros definidos pelo Banco Central. Basta um choque de juros para que o serviço da dívida fique automaticamente mais caro. Foi o que aconteceu quando o Copom (Comitê de Política Monetária) começou a elevar a taxa básica em meados de 2024. A Selic saiu de 10,50% para 15% ao ano, contribuindo para elevar a conta de juros do governo federal —que subiu de 5,25% do PIB (Produto Interno Bruto) para a casa dos 7% do PIB no mesmo período. A taxa básica ficou nesse patamar até março de 2026, quando o BC iniciou uma redução gradual. Hoje, a Selic está em 14% ao ano, mas a conta total de juros não caiu, dado que o Brasil está mais endividado do que há dois anos. Pelos dados do Tesouro, o custo médio do estoque da dívida em 12 meses alcançou 12,68% em junho, o maior patamar desde setembro de 2016. Já o custo médio das novas emissões atingiu 14,20%, o maior desde outubro de 2016. Boa parte do aumento vem da maior participação das LFTs, embora as taxas dos demais títulos também estejam subindo. É por isso que, em sua estratégia para os próximos dez anos, o Tesouro busca reduzir a fatia dos papéis atrelados à Selic a 23% da dívida. A fotografia atual, no entanto, mostra que o Brasil detém mais que o dobro disso. Considerando as metas de curto prazo, as LFTs já estão próximas do teto de 50% estipulado como alvo para este ano. Técnicos do órgão já anunciaram que devem rever a meta justamente para acomodar uma participação ainda maior desses títulos. Para economistas e integrantes do próprio governo, a maior concentração da dívida federal nesses papéis é mais um sintoma do que uma estratégia deliberada. Diante das incertezas e desconfianças, os investidores reduzem a procura por papéis prefixados (com custo mais previsível para o Tesouro, mas maior risco para quem aplica) ou vinculados à inflação (cujos juros reais alcançaram 8% em alguns prazos, um patamar elevado). Essa demanda migra para as LFTs. "Se a gente pegar uma série histórica mais longa, vai ver que, em momentos de melhora da perspectiva fiscal, a composição da dívida também melhora. Em momentos de piora da perspectiva fiscal, a composição da dívida sente isso, principalmente com aumento de [títulos atrelados à] taxa flutuante [Selic]", afirma Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Rena. A mínima histórica de participação dos títulos atrelados à Selic na dívida federal, na casa dos 18%, se deu em 2014, quando o Brasil ainda tinha grau de investimento (um selo de bom pagador conferido pelas agências de classificação de risco) e, consequentemente, maior participação de estrangeiros na dívida. Naquela época, os não residentes detinham 20% dos papéis emitidos pelo Tesouro no mercado interno. Hoje, sem grau de investimento, essa fatia é de 10%. Desde a perda do selo, em 2015, a composição da dívida pública vem passando por uma piora que se aprofundou no atual governo. Para Vital, as razões vão desde as turbulências no cenário externo, agravadas pela guerra no Oriente Médio, até as incertezas sobre a trajetória das contas do Brasil. "Existe uma questão fiscal que precisa ser encarada, principalmente pelo Congresso, e isso vai levar a uma perspectiva fiscal melhor, a uma redução de endividamento e uma melhor composição da dívida pública", avalia Vital. Outros fatores pesam, como a maior dificuldade de emitir NTN-Bs, atreladas à inflação. O governo tem apontado a concorrência com títulos privados isentos de Imposto de Renda como uma distorção. O economista Guilherme Almeida, analista da Suno Research, vê também uma saturação da demanda dos fundos de pensão por esses papéis. Para ele, emitir LFTs tornou-se "mais barato e mais fácil" para o Tesouro diante do aumento das demais taxas. "Mas a gestão dessa dívida se torna mais difícil porque não existe previsibilidade sobre quanto será o custo efetivamente", alerta. O governo coloca mais peso nos fatores externos, como o aumento na taxa de juros dos Estados Unidos, que serve de âncora para os demais mercados, e os efeitos da guerra, que acabam empurrando os investidores para apostas mais seguras. O economista Fabio Terra, chefe de gabinete do ministro Dario Durigan (Fazenda), afirma que o déficit do governo teve impacto na dívida em 2023 —naquele ano, o governo regularizou pagamentos de sentenças judiciais que haviam sido adiados pela gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Mas argumenta que a trajetória de expansão do endividamento que se seguiu em 2024 e 2025 foi puxada pelo comportamento dos juros. "Desde lá, o resultado primário tem tido comportamento praticamente neutro sobre a dinâmica da dívida, o que é fruto do esforço fiscal feito pelo governo", diz. Segundo ele, um estudo da SPE (Secretaria de Política Econômica) mostra que o impulso fiscal (efeito líquido dos gastos públicos sobre a atividade econômica) foi negativo entre julho de 2024 e junho de 2025, e o resultado positivo observado depois disso ainda é insuficiente para compensar o período anterior. "Isso sugere que a dinâmica de juros não guardou relação com o impulso do gasto no período, já que, na maior parte da escalada da Selic, o impulso estava negativo." Segundo Terra, o objetivo do governo agora é que a continuidade do esforço fiscal contribua para reduzir a dívida. A reportagem questionou o Tesouro Nacional sobre o tema, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. Na divulgação do PAF, em janeiro, o órgão elencou as condições de demanda por títulos de maior prazo como "principal desafio". "Avanços na consolidação fiscal, com reflexos sobre a recuperação do grau de investimento e maior participação de investidores não residentes, são fundamentais para viabilizar tanto o alongamento da dívida doméstica quanto a convergência da DPF [dívida pública federal] em direção ao benchmark [meta de longo prazo]", disse no documento.
Incerteza sobre contas p�blicas eleva parcela da d�vida atrelada � Selic ao maior patamar em 20 anos
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