Às vésperas do primeiro turno das eleições, Nossa Senhora Aparecida foi entronizada no palanque. A informação veiculada pela GloboNews no dia 24 de setembro, e posteriormente retratada pela emissora, era a de uma reação católica a setores evangélicos que estariam mobilizando um projeto de lei para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil. A retratação, porém, que deveria matar a notícia, tornou-se o marcador da má-fé de quem continuou a espalhá-la. O que se viu a seguir foi o fenômeno da desinformação por descontextualização, uma das formas mais eficazes de criação de desordem informacional. A contestação da lei que declarou feriado nacional o dia 12 de outubro, consagrado à Nossa Senhora Aparecida, tem história. Se há um novo capítulo sendo aberto agora, ainda está por demonstrar. O que é evidente é que esse passado foi exumado nas redes como se fosse atual, reativando um temor antigo e um repertório eleitoral já conhecido: versões da mesma narrativa circularam em 2018 e 2022, associando Jair Bolsonaro (PL) e grupos evangélicos à retirada do título de padroeira. O tema religioso, como sabem os ilusionistas de palanque, mobiliza fortemente o eleitorado. Ele toca no mais íntimo das pessoas, que é sua relação com o sagrado, um modo pelo qual pertencem e se reconhecem. Uma ameaça à padroeira do Brasil é sentida por seus devotos como algo que os atinge diretamente. Ainda mais numa eleição como esta, em que o voto se torna um momento em que se marca a identidade, em que se vota menos por um programa do que para dizer quem se é. A notícia só vingou porque encontrou terreno preparado, adubado há décadas, especialmente pela memória do "chute na santa", em meados dos anos 1990. O contexto ampliado esclarece o solo preparado em que a desinformação descontextualizada vingou —uma corrente do evangelicalismo trata a padroeira como problema espiritual do país. Há que separar os momentos religioso e civil. O pedido para que Nossa Senhora da Conceição Aparecida fosse declarada padroeira do Brasil nasceu em 1929, nas comemorações do jubileu de prata da coroação da imagem, quando religiosos solicitaram ao papa Pio 11 que lhe concedesse o título. O então arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Sebastião Leme, oficializou a proposta a Roma, sendo acolhida em 1930. Quanto ao momento civil, foi a lei 6.802, de 1980, que declarou feriado nacional o dia 12 de outubro (data já escolhida pela Igreja Católica para a comemoração de sua festa) para "culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil", assinado pelo presidente João Figueiredo. Gesto interpretado como um aceno do regime ao papa João Paulo 2º, que, naquele mesmo ano, tornou-se o primeiro pontífice a visitar o Brasil. A reação evangélica aparece em pelo menos quatro projetos: os que tramitam em 1980, 1986, 1995 e propõem a revogação da lei, e em 2007, que propôs sua reescrita —de "padroeira do Brasil" para "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". Nenhuma das iniciativas prosperou. O que está por trás da polêmica atual não é apenas a oposição entre verdade e mentira, mas o modo como uma informação falsa funciona quando se encaixa numa memória de conflito. É justamente aí que a desinformação se torna difícil de combater. Ele não inventa tudo: retira um fragmento factual de sua cronologia e contexto, apagando a distância entre o passado e o presente, oferecendo-o como prova de ameaça atual. O enunciado sobre a mobilização evangélica atual para retirar de Nossa Senhora Aparecida pode ser desmentido, sendo o caso. Mas a enunciação diz algo mais poderoso: o que é sagrado para um grupo está ameaçado. Pouco importa se a correção chegou. O que o episódio nos leva a refletir é sobre a eficácia política da memória religiosa: a mentira política mais eficiente talvez não seja aquela que fabrica um mundo inexistente, mas aquela que reorganiza pedaços do mundo existente até produzir uma afirmação falsa. E, quando essa memória envolve religião, pertencimento e medo, desmentir um fato é mais fácil do que desfazer aquilo que ele fez sentir. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Ilusionistas de palanque carregam santa ao altar eleitoral
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