A IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) encerrou no domingo (2) a reunião quadrienal do Supremo Concílio, seu órgão máximo de deliberações —funciona como um Congresso da igreja, com votos e espaço para fala. Juntou em Manaus cerca de 1.500 representantes dos 404 presbitérios que a denominação tem no país e, ali, optou por fechar o cerco contra Carnaval e Legendários. Também manteve intactas interdições à atuação feminina no dia a dia eclesiástico e a qualquer sopro do que considera marxismo. Decisões que se alastram como rastilho de pólvora em círculos evangélicos e que podem, para um olhar destreinado, passar a impressão de que a turma conservadora levou de goleada. Tentar enquadrar as disputas do presbiterianismo no binômio de esquerda versus direita, contudo, é um reducionismo que empobrece a leitura do que realmente acontece lá dentro. A malha de divergências que corta a IPB é bem mais sinuosa do que a polarização política no meio secular. E talvez mais reveladora do que qualquer veto doutrinário tenha sido a aprovação de uma resolução contra a "maledicência digital", sintoma de como a cúpula da igreja anda alarmada com a perda de controle sobre sua própria imagem. Votou-se por tipificar como infração disciplinar o uso de redes sociais para ridicularizar a igreja ou expor conflitos internos. O "exercício da crítica teológica" não é "salvo-conduto para proferir ataques à honra" de ministros e concílios, tampouco é de bom tom cristão recorrer a "escárnio público" nessas horas, diz o texto. Há sanções previstas para quem levar "supostos erros de lideranças ao ‘tribunal da internet’". Ao punir até compartilhamento de "cortes descontextualizados", a IPB sugere o receio institucional frente a uma membresia conectada e crítica, capaz de produzir desgaste público e influenciar a narrativa na era dos algoritmos. A Igreja Presbiteriana não é qualquer coisa no Brasil. Em 2021, ano do último dado confiável, tinha cerca de 700 mil membros, grão de areia perto dos 47,5 milhões de evangélicos com dez anos ou mais estimados no Censo 2022, em sua maioria pentecostais. Herdeira da tradição protestante histórica, essa denominação tira sua força de outro lugar. A IPB tem presença estratégica fincada na educação, como na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Está no funcionalismo público, no Judiciário e nos bastidores do poder em Brasília —o "terrivelmente evangélico" do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, é pastor em suas fileiras, por sinal. Esse capital educacional e econômico num bloco demográfico mais rico e escolarizado do que a média faz com que contendas internas funcionem como um sismógrafo do próprio debate religioso nacional. Quadros como Hernandes Dias Lopes, aliás, são bússolas para muitos evangélicos que nunca pisaram num templo presbiteriano. Foram dias intensos de debate, com fartas amostras de fragmentação e atrito geracional. A eleição de Juarez Marcondes Filho como novo presidente do Supremo Concílio quebrou 24 anos de mandato do antecessor, Roberto Brasileiro. Mas ficou também a impressão de trocar seis por meia dúzia: ele já era da mesa diretora, e Brasileiro entrou automaticamente como seu vice, algo previsto no estatuto da IPB. O encontro em Manaus cimentou posições históricas. Voltou-se a falar em proibir a filiação a partidos marxistas. A hipótese não prosperou, mas abriu brecha para o concílio reafirmar que vê contradição em membros envolvidos com movimentos considerados marxistas (que, num certo grau, podem ser lidos como esquerda em geral). A situação das mulheres não melhorou. Elas já não podiam ser ordenadas para cargos eclesiásticos, algo comum em muitas igrejas evangélicas, mas interditado em outras tantas —assim como na católica. Mas era aceito que pregassem esporadicamente no púlpito e participassem de atividades como auxiliar na distribuição de pão e vinho da Santa Ceia. De 2012 para cá, grupos presbiterianos questionaram em série permissões do tipo. Em 2022, veio a restrição definitiva. Havia esperança de revogar essas barreiras neste ano. Nenhuma das tentativas foi para a frente. Um reverendo da casa, Jackson Fonseca, chegou a divulgar um "voto de protesto" contestando a manutenção do veto, propondo uma leitura contextual da Bíblia. Afinal, a IPB não leva a ferro e fogo orientações bíblicas como o véu obrigatório para a mulher orar em público, argumentou. Por que não interpretar a negativa à pregação feminina, de fato prevista no Novo Testamento, como algo que fazia sentido para um certo tempo e lugar, e não uma ordem universal? Um trabalho de evangelização no Carnaval mineiro provocou um questionamento sobre a conveniência de participar da festa de rua, ainda que com intenções cristãs —o ato em si contou com a distribuição de folhetos e jovens que, por meio de letras em suas camisas, formavam a frase "Jesus te ama". A IPB julgou a estratégia missionária na folia como inadequada. Também ruidoso foi debater se o Legendários, projeto que liquidifica ingredientes de coaching e cristianismo como resposta à crise da masculinidade, é tolerável para a régua presbiteriana. Decidiu-se que não, não é, e a adesão ao movimento foi desaconselhada. O reverendo Arival Casimiro, que lidera um templo em Pinheiros (zona oeste de São Paulo), tranquilizou o "pessoal do Legendários" em vídeo que viralizou entre presbiterianos. "Tem espaço pro Legendários aqui. Sobe na montanha, se o Espírito Santo falar com você, quando você descer da montanha você é uma nova criatura, é nosso irmão. Não se apavora não, tá? Os concílios erram." Nem tudo foi para o cabo de guerra. Entre pontos menos divisivos, uma determinação para que as igrejas respondam de forma mais eficiente a suspeitas de abuso e violência contra menores de idade, "sem conduzir investigação interna substitutiva", ou seja, sem propor uma solução caseira para algo tão grave. Também se comemoraram medidas para acolher pessoas atípicas e com deficiência. Algumas agendas com potencial de causar discórdia ficaram para depois. Caso de um parecer que rejeita a incorporação, sem "filtro teológico", de premissas da psicologia tidas como incompatíveis com a doutrina da casa. A ideia é que categorias clínicas como trauma, ansiedade e depressão até possam valer, desde que interpretadas à luz das Escrituras, segundo documento que deverá ser avaliado num momento posterior. O enquadro à "maledicência digital" sintetiza dilemas dessa igreja em constante fricção. Ao tentar pôr ordem no "tribunal da internet", a IPB revela o esforço para blindar sua imagem externa e ocultar a lavagem de roupa suja online.
Igreja Presbiteriana do Brasil encerra conc�lio com cerco a 'tribunal da internet'
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