A inteligência artificial e plataformas de big techs tentam capturar a nossa mente, e tantas pessoas —hipnotizadas pela rolagem infinita e pela montanha-russa emocional criada pelas telas— perdem o controle das próprias vidas. No recém-lançado "O Monge, o Iogue e o Faquir" (Todavia), Ronaldo Lemos discute esse cenário a partir da metáfora de uma carruagem desgovernada, em que as suas partes —o corpo, as emoções e a mente— são cooptadas pela tecnologia, o que rompe o equilíbrio necessário para ser bem conduzida. Neste episódio, Lemos fala sobre os três arquétipos do título do livro, inspirados em tradições espirituais da China, da Índia e do Ocidente, e aponta caminhos para cultivar o faquir, o monge e o iogue no interior de toda pessoa. O autor defende que é preciso resistir à guerra do Vale do Silício contra a introspecção e se opõe às ideologias que prometem, por exemplo, que a IA vai criar um mundo de abundância universal. Lemos sustenta que não existem trocas reais entre a IA e os humanos, por mais que as máquinas sejam ótimas ilusionistas e tentem convencer do contrário. Por isso, não ache que uma IA pode ser a sua namorada ou a sua terapeuta. Também não é bom pensar em terceirizar o raciocínio para elas: em vez de virar um super-herói da produtividade, ele diz, é mais provável fritar o cérebro e ficar burro. Lemos é advogado, mestre pela Universidade Harvard e doutor pela USP. Cofundador do ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro), foi um dos idealizadores do Marco Civil da Internet e é colunista da Folha. Leia abaixo os trechos principais da entrevista. A íntegra está disponível em áudio. A metáfora vem do "Katha Upanishad", texto central para o hinduísmo que foi a peça fundamental para eu desenvolver o argumento do livro. Ela diz que o nosso corpo é o carro da carruagem, as nossas emoções são os cavalos, a nossa mente é o cocheiro e o mestre da carruagem é quem comanda esse conjunto. O ponto do livro é que a nossa carruagem está totalmente desgovernada porque a tecnologia aprendeu a cooptar os cavalos, a capturar e prender o carro da carruagem e, sobretudo, a hipnotizar e controlar a nossa mente. Muitas vezes, cada um desses elementos quer ir para um lugar diferente e a gente sente isso porque o mestre está ausente. A maioria dessas decisões não é tomada por nós. Acho que muita gente sente hoje que perdeu o controle da própria vida e que passa boa parte do tempo fazendo coisas que não gostaria de fazer, inclusive ficar em frente a uma tela por nove horas e 13 minutos. Essa é a média no Brasil hoje —o segundo maior tempo de tela do mundo, só atrás da África do Sul. A guerra contra a introspecção Essa questão exige uma resposta coletiva e uma resposta individual. A resposta coletiva está acontecendo: o Brasil proibiu o celular na escola, o que acho excelente, e a gente está vendo discussões para proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos. Mesmo olhando para a Europa, que se tornou uma superpotência regulatória, a questão é: as pessoas estão felizes? As carruagens estão obedecendo aos seus mestres e está tudo ok? Não, não tem nada ok. As pessoas estão se sentindo tão sem controle das próprias vidas como em outros lugares. Para piorar, a IA não chega no momento em que está tudo bem e as pessoas estão descansadas e aguardando uma novidade tecnológica. É o contrário. O livro trata de algo menos falado: como a gente se organiza e entende o que a tecnologia faz conosco para conseguir reagir no plano do indivíduo. Ele não é um manifesto contra a tecnologia porque já existem vários que fazem o diagnóstico e falam da regulação. Nenhum desses textos fala do que você faz com você mesmo e com o uso do seu tempo. O meu texto é mais para olhar para a gente, a nossa carreira, a nossa família, os nossos filhos e as nossas comunidades e falar: "Posso fazer coisas diferentes e ter uma vida interior que me protege da tecnologia". Se você olhar as ideologias recentes do Vale do Silício, há uma guerra contra a vida interior. Você vê muita gente falando que a introspecção é um grande problema e que a gente tem que se livrar da introspecção. Isso virou um lugar-comum. O meu livro, ao contrário, fala para a gente proteger a introspecção porque, quanto mais a gente tiver a nossa vida interior protegida, menos vulnerável vai estar, inclusive com relação à chegada da IA. Os três arquétipos O faquir representa a nossa relação com o corpo e a disciplina física. O monge, com as emoções, a devoção e o prazer. O iogue, com a mente, o estudo, o intelecto e a resolução de problemas. Você pode olhar para qualquer tradição filosófica e encontrar esses arquétipos. Eles vivem dentro da gente. Esses arquétipos podem ser caminhos de transformação e de libertação —é o que proponho no livro— ou de cooptação. Você pode ser capturado pelo seu faquir, seu monge e seu iogue. A diferença é a postura que a gente vai assumir. O faquir tóxico As pessoas, por exemplo, na cidade de Benares, hoje Varanasi, na Índia, impressionavam os visitantes europeus pela disciplina física. Os faquires ficavam sentados em camas de prego e faziam coisas extraordinárias com o corpo. Se você falasse para um desses faquires do século 19 que, no futuro, as pessoas iam ficar olhando para um objeto por nove horas todos os dias pelo resto da vida, eles ficariam chocados. O faquir originário fazia o esforço físico não porque queria ficar mais forte ou mais bonito, mas porque queria ser uma pessoa melhor: alguém que controla os impulsos, entende o caminho do corpo e, a partir dali, gera um benefício para o seu modo de vida. O faquir tóxico é o contrário: ele usa o caminho do corpo —inclusive se submetendo a agulhamentos faciais, rotinas de treino e de jejum que fariam inveja aos faquires históricos—, mas não quer ser alguém melhor. Ele quer ser mais bonito ou atingir um padrão de estética que está vendo no celular. O caminho do corpo pode se deturpar de várias formas: disciplinas físicas radicais para agradar os outros e ter uma imagem mais palatável para o gosto das redes sociais ou o caminho da negligência, de desistir do corpo e acabar em uma vida de sedentarismo em que o carro da carruagem vai oxidando e se enferrujando. Esses caminhos não são de transformação. O caminho que proponho é o contrário. Se você usar a atividade física para se distanciar das telas, é um santo remédio. O monge dopaminérgico A relação com o amor, a devoção, o prazer, os sentimentos e as sensações é o ponto-chave que a tecnologia captura. A pessoa que está no TikTok vendo vídeos curtos está sendo chamada nesse aspecto e entra em uma montanha-russa emocional. Você tem alegria por dois segundos e depois tristeza, ansiedade, euforia e frustração. O resultado disso para o coração é o pior possível: ele se anestesia e se resseca. Você se torna indiferente às emoções fora da tela por serem sem graça, envolverem atritos e desconfortos e serem muito mais lentas, sem mudar a cada dois segundos. Ao fazer isso, a gente perde elementos fundamentais da vida humana, como a benevolência, a compaixão e a gratidão. As pessoas caem nisso não porque são fracas, mas porque aceitam que os seus corações sejam treinados pela tecnologia. Isso gera uma infelicidade individual. É o famoso "doom scrolling": você pega o celular para checar uma mensagem e, de repente, se vê por horas passando o feed da rede social. No final daquilo tudo, se sente péssimo e larga o celular com uma sensação de vazio e de perda de tempo. Quem planta colhe. Se você praticar apenas esse tipo de uso do seu coração por nove horas todos os dias, é o coração que vai ter. O que falo no livro é que você pode treinar o coração de outras formas —pode parar de cair nesse comportamento compulsivo e treinar o coração para ele voltar a se alegrar, inclusive com coisas simples. Superar a batalha da tecnologia não é uma luta apenas mental. A gente vai ter que lutar com o nosso coração. Sem fazer essa luta, as chances de sair dessa captura são muito pequenas. O iogue acelerado Quando a gente fala de yoga, as pessoas lembram das posturas físicas e da yoga como uma prática corporal. A yoga original é uma prática mental. A definição de Patanjali é que a yoga é a cessação das flutuações da mente. O iogue acelerado é a pessoa que reduz a sua vida ao trabalho mental. Já me identifiquei com ele e já paguei preços elevados por isso. Na sociedade de hoje, muitas vezes a gente confunde pensar bem com viver bem e acha que, se a gente se tornar um operador mental capaz de conhecer repertórios vastíssimos, operar as tecnologias mais recentes e compreender o mundo, tem o caminho garantido para resolver todos os aspectos da vida. O caminho da mente também é libertador, mas o problema é que está plugado na ideia de produtividade. Aí entra Byung-Chul Han, que fala que, na sociedade do desempenho e do cansaço, a gente se tornou o chefe e o funcionário de nós mesmos. Você fica com a promessa de que o seu sucesso só depende de você. Os cavalos se agitam e ficam te puxando para continuar trabalhando. resultado disso é o desequilíbrio com os outros arquétipos: o coração passa a ser negligenciado, às vezes o corpo também e, uma hora, a mente funde. Daí os casos de burnout, de depressão e de ansiedade e essa epidemia de problemas de saúde mental. A mente, hoje, se pluga diretamente na tecnologia. Os feeds, as notícias e o desejo de saber o que está acontecendo e de participar do mundo das ideias podem ser um caminho de transformação muito positiva ou podem ser o iogue que acelera até quebrar. A IA é uma força que provoca uma desigualdade brutal e vai provocar ainda mais. Me preocupo muito com o Brasil porque o requisito para usar a IA bem é o domínio da língua portuguesa, mas dados do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) dizem que só 10% das pessoas têm proficiência em português. Na minha visão, diante da IA, não é só educação, só cultivar a mente. A gente vai precisar cultivar corpo, coração e mente. Não adianta só dar estruturas mentais para as crianças e os adolescentes e achar que o coração e o corpo vão achar o seu caminho. No livro, falo que muita gente é faquir involuntário —a pessoa que trabalha oito horas por dia de pé e tem que resistir a esse incômodo porque ganha a vida dela a partir dali. O ponto do livro é que, mesmo nessas circunstâncias, não dá para negligenciar os arquétipos. A busca é para cultivar o equilíbrio, mesmo que as suas circunstâncias sejam de profundo desequilíbrio. Diria até que, para quem está nessa situação, a busca pela retomada do equilíbrio é ainda mais vital. Sei que a desigualdade afeta, e a minha busca é para combatê-la, mas dá para pensar nesse cultivo dentro do possível. Acho que qualquer cultivo já traz um benefício extraordinário. O ilusionismo da IA A IA é terrível porque é muito competente. Está 100% disponível, 24 horas por dia, sete dias por semana. Qual é a maior tentação que você pode ter? Querer usar para ser a sua terapeuta, a sua amiga, o seu namorado, a sua namorada —qualquer coisa que trate a IA de forma antropomórfica. Isso é uma cilada. Você consegue fazer coisas incríveis com a IA para resolver problemas práticos, mas ela é uma terapeuta de quinta categoria. Não tem qualquer qualificação para isso e nem terá porque a terapia envolve o atrito com outro ser humano e falar com o coração, não só a partir da mente. As respostas não podem ser bajuladoras ou querer maximizar a sua presença na tela. O ponto-chave é que é impossível argumentar com uma IA. Todas as frases que uma IA te fala são ações estratégicas no sentido habermasiano. Não são partes de um diálogo, não são uma tese que encontra uma antítese e produz uma síntese. Você pode ter argumentos incríveis e tentar convencer a IA. Aquilo só vai funcionar na sua sessão. A IA não vai mudar de opinião. Nunca vai existir uma relação verdadeira de troca, do que Habermas chamava de ação comunicativa. Esses usos são perniciosos porque a IA é uma grande ilusionista. É uma ferramenta que tem aplicações práticas muito úteis, mas a gente deve se proteger totalmente de ter vulnerabilidades com a IA. O duro é que ela vai estar sempre à espreita. Em uma separação amorosa ou um luto, as pessoas vão ter a tentação de falar alguma coisa para a IA para ver se vão conseguir algum conforto. Não faça isso. Além de tudo, a IA e as suas ideologias estão roubando a linguagem teológica. A IA, hoje, tem arcos escatológicos que prometem um apocalipse da singularidade e arcos soteriológicos que são doutrinas de salvação prometendo que, com a IA, haverá abundância infinita e universal —todo o mundo terá o que comer e não precisará mais trabalhar. Ela promete milagres que as religiões costumam prometer. A linguagem teológica foi totalmente roubada pelas ideologias da IA. O último ponto é o êxtase da produtividade: se você usa a IA mal, se você delega as tarefas mentais para a IA, você fica burro. Tem estudos mostrando que quem escreve com a IA só lembra de 17% do que escreveu. Se você usar a IA para fazer coisas extraordinárias, você se acha um super-herói e facilmente cai em um vampirismo de se prender à IA e ela te sugar, a ponto de ter surgido a expressão fritura cerebral. Você sai frito e vai desenvolver um tipo de cansaço —sei porque já tive— terrível. A gente tem que tomar muito cuidado por estar entre a caldeira e a espada: ou a IA nos emburrece ou nos envaidece. O Ilustríssima Conversa está disponível nos principais aplicativos, como Apple Podcasts e Spotify. Ouvintes podem assinar gratuitamente o podcast nos aplicativos para receber notificações de novos episódios. O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa. Já participaram do Ilustríssima Conversa Dora Kaufman e Giselle Beiguelman, autoras de obra sobre criatividade e inteligência artificial, Djamila Ribeiro, que relançou "Lugar de Fala", Jairo Nicolau, cientista político que investiga as transformações do eleitorado brasileiro, Paula Sibilia, ensaísta que discute o solo moral das sociedades contemporâneas, Adriana Negreiros, biógrafa de Dercy Gonçalves, Benjamin Moser, autor de livro sobre os grandes pintores holandeses, João Paulo Charleaux, jornalista que examina a história do direito de guerra, Rita Carelli, que conta a história de um missionário assassinado na amazônia e do povo indígena enawenê-nawê, Uirá Machado, biógrafo do enxadrista Mequinho, Vladimir Safatle, filósofo que analisa a emergência do fascismo no mundo contemporâneo, entre outros convidados. A lista completa de episódios está disponível no índice do podcast.
IA captura cora��o, corpo e mente e pode nos emburrecer, diz Ronaldo Lemos
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