Um posto de saúde no interior de Roraima vem usando IA (inteligência artificial) para melhorar o atendimento na farmácia da unidade médica amazônica. O algoritmo analisa prescrições e emite alertas sobre dosagens incompatíveis e interações medicamentosas perigosas em tempo real. A tecnologia virou braço direito de Samuel Andrade, 35, coordenador da assistência farmacêutica do município de Caracaraí. "Fizemos pelo menos 600 intervenções para mudar o manejo clínico e evitar eventos adversos", diz ele sobre a plataforma desenvolvida pela NoHarm, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2026 na categoria Soluções que Inspiram. Oferecida de graça a centenas de hospitais públicos, a IA chegou a 341 postos de saúde de 20 municípios do Norte e Nordeste via programa Juntos pela Saúde, do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com apoio da Umane, ao custo de R$ 2,4 milhões. Andrade conta como foi a adesão ao programa, em março de 2025, e os impactos no dia a dia do seu trabalho na UBS (Unidade Básica de Saúde) Manoel Luiz Rodrigues. "A fila na UBS às vezes fica grande. Dez pessoas aguardando para pegar remédio. E sempre chega um paciente com diversas prescrições e faz aquelas perguntas: Posso tomar todas essas medicações? Não vai causar mal? São dúvidas de quem passou por diversos setores e não recebeu informação. Então o encontro com o farmacêutico é a última oportunidade de perguntar. É um direito dele. Só que eu precisaria de mais de uma hora para ler tantas bulas de medicamentos e dar esse retorno com precisão. Assim que eu puxo os dados do prontuário, a NoHarm dá essas respostas em segundos. Ajuda na decisão clínica do farmacêutico, na conversa com médicos, traz segurança. Tínhamos prescrições erradas de antialérgicos e antiparasitários para crianças, por exemplo. Era frasco que acabava bem antes da recomendação e doença que não curava. A gente consegue ajustar a dose com indicação da IA. Eu dei um 'molho' na minha coordenadora quando ela veio falar da inteligência artificial. Na minha função, lido com mais de dez sistemas, é prestação de contas diária. Mais uma? Um ano depois, quando conheci a ferramenta, percebi que tinha perdido tempo. Irmãos criam fábrica de IAs para levar eficiência à saúde e evitar erros em hospitais Para a tecnologia funcionar, recebemos novos materiais de informática, antena via satélite e placas solares, pois temos dificuldades com a internet aqui. A plataforma é dinâmica, de simples manuseio para o farmacêutico, com acesso a cursos e fontes sempre atualizadas. Mais de 25 mil prescrições rodaram no sistema, das quais 11.600 foram avaliadas com mais cuidado. Fizemos pelo menos 600 intervenções para mudar o manejo clínico e evitar eventos adversos. Eu digo que são 600 vidas salvas. Isso trouxe uma mudança na assistência farmacêutica, visibilidade no estado, repercussão internacional. Mas o melhor é a valorização dos profissionais. Geralmente o farmacêutico é aquele lá da ponta. Por vezes não está nem integrado na equipe multiprofissional. A NoHarm muda isso. Mostra que a farmácia não fica só na entrega de caixinha de medicamento. Deu força, visibilidade para o nosso trabalho. Tanto que já estamos buscando a abertura de mais farmácias, para descentralizar a unidade central, com a contratação de farmacêuticos em Caracaraí. Muitos colegas falam dos perigos da inteligência artificial. Mas a tecnologia não tem como substituir o humano, a conversa, o olho no olho, o gesto de carinho do profissional que demonstra estar interessado na sua cura. Apesar de todas as dificuldades aqui no extremo norte da região amazônica, temos uma gestão visionária na saúde, que se moderniza para que o SUS (Sistema Único de Saúde) chegue mais forte a quem mais precisa. E agora eu até brinco com a minha chefe: tu não vai tirar minha amiga IA daqui não, né? É como diz o ditado, em time que está ganhando não se mexe."
IA ajuda a dar respostas a pacientes e salva vidas, diz farmac�utico de Roraima
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