Hong Kong virou a capital da coquetelaria

Hong Kong virou a capital da coquetelaria

Um bar com nome italiano em Hong Kong, o Leone, foi eleito o melhor do mundo pelo 50 Best —três outros da região especial da China também estão na lista. Só Paris e Nova York se igualam em número de bares escolhidos. A China continental ainda comparece com um estabelecimento em Cantão (Guangzhou). The 50 Best Bars é o principal termômetro dos balcões de coquetéis. São cerca de 800 votantes de 29 regiões do mundo numa eleição que existe desde 2009. O júri é composto por bartenders renomados, consultores, jornalistas da área, escritores e especialistas em coquetelaria. A diversidade é grande: no resultado deste ano, há 21 nações representadas. Daí que o ranking inclua um lugar em Tirana, capital da Albânia, país que já foi um dos mais fechados no lado leste da cortina de ferro (ficou bastante isolado após romper com a URSS). E outro em Bratislava, capital da Eslováquia. São Paulo mostrou força com dois escolhidos, os excelentes Exímia e Tan Tan. E os EUA, berço da coquetelaria, só emplacaram a cidade de Nova York. Hong Kong talvez tenha se destacado por conta de sua natureza híbrida, de contrastes e misturas (o que não deixa de ser uma definição possível para coquetéis). A cidade pertence a um país de economia controlada pelo Estado, mas está entre os maiores centros financeiros do mundo, com um IDH altíssimo. Foi colônia britânica por cerca de 150 anos, além de ter sido ocupada pelo Japão na Segunda Guerra, o que lhe dá um caráter multicultural. É a metrópole que concentra mais arranha-céus no planeta, símbolos fálicos de riqueza. O campeão Leone, do mixologista romano Lorenzo Antinori, foi na contramão do espírito-ostentação, que inclui hotéis luxuosos e bares sofisticados (como o suntuoso Argo, também entre os 50 Best), e apostou na simplicidade e informalidade —tem até sanduíche de mortadela no menu. O motto é: "cocktail popolari", menção às cantinas italianas, como está escrito na camiseta dos garçons e bartenders. Hemingway aprovaria. Personagem mais assíduo nas histórias que envolvem taças e copos, foi em 1941 para Hong Kong com a mulher, a jornalista Martha Gellhorn, em parte para cobrir a guerra sino-japonesa. Beberam galões de gimlets e pink gins no Repulse Bay Hotel. Segundo Gellhorn, em seu excelente "A Face da Guerra", os chineses bebem "até os convidados caírem". Alguns meses depois, o exército britânico tentou defender o hotel e as imediações, parte da etilicamente intitulada Gin Drinkers Line, fronteira-limite contra os soldados nipônicos. Inútil. O saquê ganharia do gim. Gellhorn testemunharia o conflito no "Front de Cantão", título de sua reportagem. O autor de "O Velho e o Mar", por sua vez, faria o personagem central de "Ilhas da Corrente", romance póstumo, relembrar os dias que passou em Hong Kong, "cidade realmente maravilhosa". Diz, nostálgico: "nunca me canso de pensar nela." Golden boy (Receita do bar Leone) 40 ml de xerez fino 30 ml de licor Elderflower 5 ml de pisco 10 ml de suco de limão-siciliano 1 lance de orange bitters 1 pitada de sal Mexa com gelo e coe para uma taça coupe. Finalize com casca de limão-siciliano LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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