Hist�ria dos EUA � contada em 15 milh�es de reportagens do New York Times

Hist�ria dos EUA � contada em 15 milh�es de reportagens do New York Times

The New York Times O jornal The New York Times testemunhou a transformação do país. E vai continuar de olhos abertos. Acima da minha mesa, há uma gravura de uma ilha. Ela retrata uma cidade ainda jovem em uma nação ainda jovem. As ruas de paralelepípedo são ladeadas por prédios baixos, nenhum mais alto que a torre de uma igreja. Não há pontes nem túneis à vista; escunas e barcas a vapor com rodas laterais lotam uma orla movimentada, cheia de píeres em atividade. Essa é a Nova York de 1851. Em 18 de setembro daquele ano, na rua Nassau, o jornal que hoje conhecemos como The New York Times publicou sua primeira edição. Montada em sótãos inacabados, à luz de velas, a edição tinha quatro páginas densas e sem cor, só de texto. Custava um centavo. Fachada da sede do jornal The New York Times, em Nova York, nos Estados Unidos - Charly Tribaleeau - 17.dez.24/AFP Na sexta-feira (18), o New York Times completou 175 anos. Quão improvável é que um jornal nascido antes da eletricidade nas casas —sem falar em carros, rádio, telefone, aviões e computadores— ainda esteja aqui. E que sorte a do Times ter testemunhado, registrado e questionado tanta história. No Times, acreditamos que a função de um jornal é buscar a verdade, ajudar as pessoas a entender o mundo e cobrar prestação de contas dos poderosos. Isso significa fornecer às pessoas a informação de que precisam para tomar decisões, aproximar nossas comunidades diversas por meio de um conhecimento maior sobre seus vizinhos e fazer perguntas duras a governantes e líderes empresariais em nome do público —tudo com um compromisso inabalável com a isenção, a exatidão e a independência, noticiando, como diz nosso lema de longa data, "com imparcialidade, sem temor nem favorecimento". É apropriado que este aniversário chegue quando celebramos um marco maior: os 250 anos dos Estados Unidos. Verdade, compreensão e responsabilização são essenciais para uma nação forte e uma democracia saudável. Ao longo de 61 mil edições e cerca de 15 milhões de reportagens, as páginas do Times contam a história do crescimento dos EUA, de uma nação emergente de 24 milhões de habitantes a uma superpotência global de quase 350 milhões. Anunciam novas tecnologias e acompanham as convulsões que vieram depois, registram as batalhas por direitos iguais e revelam os estragos de guerras, crises econômicas e tragédias —e as vitórias de um país que costuma sair delas mais forte. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.Juntas, elas são o primeiro rascunho da história americana. Os principais autores são os repórteres que enviamos para testemunhar o mundo —não só apurando os fatos, mas também dando contexto e explicando por que eles importam. Estávamos lá quando soaram os primeiros tiros da Guerra Civil, em Fort Sumter —nosso correspondente foi logo preso como espião da União. Nos loucos anos 1920, nossa cobertura de Wall Street alertou para a imprudência nos mercados e incomodou poderosos financistas; depois da Grande Depressão, um importante banqueiro disse que o país estaria melhor se tivesse ouvido aquela voz. Nossos correspondentes enfrentaram os campos de batalha da Segunda Guerra Mundial; alguns perderam a vida, outros foram feitos prisioneiros. Em Memphis, quando um assassino baleou Martin Luther King Jr., um de nossos repórteres estava no Lorraine Motel. "Escreva, escreva tudo o que você vê", disse a si mesmo. "Anote tudo." E há 25 anos, neste mês, quando outros fugiam do colapso das Torres Gêmeas, nossos repórteres correram em direção aos escombros em chamas. Depois, nossos jornalistas passaram a viver no Afeganistão e no Iraque para contar as histórias das guerras que se seguiram, e seguimos reportando dos dois países até hoje. Embora nosso compromisso com os mais altos padrões jornalísticos seja insuperável, também cometemos erros. Quando erramos, procuramos ser transparentes sobre o que deu errado e fazer melhor. É isso que significa ser o jornal de referência do país: um jornal grandioso e imperfeito, registrando com firmeza uma nação grandiosa e imperfeita. O Times não teria sobrevivido sem o compromisso dos Estados Unidos com a liberdade de investigação e de expressão. Da mesma forma, o experimento democrático americano teria tropeçado há muito tempo se os veículos de imprensa não exercessem os direitos garantidos pela Primeira Emenda. O autogoverno exige que os cidadãos tenham informação confiável para fazer escolhas conscientes e saber quando seus líderes não agem em seu interesse. Por isso a imprensa é a única profissão explicitamente protegida pela Constituição —"um dos grandes baluartes da liberdade", como acreditavam os fundadores. Hoje, o futuro da imprensa livre americana é incerto. Com o colapso do modelo de negócios baseado em publicidade que sustentava reportagens originais, o país perdeu quase 3.500 jornais e a grande maioria dos empregos no jornalismo local em duas décadas. Essa erosão tende a continuar, à medida que o jornalismo produzido a alto custo é apropriado e reaproveitado em escala inédita pelas gigantes de tecnologia da inteligência artificial. E, nesse estado enfraquecido, a imprensa enfrenta —e às vezes cede diante de— ataques políticos mais diretos a seus direitos e sua legitimidade em mais de um século. Há menos repórteres com recursos e coragem para testemunhar fatos que poderiam passar despercebidos e revelar abusos de poder que nunca foi tão fácil ocultar. Ao longo de 175 anos, o Times aprendeu a trabalhar sob pressão. Colegas meus já foram sequestrados, presos e baleados; um sobreviveu à explosão de uma mina terrestre, outro a uma queda de helicóptero. Outros foram vigiados, expulsos, investigados e levados aos tribunais. Na década de 1870, William "Boss" Tweed, cuja máquina política controlava os governos da cidade e do estado, tentou impedir uma reportagem do Times que levaria à sua queda; seus aliados ofereceram um suborno equivalente a bem mais de US$ 100 milhões hoje, prontamente recusado pelo dono do jornal. Quase um século depois, quando a violência não intimidou nossos repórteres na cobertura do movimento pelos direitos civis, segregacionistas entraram com uma enxurrada de ações judiciais para levar o Times à falência. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesPresidentes dos dois partidos pressionaram a imprensa. John F. Kennedy espionou um de nossos repórteres. Richard Nixon tentou barrar a publicação dos documentos do Pentágono. George W. Bush e Barack Obama recorreram à Justiça para tentar obrigar repórteres do Times a revelar fontes confidenciais. Nenhum presidente da história moderna foi mais hostil que Donald Trump a uma imprensa que ele chama de "inimiga do povo". Ele acusa jornalistas de traição, processa veículos de comunicação e manda o governo investigar, intimar e processar jornalistas por fazerem seu trabalho. Mas Trump, como seus antecessores, ainda lê o Times, ainda responde às nossas perguntas e ainda nos cita quando lhe convém. Numa visita, ele nos disse que nos considera "uma grande, grande joia americana, uma joia mundial". Esta é uma ocasião especialmente oportuna para lembrar que nosso país depende de informação confiável como nunca —talvez mais ainda, já que os veículos restantes dedicados à reportagem original e independente estão sendo ofuscados por influenciadores de redes sociais, propagandistas partidários e robôs de IA que espalham medo, indignação e desinformação. Repórteres são, muitas vezes, o modo como sabemos o que sabemos. Eles registraram os primeiros 250 anos do país e mantiveram as autoridades honestas. O atual período de erosão democrática pelo mundo traz um alerta claro: quando a imprensa livre é enfraquecida, as demais liberdades logo caem também. Se isso parece exagero, desafio qualquer um a encontrar um país onde as pessoas sejam livres, mas a imprensa não. A coincidência entre os aniversários dos Estados Unidos e do Times traz uma promessa implícita de continuidade: nossa nação já passou por muita coisa e encontrará um caminho para superar o que vier. Mas também nos lembra que a história precisa ser registrada para que se possa aprender com ela. Nosso momento é mesmo sem precedentes? Como eventos semelhantes se desenrolaram da última vez? O que funcionou? O que não funcionou? O que vem a seguir? Como sempre, as lições do nosso passado compartilhado e as esperanças de um futuro comum podem ser encontradas nas páginas do New York Times.

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