A relação entre sujeitos heterossexuais tem sido permeada por dilemas que levaram ao uso do termo heteropessimismo. Não que as demais relações sejam fáceis. Está aí a procissão de gays, lésbicas, trisais e outros a deitar no divã, provando o fracasso inerente ao encontro humano. Mas isso nunca nos impediu de amar e encontrar alguma alegria nisso. Sobre o que é estruturalmente manco se impõem as formas de falhar próprias de cada época, contexto e sujeito. Então temos duas trabalheiras aqui. Uma é saber que nunca estamos na mesma página que o outro, que só nos resta extrair o melhor possível dessa situação e que dá até pra ser feliz nesse lugar limitado, desencontrado, mas humano. Outra é entender os fatores específicos de nossa geração que amplificam e, por vezes, até impedem que o amor encontre suas formas possíveis. Insisto nessa primeira avaliação realista do amor porque, sem ela, podemos confundir todas as mazelas das relações que se apresentam na atualidade com qualquer miragem de completude projetada num antes ou num porvir idílicos. Nunca foi fácil, nunca será; com sorte, pode ser gratificante. Quando se trata de relações heterossexuais, temos que lembrar que homens e mulheres vivem um momento de crise de expectativas sobre o papel de cada um. O que era considerado "coisa de mulher" se revelou, em grande parte, uma forma de coerção masculina sobre os desejos e necessidades femininas. A coisa se complica porque não se trata apenas do campo privado, como a disputa por quem lava a louça, mas da esfera pública: quem paga a conta social do trabalho doméstico, quem pode governar um país? Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha A geração que começa a procurar seu par agora se vê dançando uma quadrilha em que ninguém mais conhece os passos. De um lado, mulheres cujo desejo por homens másculos lhes traz de brinde uma masculinidade cheia de depreciação pelo feminino. Vivem o paradoxo de amar tipos que desprezam. Do outro lado, homens que não conseguem distinguir masculinidade de um poder que lhes parecia só vantajoso, hoje são alvo de duras avaliações, das quais se ressentem acriticamente. Raríssimos são os casais que atravessam o umbral no qual o espinhoso tema do poder é tocado com boa-fé de ambas as partes, sem que se torne ele mesmo mais uma disputa… de poder! (Retiro deliberadamente daqui os exemplares masculinos que respondem à emancipação feminina com socos e tiros, para mantermos o nível da conversa com os demais. Mas não ignoro que ambos emergem da mesma lógica de submissão da mulher.) Ainda estamos num momento no qual as ambiguidades imperam e amantes cobram uns dos outros novas posições que não foram inteiramente alcançadas pelos dois. Nem poderiam, pois as relações de poder entre os gêneros sequer foram reveladas. Todos os dias reconhecemos e nomeamos formas de opressão até então inconscientes. Cada novo "fiu-fiu" denunciado descortina e nomeia também formas de conivência feminina, o que nem sempre é fácil para as mulheres encararem. A música mudou, não se espera que só um conduza a dupla, e quem quiser encontrar um par vai ter que olhar muito no olho do outro para não levar pisão no pé. E encontrar algum prazer que justifique a empreitada. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Heteropessimismo ou hetero-realismo?
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.