Harvard devolver� ao Brasil cr�nio de suposto rebelde mal� ap�s 4 anos de negocia��es

Harvard devolver� ao Brasil cr�nio de suposto rebelde mal� ap�s 4 anos de negocia��es

Após quatro anos de negociações, a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, devolverá ao Brasil um crânio de um indivíduo da época da Revolta dos Malês, levante de escravizados muçulmanos que ocorreu em Salvador em 1835. Os restos mortais, que pertencem a uma pessoa que morreu na Bahia, serão entregues em uma cerimônia na próxima quarta-feira (11), às 18h, na Reitoria da UFBA (Universidade Federal da Bahia), na capital baiana. Um segundo crânio, que foi exumado no Rio, também será devolvido por Harvard e entregue à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). As tratativas para devolução foram iniciadas em novembro de 2022 a pedido do Centro Cultural Islâmico da Bahia, com o apoio da UFBA. As negociações foram intemediadas pelos historiadores Bruno Veras e João José Reis, referência na pesquisa sobre escravidão no século 19. O governo federal entrou na negociação em 2024, por meio do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Documentos históricos indicam que o crânio pertence a um indivíduo que morreu na Bahia –há registros sobre a origem do corpo, a data da morte e de seu envio aos EUA. Os pesquisadores consideram plausível que os restos mortais tenham relação com a Revolta dos Malês, mas a origem étnica exata não está definitivamente estabelecida. "Ainda não sabemos se são os restos mortais de um malê que lutou na Bahia no século 19. Mas o fato de esse corpo ter sido retirado daqui como artefato e ter parado em um laboratório de uma das maiores universidades do mundo já diz muito sobre essa história", afirma a historiadora Wlamyra Albuquerque, professora e superintendente de relações internacionais da UFBA. Ela afirma que a restituição do crânio reacende um debate sobre a objetificação dos corpos negros e sobre uma concepção de ciência que carregava uma ideia implícita de desumanização. O crânio foi enviado para os Estados Unidos em 1836, um ano depois da Revolta dos Malês. Naquela época, cientistas utilizavam para pesquisa e ensino restos mortais de povos que eram, de forma racista, considerados por eles inferiores. Menção em relatório interno O crânio foi descoberto em 2022, quando Harvard começou a discutir sua coleção de restos humanos, que inclui ossadas de pessoas negras e indígenas. A primeira menção ao crânio apareceu apenas em junho daquele ano em um relatório interno no qual a universidade examinava sua participação histórica no colonialismo e na escravidão. O relatório foi revelado em reportagem de um jornal estudantil da universidade. Até então, os pesquisadores sequer sabiam da existência do crânio malê. Na época, Harvard publicou um relatório oficial pedindo desculpas e se comprometendo a estudar a devolução. Além do crânio malê, aparece na lista o crânio de outro homem escravizado, provavelmente coletado no Rio de Janeiro em 1865 ou 1866. O xeque Abdullah Hamid Al-Bakr Ahmed, líder do Centro Cultural Islâmico da Bahia, assinou a primeira carta enviada a Harvard reivindicando a devolução dos restos mortais. A comunidade islâmica defende que os restos mortais sejam sepultados na Bahia, seguindo os preceitos islâmicos. "Na religião islâmica, o corpo precisa ser enterrado. Mas, como não haverá o corpo inteiro, qualquer parte dele, seja um membro ou a cabeça, precisa ser enterrada no chão. Deus disse: 'criamos vocês da terra e a ela vocês retornarão'", afirmou o xeque Ahmed. O xeque também diz que o retorno do crânio reforça o pleito da comunidade para a instalação de um espaço para a realização de rituais funerários islâmicos, que atualmente não existe em Salvador. Antes de ser sepultado, o crânio deve ficar por um breve período sob a guarda da UFBA. A ideia é que sejam realizados testes genéticos pelo Instituto de Biologia a partir de um dente molar para tentar identificar a origem geográfica e a ancestralidade do indivíduo. A socióloga Hannah Bellini, que estuda a comunidade islâmica contemporânea na Bahia, diz que este grupo se reconhece como herdeiro de uma tradição ligada aos malês históricos. "É uma comunidade que se autoidentifica como descendente dos malês desde sua fundação, sendo composta de baianas e baianos convertidos, mas também pela diáspora africana", afirma a socióloga, que faz parte do Grupo de Trabalho Arakunrin, que contribuiu na elaboração do dossiê apresentado à universidade. Nas primeiras conversas com os brasileiros, Harvard destacou a importância da devolução dos restos mortais, mas sem assumir compromissos concretos. A universidade passou a negociar de maneira mais efetiva depois da entrada do governo brasileiro no processo a partir de 2024. A Revolta dos Malês foi o maior e mais importante levante urbano de escravizados no Brasil, que deixou sete mortos. A rebelião completou 191 anos em meio a um esforço de resgate de sua memória e celebração do seu legado, que deixou marcas na Bahia. A rebelião eclodiu em 1835, no período regencial, e questionou o regime escravocrata. Foi organizada por muçulmanos iorubás, vindos de regiões onde atualmente ficam a Nigéria e o Benin; na Bahia, eram chamados de nagôs. O termo malê vem de imale, que significa muçulmano em iorubá. O retorno do crânio ao Brasil ocorre em meio a uma onda de devoluções de artefatos históricos a seus países de origem por museus e universidades da Europa e dos Estados Unidos. Em julho de 2024, um manto do povo Tupinambá, que estava havia três séculos em Copenhague e foi cedido pela Dinamarca, foi devolvido para o Brasil e está sob guarda do Museu Nacional, no Rio. Os tupinambás encaram o manto como um artefato sagrado. Ele é usado em rituais por caciques e líderes indígenas, que acreditam que as peças devem estar próximas ao seu povo de origem.

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