Gus Van Sant prefere o lado fraco da hist�ria em 'Ref�m por um Fio'

Gus Van Sant prefere o lado fraco da hist�ria em 'Ref�m por um Fio'

Alguma coisa mudou no cinema de Gus Van Sant desde "Elefante", de 2003, para cá. Naquele filme, estávamos diante de um massacre cometido por jovens contra uma escola, como costuma acontecer nos Estados Unidos com alguma regularidade. A questão era: de onde sai esse crime, o que o motiva? O mistério se impunha.Em "Refém por Fio", tudo se transforma. Conhecemos todos os motivos que levam Tony Kiritsis, vivido por Bill Skarsgard, a sequestrar Richard Hall, papel de Dacre Montgomery. Ele é um "homem comum", como costuma se definir, que fez uma hipoteca na companhia do pai de Richard. Como não conseguiu pagar a dívida, os juros o apertaram cada vez mais e, no fim, ele perdeu sua propriedade para a própria companhia. Foi um caso real, que ocorreu nos Estados Unidos em 1977. Aqui no Brasil, pouco conhecemos sobre hipotecas. Mas conhecemos bem os agiotas e até os empréstimos bancários, em geral, que resultam em linhas gerais no mesmo. Basta ver o endividamento da população brasileira.No filme, Tony arma um esquema bastante sofisticado para manter Richard como refém: quer a propriedade de volta e mais alguma coisa. Quer, sobretudo, que o pai de Richard, M.L. Hall, vivido por Al Pacino, lhe peça desculpas. Ao contrário de filmes anteriores de Van Sant, marcados por certa frieza na observação de seus objetos, aqui tudo é caloroso: a tensão é constante e o diretor não esconde sua preferência pelo lado fraco da história —o "homem comum" explorado pelo sistema financeiro, enfrentando as forças da sociedade, isto é, polícia, justiça, imprensa. Quanto à imprensa, abrem-se variantes: primeiro o DJ Fred, papel de Colman Domingo, que toda Indianópolis —onde se dá a ação— ouve pela manhã, é chamado a funcionar como mediador entre Tony e a polícia. Depois, uma intrépida repórter de TV coloca seu canal ao vivo, o que produz dele uma imagem mais próxima do que ele deseja.Quando não está exposto, Tony tende a ser visto como "monstro" ou um maluco; quando aparece ao vivo, volta a ser o tal homem comum, indignado com a maneira como os fortes dobram os fracos neste mundo. Os momentos dramáticos seguintes demonstram a solidez e a complexidade do plano imaginado e executado por Tony. O período em que sequestrador e sequestrado passam juntos coloca o espectador a par das motivações do primeiro, mas também da racionalidade que orienta os seus atos. Com isso, podemos também pensar que sabemos um pouco sobre o refém, Richard. Mas essa pode ser uma impressão equivocada, já que um refém pode ser levado a dizer —e até a pensar— coisas nas quais não acredita. Van Sant propõe um confronto entre os despojados do sistema e seus beneficiários, um combate que opõe a verdade do pobre às artimanhas do rico e de seus associados —polícia, procuradoria, FBI. Talvez o projeto de Van Sant seja fazer com que, desse confronto, surja o mistério que, em outros tempos, aparecia logo de cara. De fato, algum mistério surge, mas é um tanto ralo. Em relação a trabalhos anteriores, Van Sant perde em inventividade. Aqui estamos próximos de "Horas de Desespero", de 1955, e outra pilha de filmes feitos nos últimos 70 anos. Ao mesmo tempo, o filme é eficaz o bastante para prender a atenção do espectador e interessá-lo no drama do sequestrador e no do sequestrado. Podemos sempre pensar se estamos diante de um louco, de um criminoso ou de um "homem comum" em busca de reconhecimento. Talvez Tony seja os três. Quanto a Richard, seria o herdeiro infeliz de um pai dominador, como sustenta, ou um sujeito que diz o que melhor lhe convém naquela circunstância trágica? Não vamos tão mais longe do que isso. O mais surpreendente de "Refém por um Fio" está nas cenas documentais que aparecem durante os letreiros finais, onde se vê o verdadeiro Tony Kiritsis em cenas registradas nos momentos finais do sequestro. Ali, ele é um tipo baixo, meia-idade, nada bonito, um tanto careca. Em suma, o "homem comum" que Bill Skarsgard está longe de ser. É interessante quando o cinema mente e mostra sua mentira: é então que se aproxima de alguma verdade.

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