"Durante décadas, foi senso comum que cada nova geração seria mais progressista que a anterior." Para Guilherme Cortez, 28, deputado estadual pelo PSOL em São Paulo e candidato à Câmara dos Deputados, essa certeza acabou. Segundo ele, a direita entendeu antes que o mundo estava mudando e aprendeu a falar com a geração Z pelas redes.Já a esquerda teria ido mal nesse ambiente. Eleito aos 24 anos e conhecido pela campanha por "ingresso justo" em shows, Cortez defende uma nova esquerda, com lideranças que ajustem discurso e comunicação a um mundo em transformação. Veja a seguir a entrevista que ele concedeu ao Folhateen. O senhor aposta em pautas voltadas a adolescentes que vão votar pela primeira vez. Por quê? Minha militância sempre esteve associada ao movimento estudantil. Mas a gente começou a perceber que a nossa geração está no centro de uma disputa política. Quem está votando hoje pela primeira vez nasceu perto de 2008, o ano da crise econômica. Dessa crise em diante o mundo começou a ver o crescimento da extrema direita, desemprego, mudanças nas relações de trabalho e o consumo excessivo de telas. A extrema direita pega um menino mais novo e diz que a culpa das frustrações dele é do avanço das feministas, das mulheres que estão ocupando um espaço que disseram que devia ser dele, ou do movimento LGBT. A direita aprendeu a se comunicar através das redes sociais. Me vi na responsabilidade de fazer esse diálogo que outra parte da esquerda não estava conseguindo fazer. Por que se candidatar a deputado federal agora? Toda a luta que fizemos em torno dos ingressos, por exemplo, depende de uma mudança no Código de Defesa do Consumidor, que é uma pauta nacional. E os direitos da comunidade LGBT: o Congresso nunca aprovou nenhuma lei sobre nós. Hoje, os expoentes geracionais no Congresso são figuras como Nikolas Ferreira e, provavelmente, [o vereador Lucas] Pavanato. A direita tem investido na renovação das suas figuras. Se a gente deixar eles falando sozinhos lá, vamos ter dificuldade de ganhar essa disputa. Suas bandeiras se parecem muito com as de Erika Hilton. Por que um jovem de São Paulo votaria no senhor, e não nela? Tem espaço para todo mundo. Hoje o PSOL tem pouco mais de dez deputados federais. Somando todos os partidos progressistas, grosso modo, são 120 de 513. Deputados assumidamente LGBT são só quatro. Quatro contra 300 parlamentares homofóbicos e transfóbicos. Vimos ao longo desses quatro anos que não adianta ter um governo de esquerda com um Congresso absolutamente reacionário. A estética dos seus vídeos lembra a de Zohran Mamdani, prefeito de Nova York. Ele é uma referência? O Mamdani deveria ser uma referência para a esquerda no mundo inteiro. Mas a questão não é apenas a comunicação dele. O grande acerto do Mamdani foi falar dos temas que importam às pessoas. Não acho que a gente precise de um Mamdani brasileiro. Temos várias lideranças. Precisamos de uma nova esquerda, que entenda que o mundo mudou, principalmente como fruto da crise do capitalismo. A moradia é um dos maiores problemas de São Paulo. Como vê a questão aqui? Mais de 50% da nossa geração, até os 29 anos, mora na casa dos pais. Em São Paulo sobe prédio o tempo inteiro. O Plano Diretor foi alterado para permitir prédios cada vez maiores, com apartamentos cada vez menores. Muitos ficam parados esperando um empreendimento ao lado para valorizar e serem vendidos ou alugados mais caro. E tem o Airbnb, que é uma boa proposta de aluguel de curta temporada, mas que quando se generaliza e passa a ser usado para outra coisa, faz o preço do aluguel disparar. Temos um problema habitacional que vai da pessoa que não consegue pagar o aluguel e acaba na rua até a pessoa com emprego formal que consegue pagar, mas precisa morar com dignidade. Para isso, é preciso regular o reajuste dos aluguéis, como acontece em Nova York, Barcelona e outras cidades. Sem isso, numa crise como a pandemia, o preço vai às alturas, e o Estado mínimo diz que não tem nada a ver com isso. É preciso criar regras de reajuste que não penalizem quem coloca o imóvel para locação, mas que sejam justas e sigam critérios. É preciso reprimir a especulação imobiliária, que só é boa para quem está ganhando dinheiro com ela. Pôr limite nessa farra. Ninguém foi feito para viver numa ratoeira. O senhor disputou a Prefeitura de Franca. Por que alguém com pautas tão nacionais, cujo caminho natural parecia ser Brasília, concorreu a um cargo municipal? Eu nasci em São Paulo e me mudei para Franca para fazer faculdade, como muitos jovens, e me deparei com uma realidade do interior que não podemos ignorar. As cidades do interior são muito abandonadas. E criou-se o senso comum de que o interior é todo conservador. No interior também tem LGBT. Por ser o primeiro deputado de esquerda eleito em Franca, me vi na responsabilidade de colocar meu nome à disposição naquela eleição. Nossa candidatura ajudou a desestigmatizar um pouco a esquerda no interior, numa região onde ela estava havia muito tempo longe do protagonismo Fico muito feliz de ver pessoas que, pelo trabalho que fizemos como deputado, como candidato a prefeito — e, oxalá, em Brasília também —, se sentem incentivadas a criar um movimento na sua cidade, algo que antes achavam que nunca teria espaço. Foi um momento importante da nossa trajetória.
Guilherme Cortez, do PSOL, quer ser rival de Nikolas Ferreira em Bras�lia
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