A indústria dos Estados Unidos enfrenta uma nova onda de inflação na cadeia de suprimentos, à medida que a guerra de Donald Trump com o Irã eleva os custos de energia, as tarifas aumentam os preços de importação e o boom da inteligência artificial pressiona a oferta de componentes eletrônicos essenciais. Os fabricantes estão pagando muito mais por matérias-primas, energia e frete, com alguns custos de insumos subindo a taxas de dois dígitos, segundo executivos e dados do setor. O cenário tem levado algumas empresas a aumentar preços e ameaça exercer pressão adicional sobre a inflação ao consumidor. "Precisamos gastar cada vez mais dinheiro para comprar as mesmas coisas", disse Julie Robbins, presidente-executiva da EarthQuaker Devices, fabricante de pedais para guitarra com sede em Ohio."Parece que precisamos nos esforçar duas vezes mais para obter os mesmos resultados", acrescentou Robbins, cuja empresa teve de aumentar os preços duas vezes neste ano. A pressão crescente sobre os preços no setor industrial americano é o sinal mais recente da inflação que se espalha pelos Estados Unidos, impulsionada pela forte alta dos combustíveis, pelas tarifas sobre importações e pela corrida para adquirir componentes eletrônicos usados em data centers de inteligência artificial. A onda inflacionária se tornou um problema político cada vez maior para Trump antes das eleições de meio de mandato, em contraste com sua afirmação, feita na convenção nacional do Partido Republicano em Dallas na semana passada, de que estava "baixando os preços muito, muito, muito". A aceleração dos preços também contribuiu para uma onda de vendas no mercado de títulos, que levou o rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos a 5% pela primeira vez desde 2023 nesta semana. A inflação elevada também alimentou apostas em Wall Street de que o Fed (Federal Reserve) elevará os juros na quarta-feira (16).Mais de uma dúzia de setores da indústria relataram aumento nos preços das matérias-primas na pesquisa de agosto do ISM (Instituto para Gestão da Oferta), acompanhada de perto pelo mercado. Nenhum dos segmentos pesquisados registrou queda. O índice geral de preços do ISM também subiu desde o início de 2026 e registra aumento de custos há 23 meses consecutivos. Gerentes de produção relataram altas nos preços de produtos derivados de petróleo e nos custos de aço e alumínio. "As cadeias de suprimentos estão pagando mais por menos estoque", disse Zac Rogers, professor de gestão da cadeia de suprimentos da Universidade do Estado do Colorado. "O retorno obtido com os gastos na cadeia de suprimentos continua piorando." Os dados de inflação também apontam para uma pressão crescente nas etapas anteriores das cadeias de suprimentos. Enquanto os preços cobrados pelos produtores por produtos acabados subiram 6,6% em agosto, na comparação anual, o custo dos bens utilizados na produção avançou em ritmo muito mais acelerado.O índice de preços dos bens processados intermediários aumentou 11,5% em agosto ante o mesmo mês do ano anterior, impulsionado pela alta do diesel. Já a medida para bens não processados, como sucata metálica, avançou 12,8%, segundo dados do Bureau of Labor Statistics. Os custos dos combustíveis continuaram subindo rapidamente desde o fim de agosto, com o preço do diesel nas bombas atingindo o recorde de US$ 6,23 (R$ 32,02) por galão na segunda-feira (14), segundo a Associação do Setor Automotivo (AAA na sigla em inglês). O custo do transporte de mercadorias também aumentou significativamente. O preço médio por remessa de carga subiu 16% em agosto ante o mesmo mês do ano anterior, segundo cálculos do Financial Times com base em dados da Cass Information Systems. Alguns fabricantes afirmam que também está ficando mais difícil encontrar os insumos necessários. Traci Tapani, copresidente da Wyoming Machine, empresa de fabricação de peças metálicas nos arredores de Minneapolis, disse que o grupo enfrentou "interrupções" na capacidade de obter matérias-primas. O aço, em particular, apresentava "problemas perceptíveis de oferta". A maioria dos executivos diferencia o atual aperto na cadeia de suprimentos das interrupções provocadas pela pandemia de Covid-19, quando não era possível obter determinados produtos. Para a maioria dos setores, os produtos continuam disponíveis, mas a preços significativamente mais altos."Passamos da escassez para o custo como principal preocupação nas cadeias de suprimentos", disse Kip Eideberg, vice-presidente sênior de relações governamentais e industriais da Association of Equipment Manufacturers, cujos membros fabricam máquinas que vão de tratores a caminhões. Para a indústria eletrônica, porém, o boom da IA tornou cada vez mais difícil simplesmente conseguir os produtos. A rápida expansão dos data centers provocou uma corrida por componentes especializados, de chips de memória a processadores, e os fornecedores têm dificuldade para acompanhar a demanda. A cadeia de suprimentos do setor eletrônico está "passando por outra crise, ainda maior e mais complicada do que durante e depois da Covid-19", disse um participante da pesquisa do ISM em agosto. "A demanda está meio que em todos os lugares ao mesmo tempo", disse Shawn DuBravac, da Global Electronics Association. "Sem dúvida, isso é impulsionado por um investimento colossal em infraestrutura de IA." "Dependendo do componente que você está analisando, há prazos de entrega de vários anos", acrescentou. "A única maneira de resolver essa pressão é aumentar a produção em toda a cadeia de suprimentos ou reduzir a demanda, principalmente a demanda por infraestrutura de IA."A escassez é sentida globalmente. Em uma pesquisa da GEA realizada no mês passado, quase dois terços dos fabricantes de eletrônicos em todo o mundo relataram disponibilidade limitada de componentes ou prazos de entrega mais longos. Apesar da alta dos preços, há pouco interesse em muitos setores em realizar grandes investimentos para ampliar a capacidade, enquanto as empresas lidam com incertezas que vão desde a guerra no Irã até as tarifas. "Nenhuma empresa vai fazer um grande investimento de capital sem alguma certeza de que o mercado será o mesmo daqui a um ano", disse Rogers. Robbins, da EarthQuaker, afirmou que as "mudanças constantes tornam impossível desenvolver um plano de longo prazo". "Como proprietária de uma empresa, você realmente depende de estabilidade e clareza sobre o que está acontecendo, e isso não está acontecendo agora", disse.
Guerra no Ir�, tarifas e IA elevam custos da ind�stria dos EUA
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