Guerra dos sexos na autoria de novelas

Guerra dos sexos na autoria de novelas

Dados de 2024 indicam que a TV aberta é a área que mais emprega no campo audiovisual brasileiro (57% do total) e também a que apresenta uma das maiores desigualdades de gênero —a ocupação feminina é de 37% dos postos de trabalho, contra 63% dos homens. Essa proporção é ainda mais acentuada nos cargos de decisão, tanto na gestão quanto na criação. Na teledramaturgia, área liderada há quase seis décadas pela Globo, o número de mulheres que assinam novelas como autoras principais sempre foi significativamente inferior ao de homens. Até recentemente, pouquíssimas mulheres costumavam ser citadas em pesquisas, livros e rankings sobre os principais autores do gênero no país. A obra mais importante sobre a trajetória de escritores de novelas no país, o livro "Autores: História da Teledramaturgia" (Editora Globo, 2008), um projeto da própria Globo, reúne 16 depoimentos, num total de 964 páginas, entre os quais apenas os de duas mulheres, Glória Perez e Maria Adelaide Amaral. Outro livro com características semelhantes, "A Seguir Cenas do Próximo Capítulo" (Panda Books, 2009), compila dez entrevistas com autores, nove deles homens —Glória é a única mulher. O recém-lançado "Autoria e Gênero na Telenovela Brasileira" (editora PUC Rio), de Tatiana Siciliano e Francisco Malta, repete o modelo de longos depoimentos, mas busca intencionalmente dar relevo ao trabalho de autoras. Dos nove entrevistados, cinco são mulheres: Ana Maria Moretzsohn, Glória Perez, Lícia Manzo, Rosane Svartman e Solange Castro Neves. As entrevistas do novo livro não exploram enfaticamente a questão do machismo e as suas consequências no campo da autoria de novelas, preferindo dar destaque às trajetórias e aos processos criativos das autoras entrevistadas. Para quem se interessa por teledramaturgia, é uma opção justa. É um prazer, por exemplo, ouvir relatos como o de Lícia Manzo, autora de "A Vida da Gente", "Sete Vidas" e "Um Lugar ao Sol", entre muitos outros trabalhos ao longo de 32 anos na Globo. Lícia acredita que "A Vida da Gente", terceira novela mais exportada na história da Globo, para mais de 130 países, não teria sido aprovada nos dias de hoje. "Na Globo e no streaming, hoje, existe um time de pessoas que irá examinar um projeto com uma lupa, buscando eventuais falhas para criar algo, digamos, risk free –sem riscos. E, na minha opinião, não há sucesso possível sem risco." Ana Maria Moretzsohn fala da dificuldade de emplacar projetos em plataformas de streaming. "Porque o streaming é ligeiramente etarista", diz. "Sinto que esses novos CEOs gostam de escolher gente da idade deles. Eles não dão muita atenção ao passado." Glória Perez considera que Ivani Ribeiro e Janete Clair "fixaram as novelas no Brasil". Precursoras, "essas mulheres dessa época apostam muito na história de amor, apostam com vontade, e é isso o que pega o público até hoje: histórias de sentimentos". Rosane Svartman acredita que "o futuro da televisão está profundamente ligado ao futuro da telenovela". Uma das autoras mais bem-sucedidas em anos recentes, ela defende a ideia de que as novelas precisam ser relevantes, criar laços sociais e aceitar a "colaboração" dos espectadores. "A sociedade é o maior agente transformador das novelas", diz. "Autoria e Gênero na Telenovela Brasileira" poderia ter uma edição mais caprichada, com notas que ajudassem a contextualizar observações dos entrevistados. Ainda assim, é uma contribuição importante para os estudos sobre teledramaturgia. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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