Grupo de Nova York ajuda pessoas a terem acesso � morte assistida

Grupo de Nova York ajuda pessoas a terem acesso � morte assistida

Tudo começou para Tara Shapiro quando a sogra engasgou. O marido dela fez a manobra de Heimlich e salvou a vida da mãe. "Nunca mais faça isso comigo", disse Janice Shapiro, furiosa. Ela tinha 81 anos, sofria de uma doença muscular degenerativa e já havia decidido que estava pronta para morrer. Em 2023, a família decidiu viajar de carro até o estado de Vermont (EUA), que acabara de legalizar a assistência médica para morrer para pessoas de outros estados. Num imóvel alugado, os Shapiro tocaram "My Way", de Frank Sinatra. Tara se lembra de misturar os pós em um copo com suco de maçã e entregar a bebida à sogra, que engoliu de uma vez a combinação letal. Em 20 minutos, Janice estava morta. Tara é médica de cuidados paliativos e presenciou centenas de mortes ao longo da carreira, mas esta a virou do avesso. Depois de três décadas trabalhando em hospitais, o que significava deixar de combater a morte para acelerá-la? O que isso representava diante do juramento de Hipócrates, com sua ordem de "não administrar remédio mortal"? Ela vem se debatendo com essas questões. Nova York acaba de legalizar a prática conhecida como suicídio assistido por médicos, e desde fevereiro ela trabalha com um grupo de profissionais da saúde para criar o que se acredita ser o primeiro serviço do estado dedicado a ajudar pacientes a morrer em seus próprios termos. O serviço, que começou a funcionar em 5 de agosto, não tem consultório. A equipe atenderá os pacientes em casa. Trata-se de uma espécie de startup para mortes dignas. As tarefas envolvidas no dsenvolvimento desse projeto, que tem pouquíssimos precedentes, são complexas. O grupo então criou a Quiĕtus, na qual as pessoas podem receber ajuda para cumprir todas as exigências legais e médicas necessárias para morrer em seus próprios termos. Os pacientes passam por duas avaliações médicas e uma avaliação de saúde mental, além de receberem a prescrição da combinação de medicamentos que os matará. A assistência médica para morrer é legal em 13 estados, e Nova York tem algumas das normas mais rigorosas. A Quiĕtus reúne um grupo eclético de nove profissionais, e entre eles está Shapiro. Também fazem parte David Atkins, assistente social de cuidados paliativos que já foi monge budista; e Cristian Zanartu, médico de cuidados paliativos que também trata pacientes com traumas por meio de terapia com cetamina. Há ainda Daniel Cogan, um enfermeiro que trata dores crônicas e sonhou em criar esse serviço depois de atender pacientes idosos que lhe pediam que acabasse com seu sofrimento. Esses profissionais se reuniram durante meses para definir o que seria necessário para criar o serviço. O custo total para morrer com a Quiĕtus é de pouco menos de US$ 12 mil (cerca de R$ 62 mil). A logística da morte Em uma reunião a equipe debateu como faria para conseguir grandes quantidades dos medicamentos de que os pacientes precisariam. Rob Siegel, outro integrante do grupo, acabou encontrando uma farmácia familiar em Manhattan disposta a fornecer as doses letais. Eles se deparavam com questões que poucos serviços médicos já haviam precisado considerar. Por exemplo: como organizar a entrega de medicamentos potencialmente letais? Para a equipe, superar esse obstáculo logístico era parte crucial do processo. Para algumas pessoas gravemente doentes, a chegada do medicamento à porta de casa já seria, por si só, um alívio. As decisões práticas envolvidas na criação do serviço pareciam inesgotáveis. Mas havia também questões mais profundas sobre como deveria ser uma morte reconfortante. Cogan acreditava firmemente que assumir a responsabilidade pela morte de uma pessoa significava estar disponível. Imaginou uma situação em que um paciente subitamente sentisse uma dor lancinante no meio da noite e quisesse morrer. Os médicos não deveriam entrar em ação imediatamente para fazer a entrega? Zanartu, por sua vez, achava que, se quisessem que seu trabalho fosse terno e íntimo, talvez uma boa morte não devesse estar disponível sob demanda. 'A solução e o pesadelo' Nas semanas que antecederam a entrada em vigor da lei de Nova York, os integrantes da equipe da Quiĕtus se sentiram ao mesmo tempo inseguros e preparados para a mudança. Para começar, não sabiam quantos pacientes poderiam esperar. Atkins se perguntou sobre o risco de deixar seu emprego em tempo integral. Cada um canalizava a inquietação de uma forma diferente. Tara Shapiro folheava álbuns com fotos da sogra enquanto se perguntava o que Janice Shapiro teria dito sobre essa guinada que ela dava na própria carreira. Durante uma reunião, ela disse que grupos que haviam lutado pela aprovação da lei a alertaram de que deveriam ter cautela com as ligações que começavam a receber de possíveis pacientes. "Muitas pessoas não atendem aos critérios", disse, referindo-se, por exemplo, a alguns pacientes com Parkinson cujos médicos diziam que ainda tinham mais de seis meses de vida. Cogan imaginou uma situação em que alguém muito doente, mas sem uma doença terminal, ligasse para a equipe. "Se alguém disser: ‘Sou paraplégico e o médico afirma que talvez eu viva por muitos anos, mas quero me matar. Vocês podem me ajudar?’, a resposta curta é: ‘Tenho enorme solidariedade por sua situação e quero saber mais sobre o que está acontecendo, mas estes são os termos da lei’", disse. A Quiĕtus teria de recusar o pedido. Em 5 de agosto, Zanartu visitou a primeira paciente do serviço, uma mulher de meia-idade com câncer terminal. No trajeto de carro até ela, sentiu a natureza sombria do papel que estava assumindo. "Você representa o alívio, mas também representa o horror", disse Zanartu. "Você é a solução e o pesadelo."

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