As oito gravuras de Henri Matisse roubadas em dezembro do ano passado da biblioteca Municipal Mário de Andrade, na Consolação, região central de São Paulo, foram encontradas nesta quinta (13) em um apartamento na região central de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. A informação foi confirmada à coluna pelo secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves. O caso é registrado na 1ª Seccional do Cerco (Corpo Especial de Repressão ao Crime Organizado), que investiga o caso. Segundo a Polícia, as oito obras recuperadas estão avaliadas em mais de R$ 1 milhão. As cinco gravuras de Candido Portinari, da obra "Menino de Engenho", roubadas no mesmo dia, não foram encontradas nesta quinta (13). A suspeita é de que elas tenham sido vendidas. Um homem identificado como João Paulo Linhares de Araújo, 44, foi preso em flagrante no local por receptação. Os policiais também aprenderam uma arma de fogo com ele. "O João colaborou com tudo, franqueou a entrada dos policiais. Ele não tinha noção do que tinha guardado em casa", disse a advogada dele, Rosângela Oliveira. Ela afirma que um outro suspeito preso anteriormente tinha pedido para João guardar uma mochila. Era nessa mochila que, segundo a advogada, estavam as gravuras. "Ele colaborou de boa fé porque não tinha noção do que tinha guardado para essa pessoa". A advogada afirma que vai pedir a liberdade provisória para que ele possa ser julgado em liberdade. O roubo aconteceu no dia 7 de dezembro. Dois homens armados invadiram o espaço cultural. Investigação da Polícia Civil já tinha apontado como mandante do roubo Laéssio Rodrigues de Oliveira, 53, considerado o maior ladrão de obras de arte e livros raros do país. Ele está preso desde abril após ação da Polícia Federal no Rio de Janeiro, em desdobramento de outro caso. Um segundo suspeito também foi detido pela mesma ação da PF. Em operação da Polícia Civil realizada em maio, uma mulher também foi presa. A Justiça havia expedido 11 mandados de busca e apreensão a pedido do delegado Ronald Quene, do 1º Cerco (Corpo Especial de Repressão ao Crime Organizado), responsável pela investigação desde o início. Na ação na Mário de Andrade, um dos criminosos anunciou o roubo ao mostrar a arma debaixo da blusa para uma das seguranças da biblioteca, que estava desarmada. Ela foi levada para uma sala onde foi obrigada a entregar o rádio de comunicação e o celular. Enquanto isso, o outro suspeito retirou os oito quadros de Matisse da parede. A dupla seguiu até um mostruário de vidro, onde estavam as demais gravuras roubadas. Eles usaram uma sacola de lona para guardar as obras de arte antes de fugir pela porta principal. Segundo a polícia, um casal de idosos que visitava a exposição também foi rendido pelos ladrões. Os suspeitos fugiram em direção ao metrô Anhangabaú, de acordo com a corporação. Um dos ladrões vestia calça jeans surrada e camisa vermelha. O outro estava de calça jeans, blusa de moletom azul e boné azul. Vigilantes correram para pedir ajuda a policiais militares que patrulhavam a região, mas os suspeitos não foram localizados. No momento do roubo, o local estava aberto ao público e era o último dia da mostra que reunia livros raros, obras das décadas de 1940 e 1950 e fotografias que retratam a produção moderna no país. Os quadros de Matisse roubados estavam logo na entrada da exposição. Na comparação entre a foto e um vídeo postado pela biblioteca nas redes sociais, é possível identificar entre as obras subtraídas estão colagens do álbum "Jazz", publicado em 1947 na França pelo artista francês. Elas são consideradas um conjunto raríssimo, já que existem apenas 250 exemplares originais espalhados pelo mundo —no Brasil, apenas 2—, explica o crítico de arte e curador Tadeu Chiarelli. "O valor cultural e artístico é incalculável", disse ele à Folha. A mesma edição do álbum de gravuras "Jazz", de Matisse, já havia sido alvo de furto do acervo municipal. Adquiridas no final da década de 1940, as ilustrações estavam em posse da biblioteca havia dez anos. A data exata do primeiro furto não é conhecida. As imagens, que deveriam estar com a biblioteca municipal paulistana, foram encontradas no fim de 2006 pela Polícia Federal da Argentina. A obra foi achada em um lote de cerca de 60 livros raros que, segundo o noticiário da época, haviam sido furtados de diversas instituições brasileiras. Os ladrões estariam tentando cruzar a fronteira com a Argentina em Foz do Iguaçu (PR) quando foram barrados por autoridades da alfândega vizinha. A PF informou, à época, que "Jazz" era, de longe, a peça mais cara do conjunto de obras apreendidas. A Biblioteca Mário de Andrade passou seis anos com a versão falsa em seu acervo, chegando a emprestá-la para uma mostra em homenagem a Matisse na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2009. O livro verdadeiro de Matisse só foi devolvido ao acervo paulistano cerca de nove anos após a apreensão. Primeiro, ficou cerca de cinco anos em posse das autoridades argentinas. Apenas em 2011 o lote completo foi retirado do país vizinho pela Polícia Federal. A biblioteca inicialmente recusou a ideia de que as obras tinham sido furtadas, mas uma perícia demonstrou que as apreendidas eram as originais, e aquelas que ficaram no acervo eram falsas. De 2011 a 2015, o álbum ficou depositado no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio. Em agosto de 2015, o então diretor da Mário de Andrade, Luiz Armando Bagolin, foi pessoalmente retirar a obra e trazê-la de volta a São Paulo. 'Jazz' foi fundamental para modernismo brasileiro As ilustrações de Matisse eram o grande destaque da exposição que comemorava o centenário da Biblioteca Mário de Andrade. As imagens originais fazem parte de um livro de tamanho A3 (29,7 por 42 cm) encadernadas, que foram emolduradas para exposição. A série foi concebida pelo artista francês durante a Segunda Guerra Mundial, na sua velhice e durante a recuperação de uma cirurgia para tratar um câncer. Como o artista não podia mexer com tinta devido ao tratamento pós-operatório, ele fez as imagens com recortes de papel colorido e colagem. Obra fundamental do modernismo mundial, "Jazz" foi um marco no processo de institucionalização desse movimento artístico em São Paulo. A aquisição da obra foi um pontapé inicial para o processo que levou à criação do MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo). A exposição, inclusive, fazia um resgate da ligação histórica entre as duas instituições. Segunda maior biblioteca pública do país, atrás apenas da Nacional, a Mário de Andrade guarda quase 1,5 milhão de itens, somando livros, mapas e documentos. Fundado em 1925 como Biblioteca Municipal de São Paulo e inaugurado em 1926 na Rua 7 de Abril, o patrimônio histórico da cidade foi transferido em 1942 para o prédio atual, projetado por Jacques Pilon. com KARINA MATIAS (interina), DIEGO ALEJANDRO e JULLIA GOUVEIA LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Gravuras de Matisse roubadas na M�rio de Andrade s�o encontradas em S�o Bernardo do Campo, diz pol�cia
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