'Grande Sert�o: Veredas' acata com maleabilidade suas infinitas leituras

'Grande Sert�o: Veredas' acata com maleabilidade suas infinitas leituras

[RESUMO] Ao analisar "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, o autor defende que a linguagem metafórica e a ambiguidade do romance abrem caminhos de compreensão infinitos, sem aprisioná-lo a época, escola ou sentido definitivos. O texto é um dos depoimentos de leitores ilustres influenciados pelo clássico incluídos na edição comemorativa de 70 anos da obra, publicada nesta semana pela Companhia das Letras. No Ocidente, a literatura —ao contrário da tecnologia, que se apresenta como uma progressão acumulativa unidirecional—, a literatura, repito, o é em sua plenitude quando um escritor, na planície do cotidiano, inventa um texto culminante que só se "empobrece" quando referendado ou validado por significado evolutivo que se orienta por um único sentido. "Vida muito esponjosa" —assim o "Grande Sertão: Veredas" significa o objeto a ser apreendido pelo romance em trama dramática. E exemplifica: "O amor? Pássaro que põe ovos de ferro." A linguagem figurada, em especial a metáfora, escreve a grande literatura. Eis o caso do romance de Guimarães Rosa, a completar 70 anos de idade e de sucesso. Entre alguns poucos outros, este romance acata com "maleabilidade" (ou complacência de hímen) tantas quantas forem as infinitas leituras imaginadas, arquitetadas ou escritas pelo leitor. É o jorro contínuo das diferentes leituras que, paradoxalmente, é o responsável pela "inacessibilidade" da obra literária por uma só via. Também é esse jorro de leituras o responsável pela "estabilidade" (ou pela rigidez porosa) da prosa literária rosiana na qualidade de texto fixo e culminante, alcançável por várias e diferentes veredas. Cada leitor do "Grande Sertão: Veredas" é um vidente que pouco a pouco "vai" não percebendo que é um tanto cego. Diz o romance: "Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom". A totalidade da escrita literária do "Grande Sertão: Veredas" se concebe e se organiza "ambiguamente" (na sintaxe da frase, a conjunção aditiva "e" chuta pra escanteio a conjunção alternativa "ou") para que ela não seja lida (embora também possa ser lida) pela história da literatura ou pelas artes poéticas que confinam o "genre" romance e o "gender" ser humano aos preceitos de uma escola, uma época, uma nacionalidade, e aos princípios de um comportamento e uma moral. A quase inacessibilidade do texto literário culminante é também, insisto, a garantia da sua estabilidade semântica na crosta terrestre. "Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

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