O governo Trump espera que a obrigatoriedade de informar o país de origem da carne ajude a amenizar os problemas do setor bovino americano. Criadores de gado estão descontentes com o plano do presidente Donald Trumpde importar mais de 299 mil toneladas de aparas de carne bovina magra, que são misturadas a aparas de gordura para produzir carne moída, com tarifas reduzidas. Uma maior concorrência com a carne estrangeira reduziria o preço recebido pelos pecuaristas por seu próprio gado. A administração quer dar aos consumidores uma opção e, ao mesmo tempo, tentar apaziguar os pecuaristas: procurar carne totalmente americana e, potencialmente, pagar mais por ela, ou escolher a alternativa importada, mais barata. Donald Trump fala durante evento de apoio a pecuaristas no Salão Oval da Casa Branca, em Washington. O governo espera que americanos paguem mais pela carne bovina produzida nos EUA. - Kent Nishimura - 04.set.26/AFP "Meu objetivo e minha principal prioridade ao trazer essa rotulagem de volta são, em primeiro lugar, proteger o pecuarista americano e, em segundo, proteger o consumidor americano", disse a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, em entrevista. A nova iniciativa enfrenta resistência, já que o setor pecuário está dividido sobre a utilidade da rotulagem obrigatória. Varejistas, frigoríficos, confinadores e pecuaristas com grandes rebanhos afirmam que a medida impõe custos excessivos. Já pecuaristas independentes e aqueles com rebanhos menores dizem que é possível fazer isso a baixo custo e que a medida beneficiaria seus resultados financeiros. Neste mês, o presidente assinou uma ordem executiva que estabelece uma série de novas regras para os setores de carne bovina e pecuária. A parte referente à rotulagem determina que a secretária de Agricultura e o representante comercial dos Estados Unidos revisem as normas e apresentem, em 90 dias, uma análise econômica da obrigatoriedade de informar o país de origem. Depois, eles poderão emitir novas regras, caso isso seja permitido por lei, ou fazer recomendações ao Congresso sobre as leis que consideram necessárias para tratar do tema. Qualquer mudança nas regras de rotulagem não entraria em vigor antes de 2027. A maioria das frutas, verduras, peixes e algumas carnes frescas vendidas em supermercados americanos já precisa informar o país de origem. Carne bovina e suína, porém, não estão sujeitas à exigência, devido a uma história complexa de leis e disputas comerciais. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesA Farm Bill de 2002, legislação que reúne políticas agrícolas dos EUA, exigiu que os varejistas informassem a origem da carne bovina fresca e de diversos tipos de carne, frutas e verduras. Uma ampliação aprovada em 2008 incluiu o frango na lista e modificou as regras para a carne bovina. Canadá e México recorreram à OMC (Organização Mundial do Comércio), alegando que as exigências violavam acordos comerciais porque os obrigavam a gastar milhões de dólares para cumprir as regras. A OMC deu razão aos dois países e permitiu que Canadá e México impusessem mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,13 bilhões) em tarifas retaliatórias sobre produtos dos Estados Unidos. Para evitar essas tarifas, o Congresso americano revogou, em 2015, as regras de rotulagem para carne bovina e suína, mas as manteve para outros produtos, como frango, frutas e verduras frescas. Uma eventual retomada formal da rotulagem obrigatória provavelmente terá de ser aprovada pelo Congresso e lidar com a decisão anterior da OMC. "Se o Congresso não estiver disposto a agir, há outras coisas que podemos fazer", disse Rollins. Ela sugeriu, por exemplo, que a carne bovina de outros países poderia receber um rótulo com a inscrição: "Não é produto dos EUA". O gado normalmente passa pelas mãos de diversos agentes antes de chegar aos supermercados. O animal pode sair do pasto e passar por leilão, criação de recria, confinamento, frigorífico e varejista. Cada etapa acrescenta custos para rastrear e certificar a origem do animal.A United States Cattlemen’s Association, associação de pecuaristas dos Estados Unidos, apoia a rotulagem obrigatória do país de origem, desde que ela possa ser implementada de acordo com as regras da OMC. "Eles não deveriam poder pegar carona no nosso esforço simplesmente porque têm autorização para trazer carne para cá e misturá-la à nossa", disse Justin Tupper, presidente da organização, referindo-se aos produtores estrangeiros de carne bovina. Mesmo alguns dos defensores da medida reconhecem, porém, que pesquisas indicam que a rotulagem obrigatória não seria uma solução para todos os problemas. Em 2015, o economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA concluiu que os benefícios econômicos da adoção da rotulagem de origem "seriam insuficientes para compensar os custos das exigências". Havia também poucas evidências de que os consumidores mudassem seus hábitos de compra quando recebiam informações sobre a origem dos produtos. A carne bovina também ficou mais cara. O preço de uma libra (454 gramas) de carne moída subiu 64% desde a publicação do relatório e 16% quando descontada a inflação, segundo o Bureau of Labor Statistics, o órgão americano de estatísticas trabalhistas. "Somos todos americanos orgulhosos e queremos colocar uma bandeira no produto e fazer com que as pessoas consumam o que produzimos", disse Craig Uden, presidente da Nebraska Cattlemen, que apoia a rotulagem voluntária, mas não a obrigatória. "Mas também sabemos que as pessoas vão comprar aquilo que quiserem comprar."Glynn Tonsor, economista especializado em pecuária da Universidade do Estado do Kansas, conduz uma pesquisa mensal chamada Meat Demand Monitor (Monitor de Demanda de Carne em tradução livre). O país de origem aparece regularmente em penúltimo lugar, à frente apenas do impacto ambiental, entre os atributos que os entrevistados consideram importantes na hora de comprar carne. Sabor e frescor lideram a lista. "Isso me diz que o americano médio não dá tanta prioridade a isso quanto dá ao sabor, frescor, segurança, preço, valor nutricional e outros fatores", disse Tonsor. Tonsor e outros economistas também concluíram que as regras de rotulagem de origem de 2008 teriam custado mais de US$ 8 bilhões (R$ 41,2 bilhões) ao setor de carne bovina e pecuária ao longo de uma década. A maior parte desse custo teria recaído sobre os varejistas, mas os pecuaristas teriam desembolsado centenas de milhões de dólares para rastrear e fornecer informações sobre a origem do gado aos compradores. Defensores da medida afirmam que avanços tecnológicos podem tornar o rastreamento da carne mais barato atualmente, e que as regras sobre quais produtos precisam receber o selo e de que forma poderiam ser modificadas. Rollins disse que o movimento Make America Healthy Again (Faça os Estados Unidos saudável novamente) e a ênfase dada à carne vermelha nas novas diretrizes alimentares são sinais de que os americanos se importam com proteínas e com sua origem.Mas qualquer mudança chegará tarde demais para afetar as finanças imediatas dos pequenos pecuaristas. O outono é a época em que a maior parte do gado é vendida —seis meses depois do nascimento dos bezerros na primavera—, e os preços do gado vivo caíram 14% desde o fim de junho. Alguns pecuaristas atribuem a queda ao aumento das importações e à incerteza no setor pecuário. "Não precisamos de mais políticas públicas", disse Uden. "Precisamos deixar o mercado funcionar. Eu realmente não quero que o governo faça o marketing do meu produto."
Governo Trump quer selo de origem para carne bovina nos EUA
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