O governo de Donald Trump propôs ceder, por meio de uma permuta, uma parcela de terra no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, para que uma incorporadora privada possa obter acesso ao parque, segundo autoridades federais e documentos analisados pelo New York Times. O possível acordo alarmou ambientalistas e ex-dirigentes do Serviço Nacional de Parques, que afirmam que Yosemite, a joia da coroa do sistema de parques do país, deve permanecer livre de empreendimentos imobiliários. A proposta, cujos detalhes foram divulgados inicialmente pelo veículo de notícias NOTUS, prevê a transferência de uma pequena parcela situada logo após o limite oeste de Yosemite para uma empresa controlada pela Kingsbarn Realty Capital, uma gestora de fundos de private equity imobiliário. A Kingsbarn pretende construir uma estrada e desenvolver duas propriedades de 161 mil m² cada, de sua titularidade, próximas ao parque, segundo documentos apresentados ao Congresso neste ano e analisados pelo New York Times. Em troca, a empresa compraria terras de valor equivalente, nas proximidades de Yosemite ou em outro local da Califórnia, e as transferiria ao Serviço Nacional de Parques, mostram os documentos. "Isso é tão absurdo que chega a dar náusea", disse Don Neubacher, ex-superintendente de Yosemite e atual integrante do conselho executivo da organização sem fins lucrativos Coalizão para Proteger os Parques Nacionais da América. Neubacher afirmou que uma proposta semelhante havia sido apresentada no início dos anos 2000. Ela foi rejeitada, primeiro pelo Serviço Nacional de Parques e, posteriormente, na Justiça. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A Kingsbarn comprou as duas propriedades próximas ao parque no início de 2024 por US$ 4 milhões, por meio de uma sociedade de responsabilidade limitada chamada Sanctuary at Yosemite, mostram os registros imobiliários. Jeff Pori, CEO da Kingsbarn, fez regularmente doações de pequeno valor à campanha presidencial de Donald Trump em 2024, totalizando mais de US$ 4.000, segundo registros de financiamento eleitoral. Representantes da Kingsbarn não responderam a um pedido de comentário do New York Times. Aubrie Spady, porta-voz do Departamento do Interior, órgão ao qual o Serviço Nacional de Parques está subordinado, afirmou em nota que nenhuma decisão final havia sido tomada. "Qualquer proposta de permuta de terras ou de acesso que envolva áreas do Serviço Nacional de Parques estaria sujeita a todas as leis federais, normas e políticas departamentais aplicáveis, incluindo os processos obrigatórios de análise ambiental e comunicação ao público", disse Spady. Yosemite é conhecido por suas enormes cachoeiras, sequoias imponentes e monólitos esculpidos por geleiras, como o Half Dome e o El Capitan. É um dos parques nacionais mais visitados do país e tem ficado ainda mais lotado do que o habitual desde que o governo Trump eliminou o sistema de reservas para o verão. Nomeados políticos do Departamento do Interior discutem a proposta de permuta de terras em Yosemite há mais de um ano, tratando-a como prioridade máxima, segundo dois ex-dirigentes do Serviço Nacional de Parques que pediram anonimato por temerem retaliações. O Departamento do Interior notificou o Congresso neste ano de que avaliava custear eventuais despesas relacionadas à permuta por meio do Fundo de Conservação de Terras e Águas. A medida provocou críticas de democratas, que disseram que o fundo foi criado para financiar programas de conservação em terras públicas. Os dois senadores democratas da Califórnia, Alex Padilla e Adam Schiff, condenaram a proposta e disseram estar trabalhando com a Comissão de Apropriações do Senado para tentar barrá-la. "Este é o governo mais corrupto da história", afirmou Padilla em nota. "O Fundo de Conservação de Terras e Águas existe para adquirir terras e direitos sobre terras a fim de proteger áreas naturais, recursos hídricos e o patrimônio cultural —e proporcionar oportunidades de lazer a todos os americanos." Cicely Muldoon, que foi superintendente de Yosemite de 2020 até se aposentar, em fevereiro de 2025, afirmou que as permutas de terras deveriam proporcionar um benefício líquido ao Serviço Nacional de Parques, como a ampliação do habitat da fauna silvestre. Segundo ela, não está claro qual seria o benefício deste acordo para o público. Muldoon também manifestou preocupação com o precedente que o acordo poderia abrir para os mais de 400 outros parques nacionais e locais históricos espalhados pelo país. "Yosemite funciona como uma espécie de indicador para os parques nacionais", disse ela. "Se isso pode acontecer em Yosemite, pode realmente acontecer em qualquer lugar do sistema de parques nacionais." A área em questão está envolvida em disputas relacionadas a empreendimentos imobiliários desde o fim da década de 1990, quando Lewis Geyser, incorporador de Solvang, na Califórnia, comprou uma faixa acidentada de floresta na divisa oeste de Yosemite e propôs construir um complexo turístico chamado Hazel Green Ranch. O projeto proposto ficava próximo à entrada Big Oak Flat de Yosemite, na rodovia estadual 120 da Califórnia. Inicialmente, dirigentes do parque tentaram trabalhar com o proprietário para criar um estacionamento fora da área do parque, de modo que os visitantes pudessem deixar seus carros do lado de fora de Yosemite e seguir de ônibus até suas dependências. O plano não avançou. Geyser então buscou obter uma servidão de passagem por um trecho de cerca de 400 metros dentro da propriedade do parque, o que facilitaria o acesso ao parque a partir de suas terras, segundo os autos do longo processo judicial que se seguiu. Depois que o parque recusou o pedido, ele entrou com uma ação em 2007. O Sierra Club e outros grupos ambientalistas se uniram ao governo federal na oposição à servidão, e a disputa judicial se arrastou até 2012, quando um tribunal federal de apelações em San Francisco decidiu contra o incorporador. "Foi um bom desfecho, e todos nós achávamos que o assunto estava encerrado", disse Neubacher, que foi superintendente de Yosemite de 2010 a 2016. "Yosemite é uma catedral espetacular, mas, para que seja preservado para as futuras gerações, não podemos simplesmente continuar abarrotando as estradas de carros." Depois que a Kingsbarn comprou as terras em 2024, porém, a empresa tentou reabrir as discussões sobre uma estrada privada e foi informada de que o Serviço Nacional de Parques não poderia autorizar legalmente o acesso, afirmou Muldoon. Então Trump voltou ao poder. Por volta do primeiro semestre de 2025, o departamento voltou a analisar o pedido da Kingsbarn, segundo atuais e ex-autoridades federais a par das conversas, e começou a circular a informação de que a proposta era uma prioridade para os nomeados políticos em Washington.
Governo Trump quer ceder �rea do Parque Nacional de Yosemite a empreiteira
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