O governo federal investiga a possível motivação política de ataques virtuais e ameaças recebidas por indígenas dos povos Guarani Kaiowá e Terena, no Mato Grosso do Sul, desde domingo (25), após o segundo turno das eleições de 2026. O Ministério dos Povos Indígenas recebeu denúncias feitas pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) nos últimos dias, com áudios, mensagens de WhatsApp e comentários em redes sociais, e encaminhou um pedido de reforço na segurança à Polícia Federal (PF), que abriu processo de investigação. O Ministério da Justiça afirmou, em nota, que autorizou o emprego da Força Nacional de Segurança Pública em apoio à Funai, nas aldeias indígenas sob ameaças em Mato Grosso do Sul, para a execução de atividades e serviços imprescindíveis à preservação da ordem pública. Os documentos registram ofensas a indígenas que comemoravam a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), além de uma ameaça de morte por envenenamento da água de uma comunidade. Os casos aconteceram no Mato Grosso do Sul, nas aldeias Sassoró, dos Guarani, e na terra indígena Tereré, dos Terena. Como revelou a Folha, antes das eleições indígenas Parakanã receberam áudios de fazendeiros da região que ameaçavam invadir o território Apyterewa, no Pará, caso Flávio ganhasse as eleições. Este território tem longo histórico de violência e viveu um pico de desmatamento durante o governo Jair Bolsonaro(PL), hoje preso e condenado por liderar a tentativa de golpe após as eleições de 2023. Pecuaristas chegaram a construir uma pequena cidade dentro da área protegida, conhecida como Vila Renascer.Desde 2023, o governo federal realiza uma operação de desintrusão da Apyterewa, com a destruição das fazendas e a expulsão dos invasores. Os áudios diziam que os fazendeiros dos arredores já vinham comprando equipamentos para, tão logo o bolsonarista vencesse o pleito, entrar na área protegida e reconstruir suas fazendas. Lula venceu o segundo turno das eleições no último domingo, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, que durante a campanha prometeu não demarcar nenhum território indígena, repetindo o que fez seu pai. Agora, o governo federal investiga se há motivação política em novas ameaças e ataques feitos a indígenas após o pleito. Em nota, a gestão petista afirmou que os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial atuam em conjunto contra "denúncias de violência relacionadas aos povos indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro, após o segundo turno das eleições". Segundo um integrante do governo, as pastas pretendem criar um protocolo específico para encaminhamento de denúncias de violência política, voltado a casos como este. "É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência para reprimir e intimidar opiniões diferentes, colocando em risco a vida das pessoas. Vivemos em um país democrático em que as diferentes visões de mundo devem ser respeitadas e coexistir de forma pacífica e livre", completa o posicionamento. Na Reserva Indígena Sassoró, que fica no município de Tacuru, no Mato Grosso do Sul, áudios que circularam em grupos de WhatsApp de moradores da região mostram duas pessoas criticando os indígenas. Em determinado momento, uma delas chama os guarani de uma praga e sugere colocar veneno na água que abastece a aldeia. Os guarani kaiowá também têm um longo histórico de violência sofrida por fazendeiros na região, que inclusive formaram milícias para atacar os indígenas. Um ofício do Ministério dos Povos Indígenas registra que "as gravações conteriam manifestações de caráter ofensivo, discriminatório e racista, atribuídas a pessoas identificadas no documento encaminhado, incluindo menção à possibilidade de adicionar substâncias tóxicas à água destinada ao consumo dos moradores da aldeia". "A denúncia informa, ainda, que as pessoas mencionadas estariam vinculadas à prestação de serviços públicos essenciais à comunidade indígena, especialmente ao abastecimento de água por meio de caminhão-pipa e à coleta de resíduos da escola e do posto de saúde", diz o documento. A prefeitura foi procurada por email e telefone na manhã desta quarta-feira (28), mas não teve resposta até a publicação deste texto. Um servidor foi afastado. Já em um grupo de moradores da região da aldeia Tereré, habitada pelo povo Terena e que também fica no Mato Grosso do Sul, pouco antes das 18h do domingo —ou seja, ainda sem o resultado final—, uma pessoa reclama que ouvia gritos de apoio a Lula vindos dos indígenas. Outra emenda chamando eles de bugrada, termo de origem europeia usado no Brasil colonial pejorativamente para se referir a indígenas, em razão de seus hábitos culturais. Em outro comentário nas redes, uma pessoa diz que é rica e vota 22 —alusão a Flávio Bolsonaro—, mas reclama que os indígenas pobres estragam tudo. Em áudios, também trocados entre moradores da região, uma terceira pessoa sugere cortar a luz e a água da aldeia, e deixar os terena apenas com acesso à lamparina. Essa mesma pessoa diz que, na sua opinião, os povos não deveriam ter direito a voto. Uma quarta sugere que o melhor a se fazer era fechar porteiras para impedir o acesso dos indígenas à cidade. "Essas denúncias serão tratadas com rigor. Nós não admitiremos que as comunidades indígenas sejam assediadas, intimidadas ou violentadas em seus direitos políticos", disse o ministro Eloy Terena, dos Povos Indígenas. A deputada Célia Xakirabá (PSOL) destacou o Mato Grosso do Sul como "epicentro dos conflitos territoriais" contra povos indígenas atualmente no Brasil. Ela relata que acompanha denúncias dos guaranis kaiowás e chamou os episódios recentes de "violência eleitoral". "Essa é uma resposta dos conflitos territoriais que não vão diminuir, mesmo com a vitória do presidente Lula, porque eles estão revoltados que não ganharam", disse. Procurado, o governo de Mato Grosso do Sul não respondeu sobre a atuação da polícia na crise entre fazendeiros e indígenas no estado. Relatório de violência contra indígenas A violência contra indígenas aumentou em 2025 comparado com o ano anterior, segundo relatório divulgado em agosto pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário), vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que inclui dados de assassinatos, estupros e suicídios. Mato Grosso do Sul ocupa a terceira posição entre os estados com maior número de absoluto de homicídios dolosos (com intenção) –a etnia guarani kaiowá é uma das maiores em número de mortes violentas em 2025. As posições de primeira e segunda do ranking de assassinatos são Roraima (82) e Amazonas (47). Ao todo, foram registrados 258 homicídios contra indígenas no ano passado, contra 211 casos em 2024, alta de 22%.
Governo federal investiga poss�vel motiva��o pol�tica em ataques virtuais e amea�as a ind�genas
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