Buenos Aires Na última semana, o governo de Abelardo de la Espriella desatou uma onda de indignação em parte dos setores rurais da Colômbia após afirmar que eliminaria a palavra camponês do vocabulário da gestão para substituí-la por "pequenos empresários do campo". O anúncio se deu na terça-feira passada (8), durante um discurso do ministro de Agricultura, Indalecio Dangond, diante das comissões econômicas do Congresso. "Eles não serão chamados de camponeses, serão chamados de pequenos agricultores. ‘Camponês’ é um termo pejorativo. Aqui, vamos elevar o status daqueles que produzem os alimentos do país", disse o político. O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, discursa durante cerimônia em Bogotá - Luisa González - 26.ago.2026/Reuters Dias antes, o site La Silla Vacía já havia revelado orientações do governo à Agência Nacional de Terras para que se evitasse o termo. Dangond, no entanto, foi além, ofuscando o debate sobre orçamento do setor agropecuário e transformando-o em uma discussão sobre nomenclatura. "Me ferve o sangue ouvir tamanha barbárie em um país como a Colômbia, onde a violência, o desapossamento e a exclusão das instituições têm sido especialmente cruéis contra o campesinato", afirmou Mafe Carrascal Rojas, deputada pelo Pacto Histórico, mesmo partido do ex-presidente Gustavo Petro, e uma das críticas da iniciativa. "Todo o povo colombiano, seja de esquerda ou de direita, sente um profundo orgulho por ter pais ou avós camponeses, ou por se dedicar atualmente ao cultivo da terra para alimentar suas famílias e todo o país", completou em sua conta no X (ex-Twitter). Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia ColomboIris Marín Ortiz, defensora do Povo da Colômbia —um cargo semelhante ao da chefia da DPU (Defensoria-Pública da União) no Brasil— também se manifestou, afirmando nas suas redes sociais que "o campesinato é sujeito de direitos e proteção especial; possui uma relação particular com a terra". "Os camponeses são livres e iguais a todas as outras populações e têm o direito de não serem sujeitos a qualquer tipo de discriminação no exercício dos seus direitos, em particular os direitos baseados na sua situação económica, social, cultural e política", escreveu. A repercussão foi tão grande que o próprio Ministério da Agricultura precisou esclarecer o que pretendia com a mudança. "Para encerrar a discussão: 'camponês' e 'produtor agrícola' não são sinônimos. 'Camponês' identifica uma condição social, econômica, territorial ou familiar relacionada à agricultura. 'Produtor agrícola ou empresário' é uma categoria produtiva mais ampla: inclui desde pequenos agricultores até grandes empresas agrícolas", afirmou a pasta em uma mensagem assinada pelo próprio ministro. A justificativa tem algum sentido: segundo números mais recentes do Dane (Departamento Administrativo Nacional de Estatística), de 2026, a Colômbia tem quase 15 milhões de agricultores, ou 28,5% da população do país. O mesmo órgão, porém, mostra que, em 2023, apenas 16.775 pessoas se declaravam camponesas. Isso porque o termo espanhol "campesino" pode ter uma conotação depreciativa no país, como afirmou o ministro —seria o equivalente em português a caipira, por exemplo, que pode ter uma carga negativa a depender do contexto em que a palavra está inserida. Mas o debate não é novo, e os camponeses costumam reivindicar o termo como uma forma de ressignificar a palavra. Foi o que aconteceu nos debates que antecederam a publicação da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses, em 2018. Na ocasião, a União Europeia propôs retirar a palavra "camponeses" do título da declaração sob o argumento de que, em inglês, o termo "peasants" é discriminatório. Conforme os documentos da ONU, porém, um representante da organização internacional La Via Campesina rechaçou a proposta afirmando que, quando uma pessoa sofre discriminação com base na identidade, essa identidade deve ser protegida, não alterada. Grupos colombianos sustentam essa reivindicação até hoje. A Constituição do país reconhece o camponês como "sujeito de direitos e proteção especial" desde 2023, e para o grupo Dignidad Agropecuaria Colombiana, a ausência de distinção em políticas públicas é um problema. "A Colômbia precisa tanto da agricultura familiar, de pequena escala e comunitária, quanto de empresas nacionais que produzem, geram empregos e contribuem para o desenvolvimento rural. O apoio à agricultura não pode depender da ideologia do governo no poder. O campo precisa de políticas, investimentos e garantias para produzir", afirmou a entidade em suas redes sociais. Para o advogado Carlos Quesada, doutor em direito pela Universidade Nacional da Colômbia, a proposta do ministro revela a forma como o governo vê o desenvolvimento rural —que, conforme a Constituição do país, deveria promover a iniciativa privada, a sustentabilidade ambiental e a sustentabilidade social. "Esta última está relacionada ao atendimento das necessidades das populações marginalizadas. Acho que o ministro acredita que desenvolvimento sustentável se resume ao crescimento econômico, entendido como apoio à iniciativa privada", afirma Quesada, que pesquisa questões relacionadas ao direito ambiental há mais de dez anos. De forma mais prática, a mudança serviria ainda para salvar o déficit nas finanças públicas deixado por Petro. "Ao dizer que o camponês desaparece como sujeito, o que realmente acontece é que ele desaparece da discussão sobre a alocação de recursos escassos", completa o advogado. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões
Governo Espriella deixa de usar palavra 'campon�s' e adota 'empres�rio do campo' na Col�mbia
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