Gl�ria Menezes foi um retrato de inova��es e da evolu��o das novelas

Gl�ria Menezes foi um retrato de inova��es e da evolu��o das novelas

Num dos últimos capítulos de "Rainha da Sucata", a aristocrata Laurinha Figuerôa, papel de Glória Menezes, admite a realidade que evitou por quase 200 capítulos —o seu tempo acabou. Falida, abandonada, esquecida, não lhe resta alternativa além de tentar a vida da Sucateira, personagem de Regina Duarte, e partir desse mundo. É isso o que ela faz: vestida de branco, ela sobe ao terraço do edifício, arranca o brinco da rival e se atira, na primeira cena de suicídio da televisão brasileira. A cena, que seria uma ousadia em si, foi ainda maior por ter sido protagonizada justamente por Glória Menezes, um dos principais rostos da televisão brasileira, morta aos 91 anos, nesta terça. Ao lado do marido Tarcísio Meira, conservava uma imagem de identificação familiar junto aos telespectadores. Essa dissonância entre a imagem pública e a atriz, entretanto, não era propriamente estranha a Glória Menezes. Aos cinco anos, ela escapou do quarto, dentro de um navio, para ensaiar escondida com uma companhia de teatro argentina —e deixou a mãe chocada ao vê-la com um figurino de papel-crepom. Nos anos 1950, foi estudar na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e se juntou ao teatro amador, sem se importar com a rejeição das avós. Ela estava certa em seguir adiante. Em 1960, ganhou o APCA de atriz revelação por seu papel numa adaptação de "As Bruxas de Salém", texto de Arthur Miller. Naquele mesmo ano, ela interpretou Rosa, casada com o protagonista Zé do Burro —Leonardo Villar—, na adaptação cinematográfica de "O Pagador de Promessas", de Dias Gomes. Dirigido por Anselmo Duarte, o filme estreou em 1962 e é a única produção brasileira a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Na década de 1960, a atriz estrelou a primeira telenovela diária do país, "2-5499 Ocupado", na TV Excelsior, interpretando uma presidiária que se apaixona pela voz de um advogado interpretado por Tarcísio Meira. Ao lado dele, com quem já era casada, Glória se tornaria um retrato da evolução e das experimentações do gênero. Em 1970, em "Irmãos Coragem", de Janete Clair, viveu três personagens em uma: a recatada Lara, a esfuziante Diana e a sensata Márcia. No fim da década, a atriz interpretaria, também num folhetim de Janete Clair, um de seus tipos mais populares: a Ana Preta, uma alegre e independente dona de cabaré em "Pai Herói", de 1979. Sua ousadia como atriz dramática dentro das telenovelas pode ser vista em novelas como "O Grito", de 1975, de Jorge Andrade, em que interpretou uma ex-freira, mãe de uma criança com problemas mentais, seu papel mais denso no gênero, e em "Corpo a Corpo", de Gilberto Braga, em que interpreta uma enfermeira de caráter dúbio numa trama de suspense à Alfred Hitchcock. Nos anos 1990, porém, os boatos falariam mais alto, rompendo essa trajetória de ousadia. Na novela "Torre de Babel", de 1998, sua personagem viveria uma relação de amizade com uma viúva lésbica, interpretada por Silvia Pfeifer. A partir disso, a ideia era discutir o preconceito. Mas uma série de mentiras divulgadas na imprensa, afirmando que ela viveria uma "sapatão", escandalizaram o público, o que levou o autor a ter de abandonar a proposta original. A resposta talvez tenha vindo uma década depois. Em 2008, o palco do Teatro Faap, em São Paulo, recebeu uma senhora em andrajos, com voz contida, respostas prontas, gesto e corpo ritmados numa suave construção de personagem. Era Glória Menezes, aos 72 anos, vivendo a Maude, a protagonista de "Ensina-me a Viver" —a história do relacionamento entre uma senhora e um garoto mórbido— um dos marcos teatrais do final daquela década. Uma personagem que é a própria liberdade.

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