A guerra na Ucrânia, o bloqueio parcial do estreito de Hormuz no Oriente Médio e um intenso fenômeno El Niño geram novos riscos para a oferta mundial de alimentos. O índice de preços de alimentos da FAO, agência da ONU para segurança alimentar, atingiu 136 pontos em setembro, alta de 1,5% em relação a agosto e de 5,8% na comparação anual —maior patamar desde o final de 2022, embora cerca de 15% abaixo do recorde de março daquele ano. Os cereais subiram 5,1% no mês e 17,2% em 12 meses, puxados por trigo e milho; o açúcar teve alta de 6,1% e 14,7%, respectivamente; óleos vegetais, 0,9% e 18,3%. Carnes e lácteos recuaram ou permaneceram estáveis. Ataques ucranianos a refinarias russas reduzem a oferta de diesel, inclusive para o Brasil. No Golfo, o corte nos embarques de óleo diesel e de ureia afeta preços —o Oriente Médio responde por cerca de um terço do comércio desse fertilizante nitrogenado. O repasse aos preços finais ainda é parcial, mas a FAO alerta que a persistência dessas pressões tende a alcançar o consumidor, sobretudo em países importadores de alimentos e energia. O El Niño severo amplifica o risco. A agência já registra expectativas de safras mais apertadas de açúcar em 2026-27, com chuvas abaixo do normal na Índia e em excesso no Centro-Sul do Brasil. Incertezas quanto à produtividade nos Estados Unidos e menor disponibilidade para exportação no Brasil sustentam cotações. A produção global de cereais em 2026 é estimada em 2,98 bilhões de toneladas, 2,1% abaixo do recorde do ano anterior. Ainda é a segunda maior da história, mas com o comércio projetado em queda por restrições logísticas. No Brasil, o quadro é menos agudo, mas longe de confortável. O poder de compra de alimentos melhorou em relação a 2022, sem recuperar o patamar pré-pandemia. Em agosto, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava 1,8 cesta básica em São Paulo (R$ 900,59), 11,3% a mais que 1,62 cesta em agosto de 2022, porém 13% abaixo da média de 2010-19. De 2019 a 2022, a alimentação no domicílio acumulou alta de 54,2%, bem acima do IPCA geral. Nos anos seguintes a pressão diminuiu, com alta de 12,9% do início de 2023 até agosto deste ano, mas os meses recentes mostram reaceleração em itens sensíveis. Por ora, a Conab projeta uma safra recorde de grãos para 2026-27, 366,6 milhões de toneladas, alta de 1,4% ante o ano passado. Diante dos riscos climáticos, porém, a produtividade pode frustrar as estimativas iniciais e impactar o custo da alimentação. editoriais@grupofolha.com.br
Geopol�tica e clima tornam a comida cara
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