Furnas Fundas é o nome da cidadezinha onde se passa a ação do filme homônimo, numa história na qual a eleição para prefeito é perturbada pela chegada de vampiros. O título é muito pertinente, já que a cidade é praticamente um personagem, a verdadeira protagonista do longa. O segundo filme de Beto Marquez, depois do interessante e pouco conhecido "Maior que o Mundo" (2022), é vendido no cartaz da produção como "uma fábula gótica brasileira". E leva o mérito de ser puro entretenimento, uma opção pouco explorada pela militância habitual do cinema nacional. Mas a aventura vampiresca ganha força mesmo na concepção de Furnas Fundas, uma "terra de manguaceiros", como define um personagem. Na cidadezinha, todo mundo bebe, sem parar. É muito difícil encontrar uma cena sequer em que alguém não esteja entornando uma garrafa de cachaça. A maior obra do prefeito Marcão, vivido por Otavio Muller, é a criação do C.A.T.A., sigla para Centro de Acolhimento e Tratamento de Alcoólicos. Toda madrugada, a perua da entidade resgata os beberrões desmaiados na rua, agarrados a uma garrafa vazia, e os leva para receber medicação na veia e descansar até a nova bebedeira começar. É nesse cenário que Marcão busca sua reeleição. E seu projeto para o novo mandato é vender uma área grande da cidade para latifundiários e embolsar o dinheiro. Seu favoritismo deveria aumentar quando seu oponente nas urnas, o padre da cidade, é encontrado morto, com dois furos no pescoço. No entanto, a disputa se acirra quando Rosália, papel de Natália Lage, que se lançava como vice na chapa do marido, resolve largar o prefeito adúltero e assumir a candidatura à prefeitura pelo partido rival, no lugar do padre. Quando as cenas se concentram nos conchavos e falcatruas dos bastidores políticos, elas proporcionam os momentos mais cínicos e engraçados do filme. Baseado numa história original de Reinaldo Morais e roteirizado por Antonia Baudouin, o filme acerta na maneira de interligar a disputa política com a chegada de três vampiros, um deles interpretado por Eriberto Leão, trabalhando de novo com o diretor após ser o protagonista de "Maior que o Mundo". As criaturas vão tomar partido na eleição, embora a principal preocupação do trio na visita a Furnas Fundas seja ressuscitar um vampiro poderoso. A história é conduzida por Bartira, vivida por Gabriela Dias, sobrinha do padre morto que trabalha como preparadora funerária, embora os moradores prefiram chamá-la de coveira. Ela é a primeira a descobrir a presença dos vampiros e acaba formando uma equipe um tanto desajeitada para combatê-los. Bartira ganha ajuda de um médico legista apaixonado por ela e um vampirólogo que persegue as criaturas. Esse Van Helsing tupiniquim, referência ao caça-vampiros dos filmes de Drácula, poderia ter mais participação na história, mas acaba desperdiçado. O filme tem uma boa edição que contempla várias linhas narrativas e muitos personagens. A montagem é ágil, sempre criando expectativa sobre o que vem a seguir. Mas, sem dúvida, o diretor deve muito a dois atores que brilham do começo ao fim. Otavio Muller e Natália Lage estão impagáveis como o casal de políticos corruptos, em discussões sobrecarregadas de palavrões, usados como boa ferramenta de humor. "Furnas Fundas" não vai mudar a vida de ninguém, mas é justamente sua opção despretensiosa de apenas contar uma história e fazer rir, apoiada em atores muito bons, que faz o filme encontrar seu lugar entre as boas produções nacionais da temporada.
'Furnas Fundas' mistura elei��o e vampiros e tem m�rito da pura divers�o
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