Fuga de Fl�vio � problema para a direita e para Lula

Fuga de Fl�vio � problema para a direita e para Lula

Dois dias após receber 59.826.041 votos, credenciando-se como ator central da direita brasileira, Flávio Bolsonaro comportou-se como culpado dos crimes pelos quais é acusado, optando pela fuga e pela fácil retórica da perseguição política. O senador pelo PL do Rio fez jus ao sobrenome. No penúltimo dia como presidente da República, seu pai Jair embarcou para um autoexílio conveniente nos Estados Unidos, tendo fracassado em arregimentar os militares para dar um golpe e fingindo nada ter a ver com a intentona bolsonarista do 8 de Janeiro. Depois, já bafejado pela condenação inevitável no julgamento daquela trama, cumprindo medida cautelar, Bolsonaro protagonizou o inacreditável episódio em que tentou romper sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda e escapulir da prisão domiciliar. O ex-deputado Eduardo (PL-SP) foi mais eficaz. Fugiu para os EUA enquanto ainda não estava ao alcance da Justiça, montando um QG de operações contra o Brasil junto ao governo Donald Trump, onde tem na equipe de Marco Rubio ouvidos atentos. Logrou a execução de uma guerra tarifária que mais prejudicou do que ajudou a pretensão presidencial de seu irmão. A opacidade do seu sustento ainda é tema para escrutínio. A ele se junta agora Flávio, mas a situação deixada pelo senador é bastante mais complexa. Bolsonaro era o líder maior do campo conservador, claro, mas estava deixando a Presidência quando se evadiu e estava fora do poder quando descobriu a resiliência da tornozeleira que envergava. Eduardo sempre foi um agitador no meio populista, mas nunca teve a influência ou a relevância pública de seu pai. Já o senador derrotado por Lula (PT) no domingo passado (25) deixa o país quando podia firmar-se como porta-voz do bolsonarismo. Isso gera uma situação paradoxal para seus aliados. Por um lado, o clã Bolsonaro vai cobrar a fidelidade usual. Por outro, Flávio era visto como tóxico demais até por alguns desses parceiros, como a resistência inicial à sua candidatura provou. Relatos indicam que o mais poderoso desses bolsonaristas, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), operou pela desistência de Flávio em entrar com uma ação de anulação da eleição por motivos pífios, apelando à moderação de alguém que não aceitou o resultado do pleito. Sua única manifestação pública veio depois do relato da fuga, mas não a cita. Em um vídeo, o governador tenta se distanciar de Flávio ao dizer que reconhece a eleição, aponta problemas no pleito e pede para o jogo seguir. A virtual confissão de culpa do ex-presidenciável poderia servir de deixa para Tarcísio romper com os Bolsonaros e buscar voo próprio rumo a 2030. Mas isso significaria alienar boa parte da quase metade do eleitorado que votou em Flávio e ainda colar um selo de traidor na testa. Isso ele e outros aliados não têm coragem de fazer, preferindo contar com um decaimento natural da radioatividade do clã —aposta deveras incerta. Há também o fator Alexandre de Moraes. O ministro é a besta-fera do bolsonarismo, e o caso Master abriu um rombo em sua blindagem. Ao acossar Flávio um dia depois da eleição, ele deu corda ao discurso de perseguição política, independentemente da culpa ou da vontade de fugir provada pelo senador. Isso manterá a tropa abalada pela derrota com um foco, e a chegada da bancada bolsonarista mais robusta ao Senado manterá o tema do impeachment de Moraes no ar. A julgar pelo histórico, a reação do ministro será dobrar a aposta, talvez decretando a prisão de Flávio por não entregar seus passaportes. Pior para Lula, que ganha uma turbulência adicional desnecessária. Ela pode tornar-se grave caso Trump encampe com mais entusiasmo do que demonstrou a narrativa da caça às bruxas dos Bolsonaros. Confirmada a mão de Rubio e talvez de aliados regionais como Javier Milei no episódio, como dizem aliados do clã, o medo de prisão do senador pode evoluir para uma crise internacional de grande impacto potencial, logo na largada do quarto mandato do petista.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.