A anatomia de um novo dinossauro emplumado, descoberto na China, reforça a ideia de que o uso das penas para voar não foi uma "invenção" exclusiva das aves, mas também fez parte de experimentos evolutivos envolvendo parentes delas que não pertencem ao mesmo grupo. Medindo pouco menos de 60 cm, o peso-pluma Norellraptor barsboldi até tem vários traços em comum com suas primas penosas de hoje e do passado. Mas o detalhe crucial é que essas semelhanças parecem ter surgido numa ordem diferente na linhagem das aves e na dele. Ou seja, trata-se de um caso de evolução convergente, em que grupos de seres vivos já separados desenvolvem soluções muito parecidas para o mesmo desafio de sobrevivência (no caso, o voo). A descrição da espécie consta de um artigo que saiu na última terça (29) na revista científica Nature Communications. Ambas as partes do nome do bicho homenageiam paleontólogos de renome que morreram no ano passado –o americano Mark Allen Norrell e o mongol Rinchen Barsbold, ambos especialistas em dinossauros semelhantes a aves. O esqueleto fóssil do animal, praticamente completo, foi encontrado nas rochas do oeste da região chinesa de Liaoning, sendo descrito agora por Andrea Cau, do Museu Paleontológico e Centro Herpetológico Ophis, na Itália, e Qiang Ji, da Universidade Geológica de Hebei, na China. A idade estimada para as rochas de origem da espécie é de cerca de 120 milhões de anos. O Norellraptor barsboldi pertence a um subgrupo de pequenos dinossauros carnívoros que tem a designação latina de Microraptorinae. Fósseis espetaculares dessa linhagem, também com penas preservadas, já são bem conhecidos entre os paleontólogos da China, e o detalhe que mais chama a atenção é o que parece ser uma anatomia de "biplano", para usar uma comparação aeronáutica. Ou seja, é como se os bichos tivessem dois pares de asas, usando tanto as patas da frente quanto as de trás para se locomover no ar, de maneiras que ainda provocam debate entre os especialistas. (No caso das aves propriamente ditas, apenas as patas dianteiras se modificaram para dar origem a um par único de asas, é claro.) É possível propor que as penas dos membros traseiros também tinham algum elo com a locomoção aérea porque várias delas são assimétricas. Isso significa que, quando se olha para a raque, a estrutura rígida que divide a pena em duas metades, um lado é mais largo que o outro. Essa característica é importante para que as aves atuais consigam manobrar em pleno voo, não estando presente em outros tipos de plumagem que não têm essa função. Isso levou muitos paleontólogos a concluir que os Microraptorinae eram capazes de alguma forma de voo autopropelido. Vale dizer, os bichos teriam conseguido decolar por conta própria e permanecer no ar "batendo asas", e não apenas planando, como fazem diferentes grupos de animais que não chegaram a desenvolver o voo verdadeiro. É provável que houvesse uma eficiência menor em relação às aves que conhecemos hoje. O problema, porém, era saber exatamente onde o voo esquisitão dos Microraptorinae se encaixava em relação ao quadro mais amplo da evolução de espécies aladas. A proximidade entre a linhagem desses bichos e a das "aves verdadeiras" (que também são dinossauros) é tão grande que, para alguns cientistas, seria possível que a fase inicial do voo das aves tivesse tido muito em comum com o deles. A outra possibilidade seria um processo paralelo, em que ambas as linhagens aproveitaram características já bem estabelecidas –a presença das penas e o corpo delicado– para seguir caminhos semelhantes, mas claramente separados. A análise detalhada da anatomia e das relações de parentesco do Norellraptor barsboldi, argumentam os autores do novo estudo, traz mais dados em favor da segunda possibilidade. Eles levaram em conta 194 características importantes do esqueleto dos bichos, das quais 30% também estão presentes nos grupos paralelos de aves primitivas e modernas. A lista de detalhes é grande, envolvendo, por exemplo, transformações nos dedos, na clavícula e no esterno (o osso do peito, que, nas aves, tem a função de "cortar" o ar durante o voo). A questão é que, para imaginar uma trajetória compartilhada entre os Microraptorinae e as aves nesses quesitos, seria necessário desenhar uma árvore genealógica com 23 passos evolutivos a mais do que a versão considerada estatisticamente mais provável pela análise. Além disso, a reconstrução do processo de surgimento desses traços nos dois grupos indica que a ordem em que eles apareceram foi bem diferente em cada um deles –os Microraptorinae ganharam primeiro algumas adaptações para o voo que só apareceriam mais tarde nas aves, e vice-versa. É uma assinatura, portanto, de origens paralelas da locomoção alada, o que também foi reforçada pela análise da estrutura microscópica dos ossos do fóssil. Tudo indica que o ritmo de crescimento dele também invertia os padrões de desenvolvimento das patas dianteiras e traseiras vistos em aves de anatomia mais primitiva ainda vivas hoje, o que dificulta a proposta de uma origem comum.
F�ssil chin�s indica origem dupla para o voo pr�-origem das aves
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