Se você acredita que Israel tomou o lugar de um país chamado Palestina, este artigo é para você. A proposta aqui não é pedir que você mude de posição, mas convidá-lo a um exercício simples: examinar alguns fatos históricos. .Durante o mandato britânico, "Palestina" não tinha o significado político que adquiriu hoje. Era o nome do território administrado pelos britânicos, habitado por árabes e judeus. A partir de 1925, estabeleceu-se uma cidadania palestina que incluía ambos os grupos. Por isso, documentos daquele período podem produzir uma impressão enganosa quando interpretados com o vocabulário atual. A libra palestina, por exemplo, trazia inscrições em inglês, árabe e hebraico. Ao lado do nome Palestina em hebraico apareciam as letras "alef" e "yud" (א״י), abreviação de "Eretz Israel" ("Terra de Israel"). Havia também uma seleção de futebol da Palestina. A "Palestine Football Association" foi criada em 1928, por iniciativa sionista, e admitida pela Fifa no ano seguinte. Quando a equipe disputou as Eliminatórias das Copas de 1934 e 1938, nenhum jogador árabe palestino entrou em campo, eram todos judeus. Após a criação de Israel, a associação tornou-se a Israel "Football Association". O Palestine Post, fundado em Jerusalém em 1932, era um jornal de orientação sionista e hoje é o Jerusalem Post. A Palestine Symphony Orchestra foi fundada em 1936 pelo violinista judeu Bronislaw Huberman para abrigar músicos judeus europeus ameaçados pelo nazismo. Depois, tornou-se a Orquestra Filarmônica de Israel. Talvez o exemplo mais surpreendente seja a "American League for a Free Palestine", criada nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial por ativistas sionistas que defendiam o fim do domínio britânico e a criação de um Estado judeu. Sim: "Free Palestine". Mas aqueles judeus queriam uma Palestina livre dos britânicos. Nada disso significa que não existissem árabes palestinos ou que uma identidade nacional não estivesse se desenvolvendo antes de 1948. Significa algo diferente: "Palestina" não tinha o mesmo significado de hoje. As identidades nacionais se consolidam historicamente. Com a criação da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), em 1964, e com a ascensão de Iasser Arafat à sua liderança em 1969, a identidade palestina ganhou enorme projeção internacional. Paralelamente, após o fim da Palestina mandatária em 1948, o termo "palestino" passou a ser associado quase exclusivamente aos árabes da região. O problema não está nessa transformação, mas em projetá-la retrospectivamente sobre o passado.Uma moeda onde está escrito "Palestine" não comprova a existência de um Estado árabe soberano anterior a Israel. Um jornal chamado Palestine Post era sionista. E um movimento chamado "Free Palestine" defendia a criação de um Estado judeu. Isso não apaga a história palestina; apenas devolve a ela o seu contexto. Hoje, a expressão ganhou outro sentido. Para milhões, significa libertar os palestinos de Israel. Mas há uma ironia nessa evolução. Nos últimos anos, passou a aparecer também o slogan "Free Gaza from Hamas". Em 2025 e neste ano, palestinos foram às ruas em Gaza em manifestações que incluíram protestos contra o Hamas e pedidos por sua saída. As primeiras eleições legislativas palestinas em 20 anos estão marcadas para novembro. O Hamas, vencedor do último pleito, em 2006, anunciou que pretende participar novamente, desta vez buscando integrar uma ampla coalizão. Um ano depois daquela vitória eleitoral, o grupo tomou o controle de Gaza. Se "Free Palestine" significa defender a liberdade de um povo, vale perguntar: livre de quem? Uma população pode querer libertar-se da guerra, do extremismo e também de uma organização armada que decide seu futuro. Há cerca de oito décadas, judeus queriam uma "Free Palestine". Hoje, muitos querem também um Estado palestino árabe livre. Inclusive do Hamas. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
'Free Palestine'; mas livre de quem?
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