Freada da economia � o mau motivo da queda dos juros

Freada da economia � o mau motivo da queda dos juros

O Banco Central acredita que a inflação chegará perto da meta de 3% ao ano no início de 2028. O ritmo de atividade econômica vem caindo de modo mais pronunciado. É o que se depreende da estagnação verificada até o trimestre encerrado em julho e de indicadores preliminares de agosto. Tendo em vista apenas tais aspectos, é provável que o BC continue a cortar a taxa básica de juros nos próximos meses —como o fez na quarta (16), quando a Selic foi reduzida de 14% para ainda exorbitantes 13,75% anuais. Há riscos, porém, para essa trajetória, crucial para a redução dos gastos financeiros de governo, famílias e empresas. As despesas públicas em alta pressionam a inflação; o mesmo podem fazer uma alta do dólar e possíveis novos choques de preços do petróleo e efeitos derivados do fenômeno climático El Niño. O real, como outras moedas de países emergentes, não tem sido abalado de modo mais relevante pelo nível elevado dos juros americanos, mas é incerto se tal comportamento continuará em caso de alteração financeira maior nos Estados Unidos —onde, na mesma quarta, as taxas subiram. Quanto à atividade econômica, as perspectivas para 2027 são preocupantes. A mediana das projeções dos economistas coletadas pelo BC vem diminuindo e hoje ronda 1,5%. A tendência é piorar. Ainda que a Selic caia mais, permanecerá em patamar restritivo; as taxas de juros de prazo mais longo permanecem nas alturas e, tudo o mais constante, não recuarão sem que o próximo governo apresente um plano de ajuste fiscal rigoroso e crível. Assim, o endividamento de famílias e empresas, a inadimplência elevada e o custo de financiamentos devem fazer com que o ritmo de concessões de crédito continue em queda. O impulso fiscal —o gasto extra do setor público— deverá ser menor no próximo ano, se houver algum. A desaceleração econômica deve reduzir o número de pessoas ocupadas e o avanço da renda, com o que será mais difícil pagar dívidas. Juros altos e incerteza devem conter o investimento. Assim, não há à vista motores para sustentar um crescimento do PIB superior ao ora previsto pelos economistas, ainda que não venham a ocorrer choques no câmbio, no petróleo e no clima. Mesmo que se anuncie um programa de controle orçamentário e reformas, a contenção de gastos do governo deve ter, em um primeiro momento, efeitos contracionistas —embora a decorrente redução das taxas de juros possa antecipar uma recuperação da demanda e da atividade. Tal situação, de menos crescimento e emprego em um país endividado, dificulta as condições políticas de um ajuste. No entanto adiá-lo tende a aumentar as dificuldades de negociação com o Congresso Nacional e de convencimento da sociedade. Além do mais, a procrastinação pode fazer com que a crise se torne crônica ou sujeite o país a um choque traumático. Não haverá tempo a perder. editoriais@grupofolha.com.br

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