Quando Júlia Machado, 23, entrou no curso de fonoaudiologia da USP (Universidade de São Paulo), conhecia principalmente a atuação dos profissionais com fala e voz. Hoje, no quinto ano da graduação, após passar por pesquisas em linguagem e chegar à audiologia, área voltada à avaliação e à reabilitação da audição, diz ter descoberto uma profissão muito mais ampla do que imaginava. Ao mesmo tempo, a fonoaudiologia ganha alunos e estreia no RUF (Ranking Universitário Folha). De 2015 a 2024, o número de ingressantes em cursos presenciais de fonoaudiologia cresceu 72%, de .814 para 6.550, segundo o Censo da Educação Superior do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). É o 35º curso em número de ingressantes no país. A USP, que mantém um dos cursos pioneiros de fonoaudiologia do Brasil, criado em 1958, está em primeiro lugar no ranking da área. Entre as instituições privadas, a mais bem colocada é a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), em sexto. A música já fazia parte da vida de Júlia Machado antes da universidade. Ela estudou canto popular e foi uma professora do conservatório, que cursava fonoaudiologia, quem apresentou outras possibilidades da profissão. Na graduação, essa percepção se ampliou. "A gente até hoje descobre coisas. Existe fono forense, fonoestética, fono de tudo. São muitas especialidades", diz. Essa diversidade inclui audiologia, linguagem, voz, atuação hospitalar, fonoaudiologia educacional e reabilitação neurológica, além de frentes ligadas à deglutição, ao desenvolvimento infantil, ao envelhecimento e à saúde coletiva.Segundo Daniela Molini Avejonas, chefe da Fofito (Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da USP), a pandemia de Covid-19 ajudou a ampliar a visibilidade da fonoaudiologia. Em UTIs, fonoaudiólogos passaram a atender pacientes após intubação, principalmente por dificuldades de deglutição e risco de broncoaspiração, quando alimentos ou líquidos entram nas vias respiratórias, além de alterações cognitivas, respiratórias e de comunicação. A pandemia revelou ainda alterações na audição. Em tese de doutorado na Unesp (Universidade Estadual Paulista), Simone Sperança investigou se a infecção pelo SARS-CoV-2 poderia afetar como o cérebro processa os sons. A pesquisa avaliou 31 pessoas sem perda auditiva em exames convencionais. Mesmo assim, 96,8% tiveram alteração em ao menos uma habilidade do processamento auditivo central, responsável por tarefas como distinguir uma voz em meio ao ruído e organizar sequências sonoras.Sperança diz que a pessoa pode escutar normalmente, mas ter dificuldade para compreender uma conversa em ambiente barulhento. A avaliação e a reabilitação desses casos fazem parte da atuação do fonoaudiólogo. A Covid-19, porém, não explica sozinha o aumento de ingressantes. Carla Gentile Matas, coordenadora da graduação em fonoaudiologia da USP, aponta outros fatores, como a maior oferta de cursos, o maior acesso ao ensino superior, o envelhecimento da população e a maior sobrevida de recém-nascidos de alto risco. O crescimento dos ingressantes ocorreu sobretudo na rede privada, onde o número de novos alunos subiu 94,7% entre 2015 e 2024, de 2.790 para 5.433. Nas públicas, a alta foi de 9,1%, de 1.024 para 1.117. Na Unicid (Universidade Cidade de São Paulo), o curso presencial teve 329 ingressantes em 2024. Simone Sperança, coordenadora da graduação na instituição, informa que um dos fatores que podem favorecer a expansão das instituições privadas é a possibilidade de oferecer o curso em apenas um período. Na Unicid, há turmas pela manhã e à noite, o que permite conciliar estudos e trabalho. Essa diversidade de atuação se reflete na trajetória de Giulia Pizol, 23, aluna do terceiro ano de fonoaudiologia da USP, que diz não ter conhecido nenhum fonoaudiólogo antes de escolher o curso. O que a atraiu foi a possibilidade de acompanhar os pacientes ao longo do tratamento. Giulia entrou interessada em fonoaudiologia hospitalar e disfagia, mas se aproximou da linguagem infantil durante a graduação. "Você reabilitar uma criança na linguagem, mesmo que às vezes ela não lembre das terapias, pode ter certeza que você mudou a vida dela", diz. O desenvolvimento e a comunicação na infância estão entre as áreas que ampliaram a demanda pela fonoaudiologia. Em pessoas com TEA (transtorno do espectro autista), a atuação envolve frentes como linguagem, comunicação, alimentação, mastigação e deglutição. O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chegou a 2,6%, segundo o IBGE. Daniela Avejonas, da USP, diz que o aumento dos diagnósticos não significa que o número de pessoas com autismo tenha crescido na mesma proporção. Segundo ela, mais conscientização e critérios mais claros ajudaram a identificar casos antes despercebidos. Jacy Perissinoto, coordenadora do NIFLINC (Núcleo de Investigação Fonoaudiológica em Linguagem da Criança e do Adolescente) e orientadora de pós-graduação da Unifesp, afirma que essa mudança se reflete na idade em que os pacientes chegam para avaliação. Há cerca de 15 anos, era comum receber crianças aos sete ou oito anos; hoje, elas chegam por volta dos dois anos e meio. A procura por avaliação se estende a adolescentes e adultos sem diagnóstico, inclusive pessoas na faixa dos 30 e 40 anos, diz. Para Perissinoto, o movimento faz parte de uma diversificação das demandas da fonoaudiologia, que ganhou espaço em áreas como dislexia, TDAH e outros transtornos ligados à aprendizagem e ao desenvolvimento. O número de profissionais acompanhou esse movimento. Carla Salles Chamouton, presidente da Comissão de Ensino da SBFa (Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia) e docente da Unesp de Marília, afirma que o número de fonoaudiólogos vinculados ao SUS (Sistema Único de Saúde) passou de 8.603 em 2008 para 24.090 em 2024. No país, o total de fonoaudiólogos registrados cresceu 26,2% em pouco mais de cinco anos, de 48.391 em junho de 2021 para 61.054 em agosto de 2026, de acordo com dados do CFFa (Conselho Federal de Fonoaudiologia). Sperança, da Unicid, vê espaço para que a profissão continue crescendo. Segundo ela, a fonoaudiologia ainda é uma área jovem e há mercado em diferentes especialidades. Esse avanço, diz, dependerá da formação continuada e da atualização dos profissionais.
Fonoaudiologia estreia no RUF ap�s salto de 72% no n�mero de ingressantes
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