Fogo recua, mas El Ni�o e Europa acendem alerta

Fogo recua, mas El Ni�o e Europa acendem alerta

O retrospecto da governança ambiental no Brasil não recomenda excesso de otimismo com boas notícias, como o recuo de 58% na área florestal queimada em 2025. Com o advento de um potente El Niño, este e o próximo ano poderão reeditar as cenas dantescas ora observadas na Europa. Há o que comemorar, decerto. A queda acentuada de 302 mil km² em 2024 para 127 mil km² incinerados no ano passado se deveu em grande parte à reversão dos incêndios na amazônia, sempre foco de bastante atenção por ser a maior floresta tropical do planeta e abrigar tesouro sem par de biodiversidade. O próprio clima parece ter contribuído, assinalou Ane Alencar, diretora de ciências do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Fogo, programa que produziu os dados animadores. A época de chuvas se atrasou de 2024 para 2025 e invadiu os meses de abril e maio, dificultando a ignição de queimadas num bioma cuja umidade natural já torna a mata pouco inflamável. Concorreu ainda para o resultado a redução de 11% no desmatamento da Amazônia Legal no mesmo período. Muitas vezes o fogo se alastra para a floresta desde as leiras de troncos e galhos sobre o solo, depois queimadas para eliminação de resíduos. Resultado: menos focos de ignição junto à mata menos seca. A situação no bioma amazônico contrasta com a do cerrado, savana no centro do Brasil que sofre assédio mais intenso do agronegócio sequioso pela abertura de novos campos e pastagens. Com metade da área total do congênere mais chuvoso ao norte, ele concentrou 69% de todo o território queimado no país no ano passado. Se a variação do clima contribuiu para conter a inflamabilidade da floresta amazônica, no futuro próximo poderá acarretar o oposto. A chegada do El Niño —fenômeno causado pelo aquecimento acima do normal das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial— deverá reduzir a precipitação no Norte, ressecando a vegetação. A repetição de estiagens severas e incêndios mais e mais intensos, nos últimos anos, aumenta a vulnerabilidade ao fogo. Tudo somado e subtraído, a perspectiva não autoriza relaxar políticas públicas de controle do desmatamento e de queimadas —antes o contrário. Embora não seja possível atribuir diretamente ao El Niño a onda de calor que varreu a Europa, causando dezenas de milhares de mortes, ela criou condições propícias para incêndios que assolam França e Espanha, principalmente, no momento. Nada menos que 2.544 km² já sucumbiram às chamas nos países mediterrâneos, superfície 70% maior que a da capital paulista. O dado que alarma a Europa se esfuma, entretanto, quando cotejado com os 127 mil km² engolidos pelas chamas no Brasil —uma área equivalente à metade do estado de São Paulo. editoriais@grupofolha.com.br

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