Ao longo da atual campanha eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro (PL) buscou enfatizar a imagem de "Bolsonaro moderado" ou "Bolsonaro vacinado" para se diferenciar do pai, Jair Bolsonaro (PL), preso por liderar a tentativa de golpe que o Brasil sofreu entre 2022 e o início de 2023. "Ele não quis tomar vacina [contra a Covid]; eu tomei duas doses", disse à Folha, ainda em dezembro de 2025. A Folha verificou quais foram as atitudes do congressista nos momentos mais agudos do governo do pai, em especial durante a pandemia da Covid-19, que matou mais de 700 mil pessoas, e nas ações que, segundo o STF (Supremo Tribunal Federal), contribuíram para a tentativa de enfraquecimento do processo eleitoral, preparando o terreno para as ações golpistas. Flávio evitou endossar a vacinação assim que as primeiras doses contra a Covid chegaram ao país, reforçou o discurso contra o distanciamento social e divulgou práticas sem comprovação científica para enfrentar a pandemia. Também defendeu a adoção do voto impresso, questionou a credibilidade das eleições brasileiras e minimizou os ataques de 8 de Janeiro, jamais reconhececendo a tentativa de golpe. Relembre a atuação do senador nesses episódios. Vídeo de Drauzio Varella Em 22 de março de 2020, quando o Ministério da Saúde já havia reconhecido a transmissão comunitária do novo coronavírus em todo o território nacional, Flávio Bolsonaro publicou vídeo descontextualizado do médico Drauzio Varella. No material, gravado em janeiro, quando ainda não havia casos confirmados no Brasil, Drauzio dizia que não havia motivo para mudar a rotina e que continuaria a sair normalmente na rua. Flávio compartilhou o conteúdo meses depois para dar força à narrativa do governo de Jair Bolsonaro, que era contrário às medidas de distanciamento social. A pedido do médico, o YouTube excluiu o vídeo do canal do senador. Campanha "Brasil Não Pode Parar" Flávio foi uma das primeiras pessoas no entorno do presidente a compartilhar nas redes sociais o vídeo da campanha "O Brasil Não Pode Parar", que estimulava uma série de categorias a voltar ao trabalho em meio à pandemia de Covid-19. Quando o senador publicou o conteúdo, em 26 de março de 2020, 77 pessoas já haviam morrido infectadas pelo vírus no Brasil. Compartilhado em redes bolsonaristas, o vídeo gerou críticas, e a Secretaria de Comunicação Social do governo federal negou que ele fosse utilizado oficialmente. Nos bastidores, como noticiou a Folha, assessores palacianos confirmaram que a mensagem havia sido espalhada para inflar a militância em apoio ao presidente. Em 28 de março, a Justiça Federal proibiu que a União compartilhasse conteúdos da campanha. Tratamento precoce Em setembro de 2020, Flávio publicou no Twitter (atual X) que estava curado da Covid-19 graças ao uso de hidroxicloroquina e azitromicina, ecoando a narrativa do pai, que explorava a possibilidade do chamado "tratamento precoce" como alternativa ao distanciamento social. À época da declaração do senador, já havia evidências relevantes de que as drogas não eram eficazes para tratar a infecção. A OMS já havia interrompido os estudos com a cloroquina, a agência reguladora americana FDA já havia revogado a autorização para o uso emergencial, e sociedades especializadas de referência, como a Sociedade Brasileira de Imunologia, já haviam desaconselhado o uso do remédio. Vacinação Em 19 de janeiro de 2021, um dia após o início da campanha nacional de vacinação contra a Covid-19, que ainda se concentrava em grupos prioritários, Flávio escreveu no Twitter que não seria imunizado naquele momento por recomendação médica. "Como já tive Covid e minha taxa de imunidade é alta, meu médico não recomendou, neste momento, que eu tome a vacina. Vou seguir a ciência", disse. O consenso científico, porém, era de que pessoas previamente infectadas deveriam se vacinar após se recuperarem da doença. Nos meses anteriores, Bolsonaro já havia dito que não tomaria a vacina e falava sobre a possibilidade de efeitos colaterais. A declaração de Flávio ocorreu em meio a uma disputa de protagonismo entre o então presidente e o governador João Doria (ex-PSDB) em torno das vacinas que finalmente chegavam ao Brasil. A primeira aplicação no país, em 17 de janeiro, ocorreu em São Paulo, minutos depois de a Coronavac, vacina produzida em parceria com o Instituto Butantan, ter o uso emergencial aprovado pela Anvisa. Em março, quando Bolsonaro mudou o discurso e passou a adotar uma posição pró-vacina em meio ao desgaste político que enfrentava, Flávio o acompanhou. O senador publicou no Twitter uma imagem do pai com os dizeres "Nossa arma é a vacina". Em julho, Flávio publicou nas redes que havia tomado a primeira dose do imunizante da AstraZeneca. CPI da Covid Aprovado em outubro de 2021, o relatório final da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid sugeriu o indiciamento de Flávio por incitação ao crime. O senador foi citado como integrante central da estrutura que disseminava desinformação durante a pandemia. "Relatório da Polícia Federal em poder desta CPI mostra que perfis falsos utilizados para disseminar desinformação e ameaças eram operados por assessores de Flávio Bolsonaro", dizia o documento. Durante os trabalhos, o senador criticou a comissão, defendeu o governo e contestou acusações relacionadas à compra da vacina Covaxin. Após a apresentação do relatório, disse que Bolsonaro responderia com gargalhadas às imputações de crimes e à proposta de indiciamento. "Eu acho que ele recebeu da seguinte forma: você conhece aquela gargalhada dele? Hahaha [gargalha forçadamente para imitar a risada do presidente]. Não tem o que fazer de diferente disso", afirmou. Ataques à imprensa Segundo relatório da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que analisou as publicações no Twitter de Jair Bolsonaro e dos filhos Flávio, Eduardo e Carlos entre 1º de janeiro de 2021 e 5 de maio de 2022, o senador foi o herdeiro que menos atacou a imprensa. Ainda assim, o perfil do agora candidato à Presidência publicou 76 conteúdos do tipo no período analisado. Voto impresso Em agosto de 2021, depois que a Câmara dos Deputados rejeitou a PEC (proposta de Emenda à Constituição) que restabelecia o voto impresso, Flávio criticou o resultado e questionou a credibilidade de eleições sem o instrumento. "Estão acusando de golpista quem defende o símbolo da democracia: o voto! Congresso e sociedade divididos. Se nada fizer o TSE, por via até de portarias próprias, teremos eleições sob suspeita!", escreveu no Twitter. O senador defendia a tese desde a eleição de 2018, quando disse que tinha o direito de desconfiar das urnas. Voltou a ela em fevereiro de 2021, ao parabenizar Rodrigo Pacheco pela eleição à Presidência do Senado: "PS: votação por meio de cédula de papel". 7 de setembro de 2021 Em 7 de setembro de 2021, Flávio esteve com o pai no carro de som em Brasília durante um ato bolsonarista. Depois, foi à manifestação na avenida Paulista, em São Paulo, na qual Bolsonaro intensificou a crise institucional ao dizer que não cumpriria mais decisões do ministro do STF Alexandre de Moraes —ameaça que não chegou a cumprir. "[Quero] dizer aos canalhas que eu nunca serei preso", afirmou o presidente na ocasião. "Ou esse ministro se enquadra ou ele pede para sair." No Twitter, o senador negou que as manifestações fossem um ataque às instituições. "Quem insiste na narrativa cretina de ‘atos antidemocráticos’ ou que milhões de brasileiros estão nas ruas hoje apenas por causa de Jair Bolsonaro vive em outra dimensão". Na Paulista, Flávio foi aplaudido ao perguntar "que p***a de democracia é essa em que estamos vivendo?". Apoiadores incontroláveis Em junho de 2022, como coordenador da campanha do pai à reeleição, Flávio disse ao jornal O Estado de S. Paulo que seria impossível controlar a reação dos apoiadores em caso de derrota. Também afirmou que, se o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não resolvesse os problemas apontados, o comandante do Exército ou o ministro da Defesa talvez tivessem de se posicionar. Não respondeu se Bolsonaro aceitaria o resultado. Urnas em xeque Em outubro de 2022, entre os dois turnos, Flávio disse ao jornal O Globo que não houve fraude nas urnas no primeiro turno: "Não aconteceu, mas podia ter acontecido". Contudo, questionado de novo, recuou: "Não sei. É processo de coleta de informações ainda". No mesmo período, compartilhou conteúdo sem comprovação segundo o qual uma urna no Pará teria impedido o voto em Bolsonaro. Silêncio e protestos golpistas Em 31 de outubro de 2022, Flávio se manifestou sobre a derrota antes do pai, mas sem reconhecer a vitória de Lula. "Não vamos desistir do nosso Brasil", disse. Bolsonaro ficou em silêncio por quase dois dias, enquanto caminhoneiros bloqueavam rodovias. O senador também comemorou o protesto golpista que reuniu uma multidão em frente ao Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro. Além disso, ele criticou o TSE por derrubar perfis bolsonaristas que espalhavam desinformação sobre as urnas. Mais tarde, o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, coronel Mauro Cid, delator da trama golpista, afirmou que Flávio queria que o pai admitisse a derrota. 8 de Janeiro Logo após os ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, quando manifestantes golpistas depredaram as sedes dos Três Poderes em reação à vitória de Lula (PT), Flávio tentou desvincular o pai dos atentados, em mensagem enviada a senadores e em discurso no Senado. Na CPI mista do 8 de Janeiro, comparou com o Holocausto as prisões dos condenados pelo STF, dizendo que foram feitas em "moldes nazistas". Também endossou a tese bolsonarista nunca comprovada de que o governo Lula deixou os ataques acontecerem.
Fl�vio Bolsonaro se alinhou ao pai e reproduziu narrativas em momentos cr�ticos; relembre
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