Fl�vio Bolsonaro perde votos em 585 cidades do Nordeste com bases desmobilizadas

Fl�vio Bolsonaro perde votos em 585 cidades do Nordeste com bases desmobilizadas

Foi uma virada de 180 graus. A quatro dias do segundo turno, Ludmila Amorim (MDB) deixou para trás o adesivo com o número 22, que usou durante todo o primeiro turno da campanha, e colou na camisa o de número 13. Prefeita de Rafael Godeiro, cidade de 2.900 habitantes do sertão potiguar, ela votou em Álvaro Dias (PL) para o governo do Rio Grande do Norte e em Flávio Bolsonaro (PL) para presidente na primeira rodada. Na segunda, passou a apoiar Cadu de Lula (PT) para governador, sem falar publicamente sobre a eleição presidencial. O eleitorado também mudou de rumo. Entre os dois turnos, a vantagem de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro cresceu 20 pontos percentuais na cidade. O candidato do PL perdeu 280 votos entre as duas votações: escolhido por 1.268 eleitores no primeiro turno, teve 988 no segundo. Ao todo, Flávio terminou o segundo turno das eleições presidenciais com menos votos do que teve no primeiro em 1 de cada 3 cidades do Nordeste —a votação caiu em 585 dos 1.794 municípios da região. Em um recorte mais amplo, que considera o percentual de votos válidos, Flávio perdeu participação em 1.197 municípios, ou dois terços do total. Esse cenário inclui capitais como Salvador, Natal e Aracaju. Os dados contrastam com o desempenho de Lula, que ampliou sua margem sobre Flávio em 1.771 municípios nordestinos, cerca de 98,7% do total. Esse percentual é próximo ao avanço em todas as cidades do país, que foi de 96,7%. Luciana Santana, professora da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), afirma que o avanço da vantagem de Lula sobre Flávio no Nordeste é resultado da identificação histórica da região com o petista, da mobilização para o comparecimento e da maior capacidade do presidente de conquistar novos eleitores. "A campanha digital, o contato presencial e a atuação de lideranças locais podem ter contribuído para isso", diz a cientista política. O resultado também indica uma menor mobilização da direita após o primeiro turno, quando foram eleitos deputados, senadores e governadores de oito estados da região. Os piseiros e carreatas que marcaram a campanha ficaram mais restritos às grandes cidades na etapa final da disputa. O único estado do Nordeste que teve segundo turno para o governo foi o Rio Grande do Norte, mas sem refletir a polarização nacional. No primeiro turno, Allyson Bezerra (União Brasil) saiu na frente por margem estreita contra Cadu de Lula (PT), enquanto o bolsonarista Álvaro Dias ficou em terceiro. No novo embate, o petista saiu vencedor. O espólio do PL se dividiu no segundo turno. A ala mais ideológica apoiou Allyson, que permaneceu neutro na eleição presidencial. Os mais pragmáticos escolheram o petista, criando um movimento de votos que ficou conhecido como Cadunaro, que reuniu eleitores que votaram em Cadu e Flávio Bolsonaro. Com o bolsonarismo fora do segundo turno local, Lula ampliou sua vantagem em todas as cidades do estado, que é base eleitoral do senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio. Das 5 cidades onde Lula mais cresceu, 4 são do Rio Grande do Norte: Rafael Godeiro, São Tomé, Lajes Pintadas e Espírito Santo. Em 3 delas, os prefeitos apoiaram Flávio, mas sem efeito sobre o eleitorado no segundo turno. As cidades em que Lula mais cresceu na região têm um perfil semelhante: são municípios com a economia baseada no pequeno comércio e na agricultura de subsistência, além de dependência de recursos federais. Em Rafael Godeiro, por exemplo, cerca de 40% da população é atendida pelo Bolsa Família. O estado que reúne mais cidades onde Flávio perdeu votos é o Maranhão. Lá, o senador teve uma votação inferior à do primeiro turno em 171 dos 217 municípios, 8 em cada 10. O governador eleito Eduardo Braide (PSD) foi cortejado por bolsonaristas, mas se manteve neutro no segundo turno. Flávio também perdeu votos em 72,5% dos municípios de Alagoas. No Piauí, a proporção foi de 49,1%, no Rio Grande do Norte, 46,7%. Na Bahia, o apoio do candidato derrotado ao governo ACM Neto (União Brasil) ajudou a travar as perdas, e Flávio teve menos votos que no primeiro turno em apenas dez cidades. Em Salvador, o senador teve uma leve queda proporcionalmente, mas Lula cresceu oito pontos percentuais. Lula virou a eleição sobre Flávio no segundo turno em 10 cidades nordestinas, sendo que 7 delas ficam em Alagoas. São redutos do ex-presidente da Câmara e senador eleito Arthur Lira (PP), que apoiou Flávio. Foi o caso de Barra de São Miguel, cidade governada por Henrique Alves (PP). Ele foi eleito em 2024 como vice de Benedito de Lira, pai de Arthur, que morreu em janeiro de 2025 dias após a posse. Flávio teve 48,98% no primeiro turno ante 45,74% de Lula. Três semanas depois, o cenário na cidade se inverteu: o petista teve 52,05% contra 47,95% do adversário. Nas redes, o prefeito anunciou apoio ao candidato do PL, mas não há registro de atos de campanha no segundo turno. Em Teotônio Vilela, governada pelo primo de Lira, Peu Pereira (PP), Lula já havia ganhado no primeiro turno a despeito do apoio do prefeito a Flávio. No segundo turno, sem o impacto das disputas locais na cidade, Lula ampliou a vantagem em dez pontos percentuais. Um dos casos mais insólitos aconteceu em São Miguel dos Campos. O prefeito George Clemente (MDB) apoiou Lula no primeiro turno, mas viu Flávio sair com mais votos na cidade. No segundo turno, ele virou a casaca e apoiou o candidato do PL, mas Lula acabou prevalecendo nas urnas da cidade. "A influência de uma liderança local não equivale ao controle do voto presidencial. Redes políticas podem ser eficientes para eleger seus representantes e, ao mesmo tempo, encontrar limites para transferir apoio a uma candidatura nacional", pondera Luciana Santana. Lula venceu nos nove estados nordestinos e recebeu 69,37% dos votos válidos da região no segundo turno, contra 30,63% de Flávio. O presidente perdeu votos comparado ao próprio desempenho no primeiro turno em 19 cidades da região. Percentualmente, o presidente teve um desempenho pior em apenas quatro municípios: Belo Monte (AL), Santo Antônio de Lisboa (PI), Caldeirão Grande (BA) e Nova Ibiá (BA).

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