O Sete de Setembro é festa patriótica, mas qual pátria se celebra varia com o governante. Em 2020, Jair Bolsonaro teve seu dia da pátria pandêmica. Foi feriado atípico entre dias apocalípticos: ruas vazias de gente, casas lotadas de medo. Apenas a Covid fez festa servindo luto. A praga abreviou a comemoração no Alvorada. Faltaram povo e distanciamento social. Ministros e governadores aliados (lá estava Ronaldo Caiado) cantaram o hino e muitos dispensaram a máscara, qual o líder, que fazia pouco da "gripezinha". Cancelou-se o desfile das Forças Armadas, mas a fala presidencial em cadeia de rádio e TV teve cara de pronunciamento da ditadura militar: "A sombra do comunismo nos ameaçou". Bolsonaro se assombrava com esse fantasma e ignorava 126 mil mortos, sobre os quais diria ("não sou coveiro") e faria (a mímica da aflição pela falta de oxigênio) coisas que presidente não diz nem faz. Sua nação era darwinista, a dos sobreviventes. Seu último Sete foi no bicentenário da Independência. Em Brasília, de manhã, o presidente recebeu a ansiada continência das Forças na parada. O candidato, à tarde, discursou em Copacabana, a bordo de motociata. Ato por sua reeleição lotou a Paulista e se repetiu em 21 capitais. Tudo amarelo. Era uma nação partidarizada. Como sudários, toalhas estampavam o rosto do "mito" enquanto o opositor era reduzido a um boneco de "presidiário". Tremulavam faixas contra o STF e as urnas eletrônicas e pelo "acionamento das Forças Armadas". Bolsonaro definiu sua nação como religiosa ("somos uma pátria majoritariamente cristã") e intolerante —"esse tipo de gente [Lula] tem que ser extirpada da vida pública". Na ocasião, Lula também reivindicou o patriotismo: "Tenho fé que o Brasil irá reconquistar sua bandeira". Sua reconquista da Presidência requisitou mais que reza. A democracia sofreu em 2023 o maior ataque desde o fim da ditadura. O bolsonarismo se proclamou nação insurgente e tentou o golpe de Estado. O Sete oficial do governo petista foi, por isso, sóbrio, sob o lema: "Democracia, soberania e união". Pátria democrática e não revanchista —até porque os golpistas estavam presos. Neste 2026, o Sete é vizinho das urnas e os lados disputam o voto, o STF e a nação. O desfile oficial separou presidente e candidato, mas escancarou a agenda: contra a violência de gênero, pela soberania nacional. Uma nação igualitária e altiva: "Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém", discursou Lula. Outra nação se apresentou na Paulista. Flávio B. fez dancinha, entre cavaleiros medievais, senhoras em verde e amarelo e indefectíveis infláveis. Lá estava o boneco de Lula com uniforme prisional e uma gigante biruta do ídolo hiperbólico. O norte-americano em cartazes e bonés "Trump 2028", a enorme bandeira dos Estados Unidos e os símbolos de Israel deixavam incerta qual era afinal a nação celebrada. Em todos esses Setes, o sentido de "pátria" esteve em jogo. Em sua aparição, o bolsonarismo se apropriou do patriotismo. A esquerda respondeu sacudindo o orgulho nacional contra a subserviência a Donald Trump. Mas esse nacionalismo ufanista que serviu no passado ficou fraco para enfrentar o amálgama simbólico da direita contemporânea. Seu fulcro é um patriotismo, mas não mais um nacionalismo. As cores nacionais são um entre muitos emblemas de costumes conservadores e desprezo pelas instituições democráticas. Eduardo e Flávio Bolsonaro encarnam essa modalidade de pátria, um conservadorismo sem fronteiras, liderado por Trump ou qualquer similar de mesma agenda. Negam o lesa-pátria porque almejam uma grande pátria transnacional, afinal tão internacionalistas como os "comunistas". Mas, enquanto o comunismo visava abolir a família, esse patriotismo ao mesmo tempo a restringe e a dilata. Na nação familista não cabe todo o mundo, mas todo admitido se converte —como disse Flávio B. a Daniel Vorcaro, não em um 7, mas em um 8 de setembro— em irmão. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Fl�vio Bolsonaro almeja grande p�tria transnacional liderada por Trump
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