Quando penso em vidas extraordinárias, o primeiro nome que me vem é o de Flora Irajá. Flora é uma prima distante, mas passei a infância convivendo com ela quando ia de férias para o interior e ela vinha da fazenda vizinha visitar. Flora tinha, e ainda tem, o cabelo mais preto e liso que já vi, na altura da cintura, e, ao contrário de todos ali que usavam roupas de campo, Flora vestia calças de couro, tops de pedraria, salto agulha. No meu repertório infantil, Flora era, e ainda é, um acontecimento, uma mistura de Pocahontas com estrela de rock. Inara, sua mãe, era compositora e conheceu seu pai, Fausto, apresentador de TV, nos corredores de uma rádio carioca. Casaram-se e tiveram Flora e Nani. Aos 4 anos, numa viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro, o carro da família bateu contra um caminhão de boi e, segundos depois, num inflamável. A família foi declarada morta. Mas na primeira batida o corpo de Flora foi atirado numa moita, e a cestinha com Nani, ainda bebê, jogada para baixo do carro. Oito horas depois, Flora acordou, engatinhou, e um dentista que passava a viu chamando o nome do irmão. Ele guardou a língua de Flora, que estava pendurada na boca, e levou-os para o hospital. Depois de dois meses em coma, as crianças vingaram. Entre o avô paterno e as tias maternas, o juiz decidiu que era melhor que ficassem com o avô, um homem mais próspero. Numa casa de quatro andares no Cosme Velho, Flora foi criada por Hernani de Irajá, pintor e sexólogo brasileiro, que tinha entre seus pacientes o lendário Madame Satã. Um homem fenomenal e ocupado, que via os netos uma hora por dia, das 18h às 19h no quarto andar da casa. "Era uma hora só, mas era uma hora plena." Pergunto se ela se sentia órfã e ela conta que na escola as crianças diziam que ela não tinha nenhum dente porque não tinha mãe para cuidar. Flora não se abalava, cuidava de si e do irmão. Aos oito anos o avô morreu e as tias vieram morar na casa do Cosme Velho. Flora não foi no enterro, mas lembra de uma enorme fogueira com pessoas queimando os papéis do avô. A vida seguiu, a adolescência foi feliz e, na época, ela já adorava se vestir diferente de todo mundo. Na altura do acidente, seu primo Edgardo foi visitá-la. Os adultos diziam que ela tinha caído numa piscina vazia, e foi ele, então com seis anos, quem contou a verdade para menina de quatro. "Você tá assim porque sofreu um acidente de carro, sua família morreu e um dia nós vamos casar." Ela se lembra disso, ao contrário do acidente, do qual não lembra nada. Por anos ele telefonou para saber dela, aos 19 namoraram, ela engravidou e casaram. Os bens que tinham ficado na tutela de um tio estavam dilapidados e eles começaram a plantar milho sem adubo. O milho veio aos montes, junto com a sensação de que "Deus existe" e a quitação das dívidas. Quando Letícia nasceu, Flora notou que ela não tinha tônus. O diagnóstico foi síndrome de Caffey, mas nunca se soube ao certo. Mesmo com DIU e pílula, pouco depois, Flora engravidou de Camila, que nasceu com mesma síndrome. Eram meninas inteligentes, mas que não se desenvolviam fisicamente. Com o tratamento de cortisona melhoraram, mas morreram poucos anos depois. No enterro de Camila, Flora já estava grávida do terceiro filho, dessa vez tomando a famosa pílula Microvlar, anticoncepcional à base de farinha. Angustiada, fez um pedido para Santa Clara: se em 30 dias um homem forte, que não fosse seu marido, lhe desse uma rosa vermelha, ela saberia que seu filho ia nascer perfeito. Um mês depois, cinco minutos antes da meia-noite, ao ir embora de uma fazenda, o anfitrião correu na porteira ao lado do roseiral e, entre rosas amarelas e brancas, catou uma vermelha e entregou à Flora. Aos prantos, ela soube que ia dar tudo certo. Degas nasceu perfeito e a vida seguiu. Anos depois, Flora e Edgardo se separaram, mas continuam amigos. Ela se casou com Samuel e hoje trabalha nas redes sociais, onde fala sobre moda e vida. Se sente realizada, porque sabe que ajuda outras mulheres. Pergunto como ela conseguiu passar por tudo isso e ela me diz que não teve escolha, que foi com coragem. "Ser feliz é competência", ela arremata.
Flora Iraj� transforma trag�dias familiares em uma vida de coragem: 'Ser feliz � compet�ncia'
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