Fim da 6x1 eleva produtividade, e regime por hora pode ser complemento, diz CEO de rede de supermercados

Fim da 6x1 eleva produtividade, e regime por hora pode ser complemento, diz CEO de rede de supermercados

Brasília O CEO da rede de supermercados Savegnago, Chalim Savegnago, disse ao C-Level Entrevista, da Folha, que adotar a escala 5x2 deixou os funcionários mais felizes, aumentou a produtividade e não reduziu a lucratividade da rede. No entanto, o grupo ainda não observou melhora nas taxas de rotatividade e absenteísmo, que são as faltas justificadas e injustificadas. Savegnago defende o regime de trabalho por hora como um possível complemento ao quadro de funcionários, mas diz que a redução da jornada semanal aprovada este mês pelo Congresso pode ser compensada pela redução no horário de funcionamento das lojas. Chalim Savegnago, CEO da rede de supermercados Savegnago, em entrevista ao programa C-Level da Folha - Gabriel Lontra /Estúdio 3 LADOS "Nossos clientes também vão trabalhar duas horas a menos por semana. Eles vão ter mais tempo disponível também para fazer suas compras no comércio, então eu não preciso ficar tanto mais tempo aberto." Na rede Savegnago, o modelo 5x2 manteve as 44 horas semanais, que foram redistribuídas entre os dias de trabalho, de acordo com o CEO. O Savegnago é a 5ª maior rede de supermercados de São Paulo e a 17ª rede do Brasil, segundo ranking da Associação Brasileira de Supermercados. O Savegnago implementou a escala 5x2 em janeiro, portanto bem antes da aprovação do Senado. Quais efeitos observaram até agora? Vimos a necessidade de iniciar a 5x2 para atrair mais candidatos. Estávamos próximos de inaugurar uma loja na cidade de Indaiatuba [interior de São Paulo] e tínhamos bastante dificuldade de trazer os candidatos. Com a escala 5x2, conseguimos completar as vagas mais rapidamente do que antes. Vimos que funcionários estavam gostando e conseguimos nos adaptar muito bem. A partir de janeiro, colocamos em todas as nossas lojas do varejo. E na questão do turnover [rotatividade], que a gente achava que teria uma melhoria, ainda não conseguimos sentir. Continua um pouco alta. Nós também tivemos redução no gasto com vale-transporte e vale-alimentação. Agora virou lei, não tem mais como voltar, mas estamos felizes com esse projeto. Como foi a mudança de escala na prática? Na jornada 6x1, o funcionário trabalhava 7 horas e 20 minutos. Quando viemos para 5x2, ele começou a fazer 8 horas e 48 minutos. Nós só precisamos fazer uma pequena redução no horário de funcionamento no domingo, para fechar às 18 horas. Também reduzimos o horário de almoço, de 1 hora e 50 minutos para 1 hora e 10 minutos. Como ficou a produtividade? Melhorou a produtividade, porque eles têm dois dias de descanso na semana. Ele está mais descansado, mais disposto. A PEC prevê ainda uma redução da jornada semanal, que cairá para 40 horas a partir de 2028. Qual é o plano para atender a essa mudança? O nosso esforço junto ao nosso setor supermercadista é que a gente faça mais uma pequena redução [do horário de funcionamento]. Considerando que todos os nossos clientes também vão trabalhar duas horas a menos por semana e depois vão trabalhar quatro horas a menos, eles vão ter mais tempo disponível para fazer suas compras no comércio. Se eles têm mais tempo disponível, eu não preciso ficar tanto mais tempo aberto. Também posso fazer minha redução. Nessa primeira etapa de redução da escala, perceberam aumento de custo ou a rentabilidade do negócio ficou igual? Como a jornada ainda era 44 horas semanais, nós só fizemos processo de escala. Não teve oneração nenhuma na folha até esse momento. Quando tem a redução de jornada, se eu não reduzir o meu tempo de loja aberta, vou ter que repor as pessoas. Nisso, eu aumento meu custo operacional, não só pelo horário, mas por ter mais gente trabalhando. Significa também mais vale-transporte, mais alimentação, aumenta o custo do plano de saúde, que eu pago 50% para os funcionários. Se nós não fizermos nada em termos de mudança de horário [de funcionamento], vamos ter uma oneração de 17% na nossa folha de pagamento. Então, estamos fazendo todos os esforços para diminuir esse impacto e não ter que repassar nos preços. Grande parte do setor era contra a mudança. O setor superestimou o custo do fim da escala 6x1? Se não fizer nada, o custo vai acontecer, é real. Se você diminui de 44 horas para 40 horas e continua no mesmo horário de abertura e de fechamento, tem que pôr mais gente. Pôr mais gente vai custar mais mesmo, é uma realidade. Agora, a proposta do Savegnago é que a gente também reduza o tempo de porta aberta das lojas para diminuir esse impacto no custo e não ter repasse para os preços. O Congresso ainda não descartou a proposta de emenda constitucional que libera o regime de horas por meio de acordo individual. Seria benéfico ao setor? Eu avalio que dá liberdade para as pessoas, o estudante, por exemplo, que quer fazer um complemento de renda, poderia trabalhar 3 ou 4 horas no comércio. Pode ser um misto, ter regime CLT com a escala 5x2 e uma porcentagem da minha equipe eu poderia contratar de horista para complemento. Como funcionaria na prática? O empregador definiria semana a semana qual vai ser a jornada daquele funcionário? Na prática, eu acho que os dois têm que ter um entendimento. Não pode ter uma vulnerabilidade da pessoa achar que vai vir trabalhar amanhã e [o patrão] fala: "amanhã você não precisa vir não, que eu não preciso de você" Vamos dizer que eu vou fazer uma contratação, a pessoa fala: "eu tenho disponibilidade de vir de segunda, quarta e sexta no período da tarde". Fazemos um contrato de trabalho, ele vai trabalhar 4 horas à tarde. Eu sei que ele vem e ele sabe que eu vou receber ele. Não pode ele chegar para trabalhar de manhã, e eu falo: "não, hoje eu não preciso de você, pode voltar para casa". Ele tem que saber os dias que tem o compromisso, e eu tenho que saber os dias que ele tá vindo. A CLT não determina um limite mínimo de jornada. É a convenção que limita essa escala diferenciada com menos horas? Entre CLT e convenção, tem muitas divergências. Poderíamos estar trabalhando com horistas, que muito país tem isso, de não ter jornada de trabalho, receber por horas trabalhadas. E aí faz um acordo. Quem pode, trabalha mais, e recebe as folgas conforme queira. Mesmo no 5x2, tem pessoas que falam que prefeririam trabalhar. A remuneração por hora pode afetar a rotatividade? Quanto mais a gente sentar na mesa com funcionário e fazer o acordo com ele, mais a gente diminui atrito. Quanto mais diminui o atrito, melhora a permanência dele dentro da empresa. Acho que funciona melhor se tiver liberdade de escolha de decisão entre o empregado e empregador. Mas não adianta discutirmos isso, o que nós temos é uma lei, já aprovada. O resto é só especulação. O Senado pode fazer algumas emendas para que a gente tenha alguma flexibilidade para repor nosso quadro com horista. Mas se eu estou convicto que vou arrumar todas as pessoas que eu preciso, e que isso vai dar certo? Não estou. Mas vamos testar. O lucro da empresa se manteve com o fim da 6x1? Não. Tivemos ganhos. Um pouco, que não é muito significativo, foi no vale-transporte. Se [funcionário] vem um dia a menos, eu economizo no vale e na refeição. Tivemos um índice de redução de acidentes de trânsito, entre vindas e idas para o trabalho. Foi um benefício. O que não conseguimos ainda, que a gente acreditava que melhoraria, foi [reduzir] o absenteísmo. Estamos trabalhando para isso. A partir do dia 16 de dezembro, quando passa a ser lei a escala 5x2, se o funcionário perder um dia de trabalho, ele vai perder esse dia e mais dois de descanso semanal. Então vai pesar no holerite.Quais os relatos dos funcionários sobre esse modelo? Estão felizes. Um indicador importante é que tem mais gente querendo trabalhar para nós. Nos depoimentos na loja, [funcionários dizem que] têm mais tempo para ficar com a família, curtir os filhos. Os relatos são muito prazerosos. Temos PLR [Participação nos Lucros e Resultados], que distribuímos 25% do resultado líquido para toda a equipe. Estamos fazendo refeição para os funcionários. Está muito claro para nossa equipe essa preocupação, visto que já saímos na frente, que a escala 5x2 é um exemplo de que nós olhamos para o funcionário. Não ficamos reclamando. O sr. mencionou a expectativa de que o Senado ainda acolha uma flexibilização para o setor. Já existe uma conversa iniciada sobre a regulamentação? Na Abras [Associação Brasileira de Supermercados], tem uma pasta com uma lista de reivindicações para nosso setor. Qual que vai ser o êxito eu não sei mensurar. O setor supermercadista emprega muita gente, é uma porta de entrada para o trabalho. Trabalhamos com muitos produtos perecíveis, que não dá para fechar a loja. Queremos também ser vistos por isso. O endividamento das famílias bateu recordes neste ano. Como isso tem impactado no negócio? É uma preocupação grande, porque os juros estão muito altos. Tira dinheiro do consumo, da família, tira poder de compra. Isso foi também acelerado e alavancado com as bets. Cria um impacto na população muito grande. Eu responsabilizo a bet por uma grande parte desse endividamento, que arrastou a população brasileira para um buraco. Os juros elevados têm impactado as finanças da empresa? Somos uma empresa com endividamento zero. Mas quem precisa de dinheiro de banco para crescer, comprar equipamento, frota, construir prédio é inviável. [O banco] se torna o sócio majoritário dentro da empresa rapidinho. Os juros estão prejudicando o Brasil. Como estão os planos de expansão da rede Savegnago? Começamos aqui em Sertãozinho, na região de Ribeirão Preto. Depois, fomos para a região central do estado, em Araraquara, São Carlos, Araras. Depois, para Campinas. Estamos ainda trabalhando nessa região, que é grande. Ficaremos focados em nossa rede no interior de São Paulo. Em 2022, entramos com uma nova bandeira, do Paulistão Atacadista, já com 13 lojas. Nosso esforço é para fortalecermos nas cidades em que já estamos. RAIO-X | SEBASTIÃO "CHALIM" EDSON SAVEGNAGO, 67 Presidente-executivo do grupo Savegnago, que conta com 64 lojas de varejo e 13 de atacarejo. Nascido em Pontal, no interior de SP, é filho do fundador da rede, que iniciou em Sertãozinho (SP) com seis funcionários. Hoje, a rede conta com 14,3 mil empregados.

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