Filme 'Nosso Segredo' faz da dor cotidiana um evento cinematogr�fico

Filme 'Nosso Segredo' faz da dor cotidiana um evento cinematogr�fico

Depois de receber do passageiro, interpretado pelo músico Mateus Aleluia, um CD com músicas gravadas e um enigma —"o que você tem esquecido na rua?"—, o motorista de aplicativo Gilson, papel de Robert Frank, dirige de volta para casa, numa Belo Horizonte de fim de tarde. Ao fazer a curva, percebe que um caminhão de lixo interrompe o trânsito. Coloca então o CD para tocar. Nessa sequência, que Grace Passô escolheu para a abertura de seu primeiro longa-metragem como diretora, a espera dura tempo suficiente para que o homem ao volante sorria para os garis, pendurados no caminhão. Junto com a montagem, a voz de Geraldo Azevedo, na trilha sonora, convida a reparar em pequenas belezas que vão surgindo no trajeto, como o alaranjado do céu que rima com a cor dos macacões dos lixeiros. O filme "Nosso Segredo" acompanha a vida de uma família negra, no período que se segue à morte do pai. Uma mãe, quatro filhos, uma tia, uma vizinha e a tristeza palpável do luto, que cada um encobre como pode. O caçula, Tutu, de nove anos —com interpretação formidável de Efraim Santos—, se faz de doente, não quer ir para a escola. O adolescente Guto, vivido por Flip, emenda baladas e picha muros –provavelmente de sua autoria, a frase "para sempre, nem o pixo" estampa o portão da casa onde moram. Grazi, vivida por Jéssica Gaspar, trabalha silenciosa ao computador, ouve música e dispensa o namorado. Gilson, o mais velho, passa o dia dirigindo e, quando chega em casa, tenta colocar tudo em ordem e tem sonhos estranhos. A estranheza, porém, não se restringe aos pesadelos. Uma gosma lamacenta escorre pela parede da sala, e ninguém toca no assunto, até que a situação se torna insustentável. Com uma trajetória consagrada como atriz, dramaturga e diretora, no teatro, no cinema e na televisão, Passô reafirma, com "Nosso Segredo", a força e a singularidade de seu olhar. "Vaga Carne", espetáculo teatral de 2017, lançado como média-metragem em 2019, já trazia algo que "Nosso Segredo" reitera. Há uma combinação única de humor, tragédia e estranheza que, em meio a silêncios e lacunas da narrativa, dá espaço para que os tempos mortos, em que aparentemente a narrativa não avança, ganhem densidade e intensidade. Nessas pausas, o corpo do ator –e da atriz– atinge seu potencial máximo de expressão. Como não se emocionar quando Jéssica Gaspar canta, quase no fim do filme, depois de tudo o que a família viveu? Ou quando o corpo nu de um homem adulto, do porte de Robert Frank, se encolhe sobre uma manta de criança? Passados cem minutos de filme, o segredo deles, tão lógico quanto fantasioso, torna-se também nosso. Há, sim, pontas soltas no roteiro, e nem todos os enigmas são resolvidos. Isso não diminui o feito do longa. É um acontecimento cinematográfico, premiado no Festival de Gramado com os troféus de melhor longa brasileiro, melhor fotografia e melhor direção de arte. Como indica o olhar detido para os garis de Belo Horizonte, que a diretora de fotografia Wilssa Esser filma com maestria, "Nosso Segredo" chama atenção para a beleza de gestos que, de tão banais, poderiam passar despercebidos. Com o filme, Passô explicita sua postura de trabalho e faz poesia a partir daquilo que em geral se descarta.

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