O longo documentário sobre Jorge Luis Borges, dirigido por Mariano Llinás, com cerca de cinco horas e meia, surge da encomenda de uma fundação nos Estados Unidos. Uma encomenda devastadora, como adivinha o cineasta logo no início, tal sua extensão. Ao mesmo tempo, isso será visto por ele como uma limitação, embora a fundação seja detentora de uma enorme coleção de objetos, manuscritos e tudo mais do escritor. Para essa tarefa, Llinás se debruçará no acervo na companhia do estudioso Ernesto Montequín. Conforme enfatiza o cineasta, Montequín é o Sherlock Holmes da história, enquanto ele é o doutor Watson. Não é fácil fazer um filme sobre um escritor que viveu para a escrita e é um dos grandes inventores da literatura no século 20. Borges é todo mental. E parte da biografia filmada terá de buscar nos escritos, correções e revisões algo do seu segredo. Há textos que somem e reaparecem, conforme a edição, mas o essencial é saber o que determinou essas idas e vindas. Como a baliza são os documentos da fundação americana, por vezes a decepção é inevitável. Assim, uma carta do autor Macedonio Fernández a um jovem Borges revela sua profecia de que o rapaz seria o grande nome da literatura argentina no futuro. Os comentários a respeito são quase sumários, quando se sabe da importância do veterano para Borges. Em outros momentos, o filme busca lugares importantes na juventude do escritor. Bruxelas, naturalmente, onde morou com a família no início da Primeira Guerra. Mas também o bordel onde Borges tentou sua primeira aventura sexual —fracassada. Com interesse mais ou menos desigual, o filme não raro envereda para o interesse um tanto fetichista que faz parte da admiração dos fãs por uma personalidade. Assim, traz a observação sobre Paul Auster fotografando o piso de um determinado lugar, dizendo que Borges havia pisado naquele chão. Alguns momentos são interessantes por detalharem algo sobre a vida pessoal do escritor, como o desastroso casamento arranjado pela mãe com Elsa, uma senhora que nada tinha em comum com ele. O objetivo era encontrar alguém que cuidasse do filho quando ela morresse, mas deu tudo errado. E as partes do diário de Elsa lidas por Montequín e Llinás são de amarga crueldade e revelam, indiretamente que seja, algo sobre Borges. Outros momentos lançam hipóteses sobre a obra do escritor. Por exemplo, uma página deixada de lado traz o nome de quatro personagens que, supõem os estudiosos, seriam os heróis do único romance que Borges pensou em escrever. Ele era avesso a essa ideia, diga-se. E o romance nunca foi por diante. No entanto, eis a hipótese —esse grupo de amigos, que luta contra a estranha invasão de uma cidade, não seria a base do grupo que se opõe secretamente a uma invasão em, justamente, "Invasión", o filme de Hugo Santiago, de 1969, escrito em parceria por Borges e Adolfo Bioy Casares? Entre parênteses —Santiago vem de Paris para um depoimento. É uma ótima figura, mas o depoimento é nulo. O essencial da vida mundana de Jorge Luis Borges é o fracasso com as mulheres pelas quais se apaixonou e a amizade com Bioy Casares, que seria o seu parceiro em inúmeros trabalhos —inclusive a criação de Bustos Domecq, o escritor imaginário que assinava seus textos em comum. Um ponto muito discutido é a ascensão de Borges à categoria de celebridade —portanto, de entrevistado. O momento mais hilariante do filme talvez seja a conversa com o repórter que lhe vem perguntar o que acha do tenista argentino Guillermo Villas, então famosíssimo. Borges responde apenas que não tem a menor ideia de quem seja. Não se preocupa com essas coisas. Não vê televisão, nada disso. A entrevista é ótima, apesar do estupor do repórter, ou justamente por isso. Quando ele pergunta a Borges, por fim, o que pensa das pessoas que lotaram um estádio para ver Guillermo Vilas, a resposta é genial. "Neste país nada mais me espanta depois que 9 milhões de pessoas votaram no peronismo." Apesar do humor, esse é o tempo do Borges quase monstruoso, como o define o filme. O Borges que aceita uma homenagem do ditador chileno Augusto Pinochet e, por conta disso, perde o prêmio Nobel. O Borges que elogia os militares, que aceita um convite para almoço de escritores com o ditador Jorge Rafael Videla. O final dessa fase, um ano antes da morte de Borges, é bem digno. Ele assiste a uma sessão do célebre Julgamento das Juntas, retomado pelo filme "Argentina, 1985". Borges não aparece no filme, mas uma foto o mostra numa das primeiras filas, visivelmente transtornado —ou comovido, conforme o olhar. As revelações que ouviu mudaram a posição de Borges. Mas, antes disso, e o filme o mostra com detalhes, um cumprimento de Videla teria sido o estopim da mudança de perspectiva do escritor: o contato com a mão de Videla lhe revelaria um homem grosseiro e primitivo. A revelação de torturas e assassinatos seria apenas uma confirmação. Os últimos anos de Borges lhe reservariam, na Islândia, uma magnífica surpresa —o encontro com Maria Kodama, que a mãe não conhecia, nem recomendava. Foi possivelmente a única vez que Borges contrariou a mãe. Mas o fato é que esses últimos anos longe da solidão foram seus anos mais felizes —é ao menos o que transparece do filme. Apesar dos altos e baixos, suas mais de cinco horas se justificam em boa parte. Falham quando Llinás toma o centro do palco, mas quem já leu Borges na vida não ficará menos encantado por isso.
Filme na Mostra de SP mergulha nos enigmas de Jorge Luis Borges
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