Filme na Mostra de S�o Paulo exp�e as ru�nas sociais da Venezuela

Filme na Mostra de S�o Paulo exp�e as ru�nas sociais da Venezuela

Atração inusitada da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, "A Morte Não Tem Dono", exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, é um filme multinacional, não só pela produção dividida entre Venezuela, Canadá, Itália e Luxemburgo, o que não é incomum, mas pelo jeito de produção de lugar algum. É, contudo, um filme predominantemente venezuelano. Seu diretor, Jorge Thielen Armand, é venezuelano. A ação se passa numa cidade pequena nas proximidades de Caracas. O que dá um ar de lugar nenhum é a inadequação sentida por Caro, personagem de Asia Argento, uma italiana que viaja para lá com o intuito de vender a mansão e a plantação de cacau que recebeu de herança. No entanto, ela logo avisa a um amigo: "Este lugar me traz más recordações". É como se pressentisse o problema que vai encontrar. Ao chegar à mansão, descobre que está ocupada pelos antigos funcionários. Caro passa então a lutar pelo que pensa ter direito, chegando a apelar para a violência. Venezuela, país invadido, representado pela mansão em ruínas. Brasil, país ameaçado de perder sua soberania, ou vê-la enfraquecida. Em 2022, um ótimo filme brasileiro trata basicamente do mesmo assunto —ocupação e pertencimento. Este filme é "Propriedade", de Daniel Bandeira. Nos dois filmes, há violência quando patrões tentam expulsar funcionários pela força. Em ambos, há coragem em dizer que a crueldade está nos dois lados. Nada de empregados bons contra patrões ruins. As coisas tendem a ser mais complicadas que isso, embora uma branca que nada tinha a ver com aquela terra seja insensível o suficiente para passar por cima de quem trabalhou anos na mesma terra. Em "A Morte Não Tem Dono", a atmosfera de horror é constante. São muitos os filmes contemporâneos que margeiam o gênero, sem abraçá-lo por completo. Este poderia ser mais um deles, se a situação não descambasse rapidamente para a violência, como o misterioso prólogo antecipa. Nesse sentido, é interessante a escalação de Asia Argento, filha do grande diretor de horror italiano Dario Argento. No começo, atuando em filmes do pai, Asia exibia pouca naturalidade. Agora, já madura, se tornou uma atriz capaz de inúmeras nuances, necessárias para enriquecer sua personagem. Herdeira e invasora ao mesmo tempo, vítima e opressora, Caro está longe de seu país e, com a recusa dos empregados em sair da mansão, começa a ficar fora de si. Não há solução aparente e a violência surge como um meio de criar vencedores e vencidos. O filme chega ao limite do objeto, não exatamente quando opõe uma mulher preta a uma branca, mas quando mostra as consequências dessa disputa pela mansão e da inversão de uma opressão histórica. A sugestão de violência das primeiras imagens será cumprida em alguns momentos do filme, seja nos delírios, seja numa poça de sangue que forma o mapa do continente africano, num dos achados visuais que Thielen Armand alcança. Cruel e talentoso, "A Morte Não Tem Dono" ousa falar violentamente de coisas a que nos acostumamos a ver sendo tratadas com maior cuidado. Quem entende que os brancos são os mocinhos da história simplifica a trama e ignora as ambiguidades envolvidas. Na verdade, há muitas questões envolvidas —do racismo estrutural ao racismo de fato, da isenção à corrupção, da ilusão de pertencimento à imposição, como também a maneira de se mostrar situações de violência e luta de classes. A principal chave para entender o filme é a situação da Venezuela no momento, com o novo imperialismo que permite que uma nação seja invadida pela outra. Ou seja, o lugar nenhum mencionado no início do texto é, na verdade, o lugar da alegoria. Qual é o sentimento do venezuelano diante de um mundo que parece em ruínas, como a mansão da família de Caro? É o que Thielen Armand pretende mostrar, com imagens fortes e uma direção competente, além de se arriscar bastante ao não recuar diante das possibilidades de agredir o espectador mais sensível com algumas opções da dramaturgia.

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