Já houve filmes sobre a solidão. Em alguns deles basta um plano para descobrir a solidão, o vazio, a depressão de um homem. Há filmes que se passam em vilas de pescadores desoladas como esta. Mas cada um deles consegue transmitir uma ideia de vida, ou de tragédia, de agonia. Precisam para isso de poucos segundos. A opção de "Margeado" é nos colocar diante do nada, do precário da existência, durante 15 minutos em que nada acontece. Houve uma ruptura de barragem, consta. O que resultou disso? O encontro de um mar meio limpo com um rio arquipoluído. É uma coleção de paisagens, às vezes habitadas por pessoas tristes. E depois? Mais ou menos nada. De repente, alguém reclama da vida. Um rapaz em sua moto prepara-se para deixar o lugar. Logo entra em cena uma guia que conta ao casal de turistas uma história razoavelmente sinistra sobre o naufrágio de um navio. O casal desaparece. A senhora que aparentemente conduz a trama está agora em frente à sua casa, à noite. Uma outra senhora se aproxima. Pergunta se ela lembra da árvore que alguém plantou quando morreu a filha com apenas nove meses. A árvore cresceu, está enorme. A dona da casa responde: "Enquanto a gente tiver sangue, a gente há de dar de beber a essa árvore". As duas ficam imóveis. Pensam. Depois de meia hora, aparece na tela o nome do filme. Será então que começa agora? Afinal, o rapaz que foi embora na primeira cena reaparece no lugar com sua moto. Antes de quebrar, a moto anda depressa. Todo o resto anda, move-se, fala e silencia muito lentamente. Alguém morre. Minutos depois, rezadeiras aparecem. Cantando rezas, claro. Quem morreu? O personagem de Antonio Pitanga —quase figurante. Agora nem essa esperança resta. Não! Por sorte, ele reaparece num flashback e monologa. Retorno efêmero. Voltamos ao finado: um sujeito com fala dura e jeito de coronel monologa. Vai embora. Um rapaz aparece na porta do velório e canta enquanto toca um violão. Depois vai embora, andando lentamente. Estamos na metade do filme e um drama se insinua: há uma epidemia e há vacinação. Mas não há vacina para todo mundo. Que fazer? A agente explica que só quem vai para as "áreas de risco" pode receber a vacina. Alguns se apresentam. Mas, prossegue ela, tem que apresentar a comprovação da viagem. Mas quem comprova? Como se comprova? A história da vacina acaba ali mesmo. Passamos adiante. O rapaz da moto, que ia viajar, consegue trabalho numa olaria ali perto mesmo. Ele, junto de um homem com um bigodão, vai até umas cavernas. O do bigode observa que essas cavernas foram formadas há milhões de anos. Não parece espantado com a constatação. Está mais para conformado. Todos estão, de algum modo, conformados. Parece que esse é o efeito mais visível da lama tóxica deixada por uma ruptura de barragem. Esse é, aliás, o ponto de venda do filme. Mas, se a repercussão de rupturas criminosas de barragens fosse apenas essa tristeza infanto-metafísica, as coisas iriam bem. Estamos quase no final. O bigodudo reaparece. Agora está em casa, com sua mulher. Falam em árabe. São libaneses. Pouco depois saem os dois, sobem um pequeno morro e contemplam a paisagem. Não há muito a ver de animador, mas chegamos ao fim. Isso é o que pude ver no filme. Talvez haja algo para além da minha compreensão. Mas, francamente, não cheguei a entender por que ele existe, o que pretende, com quem conversa. Foi exibido na sessão Aurora do Festival de Tiradentes, no ano passado. Se esta é a aurora, penso no que seria o crepúsculo dessa geração de cineastas.
Filme 'Margeado' fracassa ao ler trag�dia de ruptura de barragem
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.