Estreia nesta quinta-feira (8) às 20h45 no cinema Estação Claro Gávea, Rio de Janeiro, o documentário "Vozes na Sua Cabeça", de Douglas Duarte. O tema não são delírios psicóticos, mas a ampliação da consciência e o potencial terapêutico de substâncias como a N,N-dimetiltriptamina (DMT) da ayahuasca e da jurema-preta, dois legados de povos indígenas da amazônia e da caatinga, respectivamente, que estão na vanguarda da pesquisa científica nacional. Duarte se converteu à psiconáutica após uma experiência lisérgica transformadora 14 anos atrás. Diz que não fez um "filme de catequese", mas sua contribuição para levantar o véu de preconceito que ainda cerca essas substâncias, mas não podem mais permanecer "coisa de polícia". Neste momento político em que o país mergulha na escuridão, vem a calhar exibir o que há de melhor e mais esperançoso na civilização brasileira, sob risco de desaparecimento sob o tsunami obscurantista. Nunca é demais rever ou vir a conhecer a contribuição ímpar que podemos dar à saúde mental, se não nos limitarmos a macaquear a iminente liberação de drogas psicodélicas nos EUA num quadro de domesticação farmacológica conservadora, de direita mesmo. O material de divulgação apresenta a fita assim: "Oito brasileiros, uma pergunta: como os psicodélicos mudaram suas vidas?" Um grande mérito está na diversidade do octeto, que mescla psiconautas até aqui menos famosos, como Josir, Fran, Rui Mateus e Mark, com figuras de proa na cena psicodélica nacional, como o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, o líder yawanawá Biraci Brasil Nixiwaka, o daimista Alex Polari e o neurocientista Dráulio de Araújo. Em comum eles têm a reverência pela ayahuasca, bebida criada por indígenas da amazônia que combina a DMT da chacrona (Psychotria viridis) e o cipó-mariri, ou jagube (Banisteriopsis caapi), para fazer a substância psicodélica chegar ao cérebro e ali desencadear experiências inefáveis. A mesma DMT se encontra na jurema-preta (Mimosa tenuiflora) dos povos do semiárido nordestino, mas sua miscigenação com rituais afrobrasileiros só aparece de lado no documentário. A fita começa com uma explosão de rochas em área de mineração por Josir, especialista da área "nascido em terreiro", mas não um seguidor dedicado. Na primeira vez que tomou ayahuasca, uma entidade apareceu e lhe disse: "Daqui você não foge mais". Foi como um upgrade na percepção do mundo, descreve, que o levou à conclusão emancipadora: "Esta existência é pouco demais". Segue-se o depoimento de Fran, dona de salão de visagismo que encontrou beleza maior e a própria alma na viagem, durante a qual visitou avós do sertão que, na miração, viviam debaixo de um açude. "Foi meu chá de revelação", brinca. As entrevistas passam então para o terreno das explicações científicas, míticas ou religiosas, com testemunhos de Dartiu, Nishiwaka e Alex. Todos, porém, não deixam de descrever o que lhes aconteceu pessoalmente sob efeito da DMT e depois. A meio caminho fica a fala de Rui, neuropsicólogo que, na "força" da ayahuasca, viu no firmamento caminhos de neon conectando as estrelas e teve a certeza de que iria morrer, mas terminou interpretando seu desespero, a quente, como desamparo natural de um filho dado para adoção. A fase mais didática do documentário se abre com Dráulio, que liderou pesquisa sobre o benefício antidepressivo da DMT. Ele fala da importância de uma droga que, se aprovada, reduz sintomas de imediato e não semanas depois, como no caso de antidepressivos convencionais, por vezes insuficientes para desfazer ideações suicidas. Mas adverte: não é bala de prata, não existe bala de prata neste mundo. O documentário fecha com a questão: por que esse medicamento promissor, usado há séculos ou milênios por povos tradicionais, não está no radar do SUS? Seguem-se imagens da operação policial Psicose (não se perca pelo nome) montada para desmontar a venda hoje ainda ilegal de cogumelos contendo psilocibina –psicodélico que poderá ser aprovado em 2027 para uso médico nos EUA. Lá, a direita deu um cavalo de pau e abraçou a farmacopeia psicodélica a mando de Donald Trump. Há dúvida se seu pau-mandado aqui, caso eleito, terá coragem de consagrar uma medicina de matriz indígena, afrobrasileira e popular que correligionários terrivelmente evangélicos abominam como coisa do demônio. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Filme enra�za psicod�licos em territ�rios do Brasil
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