Agosto, o mês da filantropia negra, convida o Brasil a responder uma pergunta central para qualquer estratégia de investimento social: afinal, para que serve a filantropia? A resposta parece simples: a filantropia existe para reduzir desigualdades. Seu papel é ampliar oportunidades onde foram historicamente negadas, fortalecer organizações de transformação social e financiar soluções que nem Estado, nem mercado alcançam sozinhos. Se esse é o propósito, a lógica dita que, quanto maior for a desigualdade, maior é a prioridade do investimento. Na prática, a realidade é outra. Decisões de financiamento nascem de afinidades, interesses institucionais ou estratégias de reputação. Embora apoiar causas relevantes seja válido, o problema surge quando critérios subjetivos substituem a pergunta fundamental: onde este recurso produzirá maior impacto na redução das desigualdades? Nenhuma política pública séria ignora indicadores. A saúde baseia-se em dados epidemiológicos; a educação acompanha índices de aprendizagem, a assistência social identifica vulnerabilidades. Se essas áreas pautam decisões em evidências, por que a filantropia opera de forma distinta? Proponho o termo "filantropia recreativa": um modelo que prioriza preferências de quem financia em vez de indicadores. Gera iniciativas importantes, mas frequentemente conforta consciências antes de enfrentar estruturas. O Brasil é exemplo dessa contradição. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), negros representam 56% da população e concentram os piores índices de pobreza, desemprego, insegurança alimentar e violência. Ainda assim, esses marcadores raramente ocupam o centro da definição de prioridades no investimento social. O "Panorama dos Incentivos Fiscais 2024", de Simbi e Cedra (Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais), mostra que, entre 2021 e 2024, apenas 3,8% dos projetos da Lei Rouanet focaram em igualdade racial ou valorização de culturas afro-brasileiras e indígenas. Apesar da baixa fatia no volume total, tais projetos captaram R$ 233,8 milhões com taxa de execução de 47,3% —superando a média geral de 43,9%. O estudo "Diagnóstico acerca de filantropia e raça no Brasil", do Fundo Agbara, reforça: organizações negras permanecem subfinanciadas, mesmo na linha de frente do combate às desigualdades. Mas o gargalo reside nos critérios de acesso. Quando projetos de equidade racial têm desempenho superior, mas permanecem como parcela ínfima do universo financiado, a qualidade deixa de ser a dúvida e a falta de prioridade torna-se a certeza. Defender a raça como critério de priorização não significa hierarquizar sofrimentos, mas reconhecer um fato: no Brasil, a desigualdade possui marcadores objetivos, e a raça é um dos mais determinantes. Cada decisão de financiamento comunica uma visão de país. Ao escolher quem apoiar, definimos quais problemas serão enfrentados e quais ficarão à espera. O mês da filantropia negra deve ampliar esse debate, questionando não apenas o volume investido, mas o critério da decisão. Enquanto as preferências dos financiadores pesarem mais do que os indicadores produzidos pela sociedade, continuaremos praticando uma filantropia recreativa: generosa nas intenções, mas insuficiente para as desigualdades que justificam sua existência. O verdadeiro legado da filantropia não será medido pelo volume de recursos, mas pela coragem de direcioná-los exatamente para onde o Brasil mais precisa. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Filantropia sem crit�rio distribui privil�gios, n�o oportunidades
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