Filantropia familiar e family offices s�o uma agenda em constru��o

Filantropia familiar e family offices s�o uma agenda em constru��o

No intervalo do Fórum Fophi Network 2026, duas lideranças de um multifamily office nos procuraram com uma inquietação: famílias atendidas, sobretudo das novas gerações, vinham perguntando mais sobre filantropia. Queriam falar de legado, impacto e propósito, e a equipe percebeu que precisava de conhecimento qualificado. Em outro momento, uma liderança experiente em filantropia familiar nos contou que nunca havia pensado em incluir o tema nas perguntas de boas-vindas de seu family office. Foi ao longo de uma conversa conosco que concluiu que passaria a fazê-lo. "Faz todo sentido." Essas duas cenas dizem muito sobre o momento que o Brasil vive. Quando lançamos, no ano passado, a pesquisa "Filantropia & Family Offices", divulgada com exclusividade por esta Folha, partimos de uma hipótese simples: há uma grande oportunidade para a filantropia familiar de alto patrimônio crescer no país, envolver mais famílias, qualificar decisões e deixar de estar concentrada em poucos grupos já mobilizados. Um dos canais possíveis para isso são os family offices, estruturas que administram patrimônios familiares e vivem crescimento sem precedentes no Brasil. Na semana passada, mais de 80 pessoas participaram do Fórum. Quase um terço vinha de fora de São Paulo. As inscrições, pagas, esgotaram antes do prazo. Trata-se de um sinal relevante de que existe, no Brasil, uma demanda crescente por falar de filantropia familiar com mais profundidade, menos improviso e maior responsabilidade pública. Nesse sentido, o evento reuniu referências internacionais como Nick Tedesco, Jamie Webb, Sebastien Lepinard e Jill Kauffman Johnson. Também contou com vozes brasileiras como Fábio Barbosa, Rodrigo Pipponzi, Marina Feffer, Carola Matarazzo e Flavia Regina Oliveira, entre outras pessoas que vêm ajudando a qualificar essa agenda no país. As discussões deslocaram a conversa do "quanto doar" para perguntas mais profundas: por que doar, quem decide, com quais critérios, ouvindo quem e com que compromisso com desigualdades de raça, gênero, território e renda. Uma das provocações mais fortes veio da filantropia familiar internacional: antes de definir para onde vai o dinheiro, famílias precisam compreender que legado desejam construir, como tomam decisões e quais valores querem colocar em prática. Outra fala resumiu bem o desafio intergeracional: filantropia precisa ser convite, em lugar de obrigação. Quando vira herança moral imposta, pode afastar; quando se torna espaço de aprendizagem, escuta e agência, pode aproximar. O caso de um family office da Califórnia, a NextWorld, trouxe outra provocação importante. A separação rígida entre investimento, patrimônio e filantropia parece cada vez menos suficiente para famílias que desejam alinhar capital, valores e impacto. Capital filantrópico pode assumir riscos que outros capitais evitam, apoiar inovação, fortalecer organizações e abrir caminhos para políticas públicas mais ambiciosas. Para isso, precisa de estratégia, governança, escuta e disposição para aprender com o que funciona e com o que falha. Essa agenda exige cuidado. Family offices devem ser tratados como uma das pontes possíveis, e não como uma mina de ouro para organizações sociais nem como atalho para a crise de financiamento do campo. Muitas organizações da sociedade civil têm nos procurado, o que nos alegra e também aumenta nossa responsabilidade. Porém, essa aproximação precisa ser construída com confiança e clareza de papéis, para que family offices saibam acolher, provocar, conectar ou encaminhar demandas filantrópicas sem substituir especialistas do campo, organizações de base, institutos, fundações ou comunidades que conhecem os problemas por dentro. Por isso neste primeiro ano da Fophi Network, que já reúne family offices de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, escolhemos focar em educação, conhecimento e conexão. Antes de propor soluções, é preciso criar repertório comum, confiança entre pares e exposição ao que há de mais inovador na filantropia familiar no Brasil e no mundo. A filantropia familiar brasileira vive uma oportunidade histórica. Aproveitá-la exigirá mais recursos, melhores perguntas, maior abertura ao campo social, diversidade de famílias envolvidas e disposição para colocar o patrimônio acumulado em um dos países mais desiguais do mundo a serviço de uma agenda pública mais estratégica, colaborativa e comprometida com democracia, territórios e futuro comum. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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