"A dramaticidade dos nossos tempos força os cineastas a fazerem filmes políticos." Foi assim que Alberto Barbera, diretor do 83º Festival de Veneza, inaugurado na manhã desta quarta-feira (2), justificou a forte presença de filmes politizados na programação deste ano. E também foi como deu a entender que a seleção foi feita antes por uma questão de oferta que propriamente por uma posição militante da curadoria. É a postura de um evento que pretende não se implicar diretamente nas discussões atuais sobre a obrigação ou não de a arte ter um aspecto mais socialmente atuante –no último Festival de Berlim, o presidente do júri, Wim Wenders, foi "cancelado" ao tentar separar arte de política. Sabendo que questionamentos semelhantes surgiriam em uma conversa com a imprensa com o júri de seu festival, Barbera chegou a cancelar a coletiva deste ano, e embora tenha alegado conflito de agenda, na boca miúda se falava que ele queria poupar os jurados de algum embaraço. Mas o diretor voltou atrás, e na coletiva da manhã desta quarta, a presidente Maggie Gyllenhaal não fugiu do tema. "Para mim o cinema é sobre empatia. Ele nos permite encontrá-la dentro de nós", disse a atriz. "O cinema é, sim, fundamentalmente e inevitavelmente político, entre outras coisas." O longa escolhido para abrir esta edição combina mais com a posição de Barbera, de botar o dedo na ferida, mas sem pressionar muito forte, que com a visão categórica de Gyllenhaal. Exibido na disputa pelo Leão de Ouro, "Ink", do britânico Danny Boyle, mostra o começo da trajetória do magnata da imprensa australiano Rupert Murdoch, quando adquiriu o tabloide inglês The Sun, em 1969 –em suas mãos, o jornal se tornaria o mais lido do mundo. A expectativa generalizada diante do filme era de que teria mais foco na figura de Murdoch, o empresário que em cinco décadas reuniria em sua possante frota midiática publicações como o The Wall Street Journal e o grupo Fox. E o longa de Boyle até o faz, mas de maneira indireta –o Murdoch vivido por Guy Pearce aparece, mas apenas em momentos-chave da trama. Adaptação da peça homônima de James Graham, que assina o roteiro, o filme não é o retrato dessa personalidade excêntrica e poderosa. Seu centro é a trajetória específica do The Sun desde que o australiano o adquiriu, no fim dos anos 1960, até a década de 1980, quando se tornaria desavergonhadamente um jornal sensacionalista e não raro mais interessado em vender do que em informar. A real trajetória que seguimos é a de Larry Lamb, vivido sem muito brilho por Jack O’Connell, o editor que de fato formatou o The Sun e o fez se tornar um êxito de popularidade, com base em uma operação simples, ouvir o leitor. Ele fez um jornal conectado à visão de mundo e às paixões populares, nem que para isso fosse preciso, muitas vezes, sacrificar o fundamento do jornalismo, a notícia. "Ink" significa tinta, em inglês, mas o som da palavra remete à sigla "inc." —corporação—, e a escolha se revela um jogo vocabular bastante feliz para o título. Afinal, vemos um tempo em que o jornalismo era feito com mais artesanato, usando tinta —na mídia impressa—, mas que também, já ali, tratava-se de um negócio. E Boyle é bem sucedido em mostrar como essa atividade precisa se equilibrar entre um ponto e outro. O diretor, que há décadas parecia meio perdido na carreira, reencontra em "Ink" o tom e o senso de ritmo de seus melhores filmes. Logo no começo, quando Lamb se lança a recrutar seu corpo jornalístico –pessoas talentosas porém frustradas profissionalmente–, a cena remete àquelas em que o trio de "Cova Rasa", de 1994, entrevistam locatários para seu apartamento. E o filme tem nesse início certa vitalidade e uma vibração pop que faz lembrar "Trainspotting", de 1996, seu longa mais cultuado. "Ink" é valoroso ao observar o processo pelo qual um grupo de profissionais relativamente bem intencionados pode passar, entre o período de sonhos de criar algo novo, talvez promissor, e o instante de venda total da própria alma, diante da busca por manter alto o número de leitores. Em parte do tempo, vemos aquela equipe encontrando no fazer do jornal popular um desafio intelectual, de achar maneiras de viabilizar que histórias esdrúxulas pudessem ir parar impressas no papel, mas escoando, camufladamente, algum conteúdo mais sofisticado. Há, ali, uma espécie de inocência e uma crença genuína no jornalismo. Porém, à medida em que o tabloide começa a fazer sucesso, a equipe perde a mão, e Lamb, em especial, se torna obcecado por aumentar as vendas. Sem se dar conta, ultrapassa fronteiras éticas, e dali a estar editando o jornal que se celebrizaria por destruir reputações e contribuir para a idiotização dos leitores, foi apenas um pulo. E o mesmo aconteceu com Murdoch —trilhou com desenvoltura o caminho entre o pequeno empresário que queria só revitalizar um jornal decadente até se tornar o pantagruélico magnata de uma mídia especializada em alastrar ideias reacionárias e criar fake news. Mas durante grande parte do filme, ele apenas se limita a exigir bons resultados nas bancas, sem maiores interferências editoriais. O Murdoch do filme é uma figura por demais imprecisa. Só muito na reta final é que Boyle aponta a mira para ele –mais especificamente em um poderoso, porém tardio, trecho mostrando algumas manchetes do The Sun real, relacionando-as a fatos desanimadores do mundo atual. O mesmo que, segundo Barbera, força os artistas a falarem de política em seus filmes, ainda que nem sempre da forma enfática e direta como muitos de nós esperaríamos.
Festival de Veneza abre com defesa do cinema pol�tico e exibe 'Ink', de Danny Boyle
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