Uma imagem de cartão-postal do Rio de Janeiro, o Pão de Açúcar diante da enseada de Botafogo, abre o filme "Corrida dos Bichos", que estreia no streaming nesta sexta-feira (7). À frente do morro, não é o mar que se estende, mas quilômetros de areia, remanescentes de uma catástrofe natural fictícia. A cena é simbólica da distopia à brasileira proposta pelo longa-metragem, uma das maiores apostas do Amazon Prime Video no mercado nacional. Com orçamento estimado em US$ 5 milhões, cerca de R$ 25 milhões, seu trio de diretores inclui Fernando Meirelles, de "Cidade de Deus", e seu elenco, nomes como Rodrigo Santoro, Seu Jorge, Bruno Gagliasso, Isis Valverde e Grazi Massafera, além de Anitta numa participação especial. A trama se passa em um futuro em que a única via de ascensão social é uma corrida arriscada entre pessoas fantasiadas de animais —uma evolução violenta do jogo do bicho adaptada para a linguagem dos reality shows. O protagonista é contra o passatempo, que deixou o pai afundado em dívidas, mas é forçado a disputá-lo para evitar que a irmã seja escravizada. É quase inevitável não traçar uma analogia entre o jogo do enredo e as bets, grande responsável pelo endividamento dos brasileiros hoje. Mas a história surgiu em 2009, muito antes da legalização das apostas online no país. O roteirista Ernesto Solis afirma que, na época, ele desejava criar uma narrativa em tom de fábula sobre a falência da nossa sociedade, fora do registro de realismo social que predomina no cinema nacional. "É engraçado porque eu não estava muito interessado no futuro, mas no presente. Não imaginava que estaria fazendo uma alegoria tão precisa de 20 anos depois", afirma ele, que também integra o trio de diretores, formado ainda por Rodrigo Pesavento. "A arte imita a vida", intervém Meirelles, acrescentando que o abismo entre ricos e pobres que o filme apresenta também remete à desigualdade crescente entre a população e os milionários e bilionários das big techs. Foram muitas idas e vindas até que "Corrida dos Bichos" saísse do papel. Desde o princípio, porém, o projeto se propunha como um filme de alto orçamento. O valor de cerca de R$ 25 milhões foi revelado pela revista Variety em 2018, época em que os seus produtores foram ao Festival de Cannes buscar investidores e parceiros de distribuição. A título de comparação, "O Agente Secreto", filme de Kleber Mendonça Filho indicado a quatro categorias do Oscar neste ano, custou R$ 28 milhões. A Amazon não respondeu a um pedido de atualização dessa quantia —orçamentos de filmes tendem a variar e a incluir, na reta final, uma soma significativa destinada a ações promocionais. O número de astros no elenco faz jus ao rótulo de superprodução. A começar por Rodrigo Santoro, que desde os anos 2000 mantém uma bem-sucedida carreira no exterior. À reportagem, ele conta que esperava uma oportunidade de trabalhar com Meirelles há nada menos que três décadas. Em 1995, o ator, então com 20 anos, foi escalado para protagonizar uma minissérie da Globo que seria comandada pelo diretor, mas o projeto foi cancelado. Maratonar Um guia com dicas de filmes e séries para assistir no streaming "Fiquei desde então vendo ele trabalhar cada vez mais, fazendo projetos incríveis, mas nunca aconteceu. A gente ficou num flerte", diz o ator, que, hoje aos 50, encarna um vilão com jeito de bicheiro. "Quando finalmente rolou, foi maravilhoso. Espero não ter que esperar mais 30 anos." Os elogios ao cineasta brasileiro com maior projeção em Hollywood hoje, diretor ainda de "O Jardineiro Fiel", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Dois Papas", se repetem entre os demais atores. Dos veteranos Gagliasso e Valverde aos novatos Matheus Abreu, Thainá Duarte e João Guilherme, todos enaltecem a maneira como Meirelles incentiva a criação e o improviso no set de filmagem. Outro aspecto que evidencia a ambição de "Corrida dos Bichos" é o seu design de produção. Pesavento foi convidado para a direção e ficou responsável por comandar as muitas sequências de ação do filme, que incluem tomadas aéreas de saltos entre um prédio e outro e cenas de pancadaria filmadas a nível do chão nas ruas cariocas. Esse apuro técnico convive com a busca por uma representação autêntica da realidade brasileira. O espaço em que os personagens se reúnem para assistir à corrida pela TV é um boteco tipicamente carioca, com as paredes forradas de azulejo, e a geografia da cidade é reconhecível em todas as corridas. Solis, que inicialmente desenvolveu o enredo como uma história em quadrinhos, conta que se incomodava com o predomínio de visões estrangeiras sobre a construção do nosso imaginário sobre o porvir. "Eu achava que a gente tinha que afirmar o nosso direito a falar de futuro do nosso jeito. Por isso peguei a coisa do jogo do bicho, algo culturalmente muito próprio da gente", afirma sobre o passatempo que serve de inspiração para a corrida do título. "É um futuro low-tech. Tudo é gambiarra, bem a cara do Brasil", diz Meirelles. Sua aposta é de que essa visão alternativa do futuro tem boas chances de gerar interesse do público internacional.
Fernando Meirelles faz alegoria �s bets na distopia low-tech 'Corrida dos Bichos'
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