É como se os corpos estivessem carregados de eletricidade. Sobre o palco, eles dão piruetas, fazem acrobacias e saltam de um lado para o outro. A lentidão com que o suor escorre pela testa dos artistas contrasta com o movimento frenético de pés, mãos e quadris. É uma coreografia tão febril e convulsiva quanto o rock oitentista que ressoa pelo cenário. Em cartaz a partir deste sábado (19) no Teatro Sabesp Frei Caneca, na região central da capital paulista, o musical "Feliz Ano Velho" verte em som e movimento a rebeldia de uma juventude ávida por prazer e liberdade. Ao longo do espetáculo, a força anárquica da dança se mistura ao espírito libertário da música. Não por acaso, essa amálgama entre rebeldia e hedonismo permeia o livro de mesmo nome que deu origem ao espetáculo. Escrita por Marcelo Rubens Paiva, colunista da Folha, a obra tem como ponto de partida o acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos. O episódio aconteceu em 1979, quando Paiva pulou no açude de um sítio à beira da rodovia dos Bandeirantes, em Campinas, no interior paulista. Ele bateu a cabeça no fundo do reservatório, quebrou a quinta vértebra cervical e comprimiu a medula. Depois do salto, a vida daquele jovem boêmio e popular deu uma guinada. Embora narre as consequências do acidente, o livro é bem mais do que um relato sobre a tragédia. Ao longo das páginas, o escritor deixou de lado o tom lacrimoso para entregar ao leitor uma narrativa lisérgica carregada de sexo e drogas. Com uma escrita direta e coloquial, ele salpicou o texto com gírias e palavrões, prática pouco usual na literatura da época. Com essa ousadia temática e estilística, o trabalho se firmou como um fenômeno editorial. A estimativa é que tenha vendido mais de 1 milhão de exemplares desde o lançamento, em 1982. O musical tenta reproduzir esse mesmo atrevimento. "O que quisemos trazer para a encenação foi uma nova forma de fazer teatro musical", diz Gustavo Barchilon, diretor do espetáculo. A experimentação cênica, aliás, já estava presente na primeira montagem de outra adaptação para os palcos, que estreou no ano seguinte à publicação do livro na capital paulista. Dirigida por Paulo Betti, com texto de Alcides Nogueira, a produção se tornou célebre ao misturar drama, circo, comédia e romance. Mais de quatro décadas depois, o texto da dramaturga Marilia Toledo almeja atualizar essa inventividade. Para isso, o musical deixou de lado o naturalismo e a ordem cronológica para flertar com o teatro pós-dramático. Formulado pelo crítico e acadêmico alemão Hans-Thies Lehmann, o conceito faz referência a obras que rompem com a linearidade em favor da fragmentação narrativa. Isso se faz sentir já nos primeiros minutos, quando vemos a internação do personagem de Paiva, vivido por Hugo Bonèmer. No hospital, os sedativos lançam o jovem em uma espiral de devaneios. Em meio à suspensão da realidade, o futuro se insinua na narrativa por meio da interpretação de Bruno Garcia, numa versão mais velha do protagonista. O mesmo artista nos conduz ao passado quando encarna o ex-deputado Rubens Paiva, pai do escritor, assassinado pela ditadura militar, em 1971. Outro elemento que rompe com o naturalismo é a presença de câmeras, que, em determinados momentos, refletem a ação em telões. Esse aceno ao fazer cinematográfico também remete a uma atmosfera de preservação da memória. De certa forma, foi isso o que Paiva fez ao registrar em "Feliz Ano Velho" os seus medos, anseios e inquietações. O livro, porém, narra não apenas a vida de um jovem, como de uma geração. Era uma juventude que chegava à vida adulta enquanto a ditadura se aproximava de seus estertores finais. Para quem lutou contra o regime militar, esses jovens eram alienados, apolíticos e consumistas. É a tal geração Coca-Cola de que falava Renato Russo na célebre música do Legião Urbana. Não à toa, a faixa é uma das canções que integram o repertório do musical, ao lado de "O Tempo Não Para", de Cazuza e Arnaldo Brandão, e "Vida Louca Vida", de Lobão e Bernardo Vilhena. O diretor, porém, diz que o espetáculo não está circunscrito aos anos 1980. "Por mais que tenham sido lançadas nessa época, são músicas atemporais." Para evitar essa possível limitação, apostou-se numa cenografia neutra. O principal elemento cênico são as escadas, com as quais o elenco durante as performances. Em alguns momentos, elas remetem a jaulas e a obstáculos que acentuam o imobilismo e o isolamento do escritor. Em outros, são como plataformas para os atores saltarem. "Isso é tudo o que as pessoas não esperam. A peça é sobre uma pessoa que está na cadeira de rodas, mas o trabalho tem muito movimento." Por falar nisso, a escalação de atores não cadeirantes para viver Paiva foi alvo de críticas. Artistas com deficiência afirmaram que a decisão reforça a falta de oportunidades desse grupo. Questionado, o diretor diz que era importante ter no elenco artistas com deficiência. Esses profissionais estão representados por meio de Luciano Mallmann, que é cadeirante, e Sabrina Korgut, que tem baixa mobilidade em uma das mãos—ambos em papéis coadjuvantes. "Mas nenhum deles está limitado a personagens definidos por sua deficiência." Barchilon diz ainda que a linguagem teatral da montagem é muito baseada em aspectos físicos. "É uma dinâmica que exige uma grande movimentação dos protagonistas. Por essa razão, eu escolhi esses dois atores para os papéis principais." Um dos intérpretes do escritor, Hugo Bonèmer afirma que o espetáculo exige dele também um amplo cabedal de emoções. Em uma cena, o ator está tomado pela alegria em uma festa ou pelo prazer durante um encontro romântico. No instante seguinte, esse passado açucarado se dissipa para dar lugar à realidade árida do leito hospitalar. O espetáculo também demanda certa desenvoltura para o humor ácido que permeia o livro. "A gente está fazendo escolhas muito minuciosas de palavra para provocar essa risada, que é de constrangimento, mas também é positiva. Ela traz reflexão e empatia." Boa parte dos diálogos cômicos acontece quando Bruno Garcia entra em cena para viver o escritor em sua fase madura. A partir do embate entre as duas versões do mesmo homem, surgem tiradas corrosivas e mordazes. "Marcelo é um cara que não romantiza as coisas. Ele traz uma situação trágica, mas mantém a autocrítica e o humor", diz Garcia. Falta de romantismo, porém, não quer dizer ausência de utopias. "A peça fala muito sobre as questões que sempre estarão na moda, ou seja, a rebeldia e o desejo por um mundo melhor." Essa verve política ganha força com a atuação de Heloísa Périssé, no papel de Eunice Paiva. Mãe do escritor, a advogada se lançou em uma busca pelo marido depois que ele foi levado de casa por agentes do regime militar. Retratada no filme "Ainda Estou Aqui", essa jornada é recontada também no musical. "Ela já perdeu o marido e está com um filho de 20 anos perguntando se vai voltar a andar", diz Périssé, atriz que construiu uma personagem multidimensional. "Ela deve ser forte, mas, ao mesmo tempo, maternal e acolhedora. Pus a Eunice em uma linha tênue." Com o apoio da mãe, Paiva passou por um longo processo de reabilitação para se adaptar à cadeira de rodas. No espetáculo, a revolta pelo que aconteceu aos poucos dá lugar ao desejo de se reinventar por meio da literatura. É como diz um dos personagens da peça. Andar, afinal, não é a única forma de caminhar.
'Feliz Ano Velho' vira musical que traduz em som e dan�a o atrevimento da juventude
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