Fazenda precisa de Lula 1 e equipe com autonomia

Fazenda precisa de Lula 1 e equipe com autonomia

O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa sob agruras econômicas criadas e acentuadas pelo próprio governo. Após quatro anos em que o equilíbrio orçamentário foi ignorado, o país chegará a 2027 com contas depauperadas, dívida pública em trajetória alarmante e risco de uma recaída recessiva. Sem uma reversão crível desse padrão, o crescimento potencial do PIB continuará limitado, e o controle da inflação exigirá juros elevados por tempo indefinido, com custos exorbitantes para famílias e empresas. Construir uma agenda efetiva de ajuste dependerá de vontade presidencial e de boa articulação com um Congresso mais à direita. A nomeação de um ministro da Fazenda com credibilidade é a primeira etapa, que deveria ser cumprida desde já. As especulações brasilienses para o posto apontam, por ora, para nomes políticos —Rafael Fonteles (PT), governador reeleito do Piauí, e mesmo o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB). Importa menos se o comandante da pasta é técnico ou político, e a história mostra exemplos de sucesso em ambos os casos. Mais relevante é que nenhum ministro será efetivo se não puder contar com a confiança e o apoio explícito do presidente para definir sua agenda e uma equipe qualificada. É o chefe do Executivo, afinal, quem delimita o espaço para as medidas necessárias, ainda que impopulares. Ao mesmo tempo, o presidente da República precisa estar disposto a ouvir a pasta e a considerar recomendações que contrariem preferências imediatistas. Entre os melhores exemplos, Lula escolheu Antonio Palocci em seu primeiro governo e deu ao auxiliar liberdade de ação e o aval necessário para prosseguir em ajustes orçamentários expressivos, acompanhado de um segundo escalão que misturava profissionais de diferentes matizes, até em contraposição ao PT. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) manteve Pedro Malan na Fazenda por oito anos com a combinação de apoio e diálogo aberto. No governo Michel Temer (MDB), Henrique Meirelles e Eduardo Guardia operaram em ambiente semelhante. Já Fernando Haddad, no terceiro mandato de Lula, apesar da relação pessoal de confiança, não contou com a abertura necessária para avançar em medidas de ajuste mais profundas. O presidente foi, na prática, o condutor da política econômica. O padrão das experiências bem-sucedidas é claro. Começa com equipe competente, com visões complementares e certa autonomia para a execução. Bons quadros só serão atraídos se houver perspectiva de respaldo do Planalto —sobretudo no caso de medidas que enfrentarão resistências à esquerda e à direita. É preciso haver um plano claro. Quando o governo carece de visão estratégica de médio e longo prazo, torna-se refém das emergências do momento sem capacidade de obter transformações. editoriais@grupofolha.com.br

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