� fanatismo reivindicar aval divino para projeto de poder pol�tico

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[RESUMO] Embora seja legítimo que religiosos cristãos proponham-se a interferir na arena pública e disputem eleições, submeter os textos sagrados a projetos políticos é o mesmo que desvirtuar as mensagens da Bíblia, comenta teólogo. Para ele, a direita cristã por vezes resvala no fanatismo ao tentar impor sua interpretação como única verdade, no sentido contrário aos ensinamentos de Deus sobre misericórdia e compaixão. Há quem diga que religião nada tem a ver com política. Outros afirmam exatamente o oposto —ou, como bem disse Desmond Tutu, arcebispo anglicano da Cidade do Cabo (África do Sul) e Nobel da Paz, "não existe nada mais político do que dizer que religião não tem nada a ver com política". Uma teoria política aborda conceitos, princípios e argumentos que explicam como o poder deve ser distribuído e exercido na sociedade, qual é a finalidade do Estado, quais direitos e deveres cabem aos indivíduos e quais critérios tornam uma ordem política legítima e justa. O Evangelho tem tudo isso e não sem razão foi definido como "boas notícias a respeito do reino de Deus", o contexto em que a vontade de Deus é feita na terra como no céu. O "reinado de Deus" implica princípios, valores e argumentos que orientam as relações humanas; um jeito de ser gente, ser família, e ser sociedade; um jeito de organizar o trabalho, administrar riquezas e governar uma cidade; um jeito de ocupar da terra, promover justiça social e cuidar das populações em condições de vulnerabilidade, especialmente os empobrecidos, que Jesus chama de pequeninos. É legítimo, portanto, que os religiosos cristãos, de variadas representatividades ideológicas, proponham-se a interferir na arena pública, articulem-se para influenciar a sociedade, reivindiquem participação nas instâncias de governo municipal, estadual e federal, disputem eleições, mobilizem-se para aperfeiçoar a legislação, ocupem cargos nas instituições dos poderes da República. As tradições religiosas têm capital intelectual, tecnologia social e sabedoria existencial acumulados em séculos de história para aportar nos diversos setores da sociedade. No entanto, o reino de Deus, a mensagem do Evangelho e as verdades dos textos sagrados que são objetos de fé não são monopólio de ninguém, como parecem reivindicar certos grupos fundamentalistas. Na tradição protestante, o fundamentalismo tem sua origem nos 12 panfletos intitulados "The Fundamentals", publicados nos Estados Unidos entre 1910 e 1915. Teólogos conservadores argumentavam a favor das verdades consideradas fundamentais para a religião e defendiam a inerrância da Bíblia e sua interpretação literal. Partindo do princípio de que a Bíblia é a palavra de Deus, afirmaram que ela não poderia conter erros de qualquer ordem, seja teológico, histórico, ou mesmo científico. O fundamentalismo controla a hermenêutica bíblica e, portanto, a própria Bíblia, para corroborar as verdades que considera essenciais e inquestionáveis, jamais sujeitas a atualizações, contextualizações e revisões. Desconhece que o que considera verdades são construtos históricos afetados e influenciados pelas culturas e pelos contextos políticos, econômicos e sociais onde são discernidos ou elaborados. O fundamentalismo negligencia que não se deve confundir ou fazer equivaler as interpretações da verdade revelada com a verdade em si. Para ficar apenas no âmbito do fundamentalismo cristão, importa afirmar que a Bíblia não é um texto capaz de falar sozinho, prescindindo da interpretação do leitor, até porque o próprio texto não caiu do céu, independente da experiência de seus autores. Quem acredita que o texto sagrado é um sistema fechado de palavras, com apenas uma interpretação correta, objetiva e unívoca, que se aplica literalmente em qualquer lugar e qualquer tempo, desconhece que o Deus que se revela e a verdade revelada são de ordem que transcende ao texto, às palavras e à linguagem. Deus é incontível. Assim também a alma humana e suas circunstâncias. A palavra de Deus é viva, como a própria Bíblia ensina. O fundamentalismo peca por enclausurar a verdade, ou verdades, e submeter o sagrado divino à objetividade da razão. Igualmente peca quando pretende impor sua interpretação da verdade como única verdade. E também porque é incapaz de admitir que a verdade transcendente é viva e, portanto, deve ser flexibilizada a favor da vida. Falando a respeito da Lei de Moisés, Jesus ofereceu seu critério hermenêutico: "O sábado foi criado por causa do homem, não o homem por causa do sábado". Afirmar que a verdade emerge de processos históricos, e por isso mesmo deve sofrer permanente revisão, contraria a lei divina expressa na lei natural, ambas fixas e imutáveis. A verdade, especialmente aquela revelada nos textos sagrados, por definição é universal e atemporal. Assim pensam os fundamentalistas. Aqui está a base filosófica e teológica de boa parte da atual "direita cristã", que se consolida a partir de uma aliança neoconservadora formada por evangélicos com vínculos com a renovação carismática católica nos Estados Unidos desde a década de 1950. O projeto político conservador ganha força, entretanto, a partir dos anos 1970, em razão de duas causas: o avanço das pautas feministas e das demandas dos movimentos LGBTQIA+ e a integração em forma de coalizão entre a direita secular e a direita religiosa. A direita secular, base do Partido Republicano, tinha como bandeiras o militarismo anticomunista, o tradicionalismo moral e o neoliberalismo econômico. A direita cristã se identificava com esse projeto em razão de suas crenças morais e sua luta contra o comunismo. Com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e a conquista da maioria no Congresso pelo Partido Republicano, a religião entra definitivamente no jogo, mobilizando pessoas comuns que "trabalham duro, leem a Bíblia, vão à igreja, obedecem às ordens do governo, lutam em guerras e morrem pelo Estado", diz o cientista político Damon Linker no texto "The Rise and Fall of Neoconservatism" (2011). Assim, o nacionalismo se une à religião e "os valores republicanos saem de cena, e em seu lugar aparece a Nação Cristã", completa ele. Quando o debate público se torna um conflito entre luz e trevas, um campo de batalha onde o adversário precisa ser convertido ou eliminado, Deus permanece distante, com lágrimas nos olhos, como Jesus ao contemplar a Jerusalém que matava profetas. Deus não se presta ao papel de legitimar, autenticar e muito menos promover agendas que caminham na direção contrária da misericórdia, da compaixão, da solidariedade, da justiça e da paz. Deus é desfigurado quando usado para manter um sistema social meritocrático e injusto, manter crianças abusadas e estupradas impedidas de abortar os bebês que jamais deveriam habitar seus ventres infantis, para legitimar o extermínio da população pobre e negra a título de política de segurança pública, para autenticar guerras e genocídios, para condenar pessoas homoafetivas e trans à morte e ao inferno, para fazer vistas grossas às violências domésticas e feminicídios causados por homens que se julgam possuidores dos corpos das mulheres, para encarcerar crianças tratadas como potenciais bandidos e ameaça às pessoas de bem, para justificar o tratamento da população carcerária como animais irredimíveis, para destruir o planeta em nome de um novo céu e uma nova terra. O maior pecado dos fundamentalistas é pretender ocupar o espaço que pertence à consciência do outro. E ainda pior, pretender ocupar um espaço que pertence somente a Deus. Quando alguém se atreve a dizer exatamente como você deve interpretar cada texto bíblico, como pensar, como se comportar, como organizar sua vida, quem deve amar e quem deve deixar de amar, ou como viver sua espiritualidade, está fazendo o contrário do que Deus faz. Existe uma bela página da cabala judaica, formulada por Isaac Luria (1534–1572), baseada no conceito de tzimtzum, que significa "contração", "retração" ou "autolimitação". Para que um universo distinto pudesse vir a ser, Deus realizou um tzimtzum, uma retirada simbólica de sua presença, com o fim de criar o espaço onde a criação pode existir. A "contração divina" permite que haja alteridade da criatura. Se Deus ocupasse todo o espaço e se manifestasse em sua plenitude, isso seria irresistível, e nada poderia existir livremente. Isso ecoa a poesia dos cristãos do primeiro século, perenizada pelo apóstolo Paulo, que usou a kenósis (esvaziamento, autolimitação) de Jesus como critério de atitude e comportamento humano: "Seja o modo de pensar de vocês o mesmo de Cristo Jesus, que, apesar de ser Deus, não considerou que a sua igualdade com Deus era algo que deveria ser usado como vantagem; antes, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens". O contraste está estabelecido: Deus criador se contrai, se esvazia, autolimita, enquanto a criatura quer se expandir sem limites até que seu ego ocupe todo o espaço. Deus se faz homem, o homem aspira ser Deus. Desde as primeiras páginas da Bíblia o padrão se repete. A serpente que seduziu o casal ancestral ainda hoje continua fazendo a cabeça de muita gente. Reivindicar aval divino para um projeto de poder político temporal equivale ao fanatismo, que por sua vez conduz inevitavelmente à cultura de hostilidade, violência e, em última instância, morte. Jesus foi a única exceção. Falava em nome de Deus, emprestou o nome de Deus para seu projeto utópico, reino de Deus, e reivindicou ser não apenas filho Dele, mas de fato "um com Deus", e exata expressão de Deus. Ao mesmo tempo, apresentou a si mesmo como "manso e humilde". Profetizado como aquele que traria justiça e esperança às nações, a seu respeito foi dito: "não discutirá nem gritará; ninguém ouvirá a sua voz nas ruas; não quebrará o caniço ferido nem apagará o pavio fumegante, até que faça triunfar a justiça" (Isaías 42.1-4; Evangelho de Mateus). Seu modus operandi foi o amor radical capaz de vencer o mal com o bem. Jesus foi a ideia mais elegante de Deus que a humanidade pôde vislumbrar. Aqueles que detinham o privilégio religioso, político, econômico e militar, e em nome de Deus exerceram seu poder, o crucificaram. Sob sua cruz, uma pequena placa ostentava a inscrição "rei dos judeus", indicando o crime pelo qual foi condenado: sedição. Os que julgam possuir Deus, matam. Os que são possuídos por ele, deixam-se matar. Mas são estes últimos, os que regam o solo do mundo com seu sangue inocente e justo, que fazem possível a vida, teimosa como a fé, bela como a esperança, poderosa como o amor, mais forte do que a morte.

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