A favela Nova Kampala tem uma história de idas e vindas no bairro da Penha, zona leste de São Paulo. Ela surgiu em meados da década de 2000. Foi desocupada em 2010, mas reapareceu quatro anos depois. Agora, deve encontrar seu fim. Pelo menos 1,2 mil famílias já foram retiradas. Dessa vez, o terreno vai abrigar uma estação do metrô. Por outro lado, uma parte dos moradores decidiu resistir à desocupação em meio às demolições empreendidas pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Parte da área ocupada será destinada à construção da futura estação Gabriela Mistral, uma das paradas da segunda fase de expansão da linha 2-verde do metrô de São Paulo. A entrega desse trecho, com 6,2 km de extensão, cinco estações e um pátio de manutenção de trens, está prevista para o início da próxima década. A remoção de 1,8 mil famílias pobres, no entanto, gerou um conflito entre os moradores da favela e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), dona do terreno e responsável por desocupar a área de 47 mil metros quadrados. Cerca de 600 famílias estão se recusando a deixar suas casas e a aceitar a proposta da CDHU. A companhia oferece R$ 2.400 para a mudança e mais R$ 800 mensais de auxílio-aluguel. A empresa pública argumenta que há um mandado de reintegração de posse, que decisões da Justiça autorizaram as remoções e que vem tentando negociar uma saída amigável junto à população local. Afirma, também, que as condições do local "são impróprias para moradia, devido à contaminação do solo, inclusive por metano, além de outros riscos associados à infraestrutura precária, como ocorrência de incêndios". Em visita à favela na quinta-feira (27), a Folha encontrou servidores da CDHU abordando as famílias. Algumas responderam com hostilidade. A associação de moradores diz que a CDHU se utiliza de "ameaças e intimidação" para tentar convencer as famílias a deixar a área. "Os servidores falam que, se não sairmos por bem, seremos retirados à força com ajuda da cavalaria da Polícia Militar", diz a promotora de vendas Maria do Rosário Ferreira, 37, uma das diretoras da associação União e Fé, que representa a comunidade. "Estamos vivendo um momento de guerra aqui", diz a comerciante Josefa dos Santos Fontes, 52, dona de uma loja de roupas na favela. "A gente passa por muita luta. É muita humilhação aqui dentro. Quando não falta água, é a humilhação da CDHU em cima, a todo momento querendo derrubar a casa da gente." Migrante da Bahia, Josefa conta ter investido mais de R$ 80 mil nos últimos anos para levantar sua casa e manter seu comércio em uma esquina da Nova Kampala. "Tudo o que a gente conseguiu na vida está aqui. Não vamos sair com as mãos abanando", diz. Há pouco mais de um mês, a Polícia Militar foi chamada depois que moradores tentaram impedir a demolição de um imóvel que era usado para armazenar doações de alimentos e de brinquedos para as crianças. Alguns moradores, como Josefa, foram levados à delegacia, embora não tenham sido autuados por nenhum crime. Para a dona de casa Marisalva da Silva, 53, a proposta de saída da CDHU não contempla as demandas de parte dos moradores. Na favela há 12 anos, ela conta ter pago R$ 50 mil pelo terreno onde fica sua casa de três cômodos, onde vive com o marido e quatro filhos. "O que o governo oferece pra gente é uma dívida de 30 anos. Eles te dão uma merreca para sair e depois te colocam num financiamento de um apartamento. Eu tenho 53 anos, e vou ficar três décadas pagando? Tudo o que tínhamos foi investido aqui. Minha família é pobre, não temos como pagar um financiamento. Nós não vamos sair daqui", diz. Em nota à Folha, a CDHU afirmou que famílias retiradas do local terão acesso "às alternativas da política habitacional estadual, incluindo imóveis prospectados pela companhia". Uma das opções, diz a empresa, fica em frente à comunidade, "permitindo a manutenção de vínculos com o bairro, escolas e serviços públicos." A CDHU também afirmou que depois da desocupação e limpeza do solo, parte do terreno ao lado da estação Gabriela Mistral vai abrigar conjuntos habitacionais da companhia. Em vários pontos da favela a reportagem encontrou montanhas de lixo, entulho e móveis abandonados depois das demolições contratadas pela CDHU. "Eles deixam todo o entulho ao lado da casa das pessoas que ficaram, o que tem atraído muitos ratos. Isso vai tornando nossa vida muito mais difícil. É uma pressão enorme em cima da gente", diz o costureiro peruano Jaime Rodrigues, 40, que também faz parte da associação de moradores. Parte da população da Nova Kampala é formada por imigrantes, principalmente de países como Peru, Bolívia e Haiti. A CDHU afirmou que as demolições são acompanhadas por engenheiros e que servidores da companhia estão orientando os moradores sobre o andamento das obras e alternativas habitacionais. Expansão da linha 2-verde A estação Gabriela Mistral fará parte da segunda fase de prolongamento da linha 2-verde, que atualmente liga a Vila Madalena, na zona oeste, à Vila Prudente, na zona leste. Segundo metrô, a estação será um dos "principais pontos de integração da expansão da linha 2". A companhia prevê um fluxo diário de quase 100 mil passageiros apenas na estação Gabriela Mistral. No total, a linha 2 deve carregar quase 1,5 milhão de pessoas por dia quando a expansão estiver pronta, tornando-se o ramal mais movimentado do metrô de São Paulo. A linha 2 vai terminar na estação Dutra, dentro do município de Guarulhos. O ramal também será o maior da rede de metrô, com 29,2 km de extensão e 27 paradas. O prolongamento, cujas obras se iniciaram em junho de 2020 na gestão de João Dora (PSDB), também vai conectar a linha 2 a outros ramais da rede metroferroviária: a 3-vermelha e a 11-coral na estação Penha; 12-safira e 13-jade justamente na estação Gabriela Mistral, e a futura linha 19-celeste, em Dutra. Em 2027, o metrô deve entregar as primeiras quatro dessas estações e, no ano seguinte, mais quatro paradas. A segunda fase da extensão até Guarulhos, com a estação Gabriela Mistral incluída no pacote, está prevista para o início da próxima década, segundo o metrô.
Fam�lias resistem a deixar favela demolida para obra de esta��o do metr� de S�o Paulo
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