São Paulo A produção agrícola brasileira cresceu mais rápido do que a capacidade de armazená-la, e o déficit de armazenagem chegou a 40%, segundo Renato Arroyo, CFO (diretor financeiro) da Kepler Weber, empresa que atua na pós-colheita, com soluções de beneficiamento, movimentação e conservação de grãos. Sem ter onde guardar a safra, o produtor precisa vender rápido e escoar a colheita em caminhões, o que provoca picos no valor do frete e perdas de qualidade. Os custos, segundo o executivo, são repassados ao produto. Renato Arroyo, CFO da Kleper Weber, empresa especializada em conservação e armazenamento de sementes, grãos, biocmbustíveis, rações e alimentos. - Karime Xavier/Folhapress Essa inflação, afirma Arroyo, pressiona mais o consumidor de baixa renda. "Por isso, é importante ter um plano de armazenagem para o país que, efetivamente, conseguiria inibir essas oscilações", diz. Arroyo foi reeleito diretor financeiro e de Relações com Investidores da companhia pelo conselho de administração da Kepler Weber no último dia 14, para um novo mandato de dois anos, com início em 1º de novembro. Em entrevista à Folha, o executivo falou sobre o problema do déficit de armazenagem, sobre o que defende para enfrentá-lo, e também sobre o mandato e as expectativas para os próximos dois anos Leia a seguir os principais trechos: C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões O que é e qual o tamanho do déficit de armazenagem no Brasil? O déficit de armazenagem hoje é de cerca de 40%. De tudo o que a gente produz, falta armazenagem para 40%. Isso considerando um cenário uniforme. Não há sempre uma produção equivalente no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, por exemplo. Isso oscila bastante, mas o dado considera um cenário de produção isonômica. Esse número pode dizer muito ou pouco. Nos Estados Unidos há mais de 120% de armazenagem em relação ao que é produzido. Produz 100 e tem 120 de capacidade. Nos países europeus é em torno de 100%. O Brasil está muito aquém dos outros players mundiais. Outro dado relevante é o que acontece dentro da fazenda, onde a produção se origina. Hoje só 16% do que se produz pode ser armazenado nas fazendas. O déficit nessa ponta é de 84%. No comparativo com outros países, a Argentina, por exemplo, armazena 45% dentro das fazendas. Canadá e Estados Unidos armazenam entre 60% e 80%. Então, o déficit ainda é mais relevante quando a gente vai nessa métrica olhando só as fazendas. Aqui [além da armazenagem nas fazendas] a gente tem as tradings, os cerealistas, as cooperativas, que, de certa maneira, ajudam a equalizar um pouquinho desse déficit. Há culturas e regiões com um gargalo de armazenagem mais crítico? Quais são? Primeiro vale voltar um pouco. A produção cresceu muito. Isso é fruto da eficiência e da capacidade brasileira de produzir. Ter duas safras também ajuda. Uma de soja e outra de milho [primeira e segunda safra]. Mas o gargalo maior hoje está no Mato Grosso. Grande parte da produção ficava no Sul do país. Ela migrou para regiões mais ao norte. Principalmente o Mato Grosso e o Matopiba [fronteira agrícola que abrange o estado do Tocantins e partes do Maranhão, Piauí e Bahia]. Nessas regiões a ineficiência da armazenagem é ainda maior. Isso porque essas regiões cresceram muito mais nas produções. A armazenagem não conseguiu acompanhar o ritmo da produção. Esse é o grande fator. As colheitas têm picos. O da primeira safra vem entre janeiro e março. O da segunda vem um pouco mais adiante. Isso gera uma oscilação gigantesca. Sem armazenagem na fazenda o produtor guarda a produção dentro de um caminhão. Ele faz o frete até uma cooperativa ou até o porto. O produtor também precisa decidir vender rápido. Ele diz que está produzindo e não tem onde guardar. Precisa despachar. Nesses momentos pode haver picos de custo de frete. Isso é repassado ao produto automaticamente. Também pode haver avaria, que é uma perda de qualidade do produto. Isso vira inflação, que pressiona muito mais a população de baixa renda. Por isso é muito importante termos um plano de armazenagem para o país. Esse plano conseguiria inibir as oscilações. É o ponto principal que a gente defende. O consultor Carlos Cogo calcula uma perda de qualidade de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões por ano só com essa perda de qualidade. Que fatores ajudaram a manter esse déficit? Por que o Brasil não se adaptou a tempo? Tivemos um crescimento mais exponencial que o de outros países. Esse é o lado positivo da produtividade brasileira. O produtor é jovem e focado em novas tecnologias. O outro ponto é que precisamos de uma política específica. Ela deve gerar subsídios para quem vai fazer armazenagem. Deve gerar também melhores condições de crédito como um todo. Precisa ainda verificar quais riscos o país corre sem uma política de armazenagem. O custo de não dar crédito ou de ser burocrático na concessão volta para o país via inflação. É preciso uma análise clara de como fomentar a armazenagem. Isso depende muito de crédito e de maneiras mais claras de subsídio. A produção cresce muito mais do que a armazenagem. Nos últimos dez anos ela cresceu mais de 10% ao ano de forma ponderada. Já a armazenagem cresceu em torno de 3%. Ela não acompanha. Foi abrindo uma "boca de jacaré". Em 2016 o déficit era da ordem de 10%. Hoje está em 40%. Nós como companhia estamos aqui para ajudar esse setor. Mas é preciso que produtores e agentes de mercado consigam se financiar de maneira mais rápida. O Plano Safra sozinho não é suficiente para suprir a necessidade de hoje. No crédito qual é o principal problema? Hoje a taxa de juros chega a ser ofensiva. Fazer um investimento com juros de 13% ou 14% é uma condição indispensável do mercado. A gente entende que as taxas deveriam ser de um dígito. Só assim se consegue fazer bons financiamentos. O prazo também deveria aumentar, entre cinco e dez anos. Esse seria o ideal para a economia. O senhor foi reeleito. O que há de plano para o futuro agora com o mandato de mais dois anos? A reeleição valerá de 1º de novembro de 2026 até 1º de novembro de 2028. O foco do mandato é o crescimento e produtos inovadores que melhorem a qualificação da companhia, além de inovações tecnológicas. Haverá muito foco em automação. Queremos produtos para reduzir a necessidade de mão de obra porque sabemos que isso é uma dor de todos os agentes de mercado hoje. Renato Arroyo foi reeleito CFO da Kepler Weber e começa novo mandato em 1º de novembro - Karime Xavier/Folhapress Outro ponto importante é a Procer. É a empresa de tecnologia da companhia. Hoje cerca de 15% do faturamento vem de produtos desenvolvidos nos últimos cinco anos. A gente quer continuar assim. Além disso, é preciso manter a sustentabilidade econômica. A Kepler tem entregado resultados sólidos mesmo num cenário desafiador. A empresa entregou um segundo trimestre de caixa líquido. Isso significa mais caixa do que dívida. Ela também gera retorno para os acionistas mesmo nesse cenário bastante adverso. O mandato basicamente é isso. Continuar desempenhando e trabalhando nesse cenário difícil. A gente acha que a companhia está se saindo muito bem. Isso se deve à fortaleza da empresa e aos clientes.
Falta de armazenagem agr�cola impulsiona infla��o de alimentos no Brasil, diz CFO da Kepler Weber
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