Se o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, tinha alguma estratégia para fazer avançar a investigação das ligações entre o ministro Alexandre de Moraes e o corruptor Daniel Vorcaro, ela fracassou. A tão aguardada sessão pública para a deliberação óbvia e urgente se tornou histórica pelo pior motivo —uma exposição de rara clareza da degradação de uma instituição fundamental do Estado democrático de Direito. Sobraram quase apenas dúvidas de todo o falatório e das trocas de ofensas entre os ministros. Não se sabe quais serão os próximos passos do rito processual, muito menos se haverá como desfazer o impasse criado pela divisão dos ministros. A única certeza é que, mais uma vez, o recurso ao pedido de vista foi utilizado como artifício protelatório a partir de um pretexto esfarrapado. Com isso, o exame do tema ficará parado por até 90 dias, talvez à espera de um escândalo maior que ocupe o noticiário, talvez na expectativa de um conluio salvador para todos. Para o fiasco decerto contribuiu a inesperada e mal-explicada saída de cena de Kassio Nunes Marques, que se declarou impedido com a risível alegação de estar no comando do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e diante de um caso com potencial impacto no pleito. Pouco antes, divulgara-se que nas mensagens do celular de Daniel Vorcaro —cujo conteúdo havia sido requisitado pelos ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, além de Moraes— havia menções a pagamentos feitos a um filho de Nunes Marques. Não muito depois, soube-se de uma agressiva troca de mensagens entre Nunes Marques e Gilmar. Com menos um voto esperado a favor da investigação, a sessão foi dominada pelo quarteto da impunidade —o próprio Moraes, que, a exemplo de Dias Toffoli, deveria ter declarado sua suspeição, Flávio Dino, responsável pelo pedido de vista, Gilmar e Zanin. Sem nenhum vestígio de escrúpulo ou constrangimento, o grupo exibiu à nação um vasto repertório de chicanas regimentais, verborragia bacharelesca e, quando necessário, provocações grosseiras. Fachin, cuja autoridade foi questionada desde o início, serviu ao papel de tirar das sombras do tribunal a atuação dos que defendem o indefensável. Pois, ao fim e ao cabo, tudo não passa de pretender que um ministro do Supremo não se sujeite às mesmas leis que aplica aos demais cidadãos —e, mesmo se dizendo inocente, não possa se submeter a um mero procedimento investigativo no qual teria oportunidade de esclarecer os fatos. Contra o descaramento resta, por ora, a vigilância da sociedade, dado que seus representantes se encontram às voltas com cálculos eleitorais a poucos dias do pleito. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, busca se distanciar de Moraes com platitudes como "se cometeu delito, tem de pagar", mas sem defender abertamente uma investigação. A política nacional parece fadada a tratar do tema doravante. editoriais@grupofolha.com.br
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